Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 24/07/2014

Ariano Suassuna, o mais brasileiro entre todos os brasileiros

Não me refiro ao orgulho ou ao patriotismo expresso na paixão e na defesa incondicional da cultura popular brasileira.

Chamo Ariano Suassuna de o mais brasileiro entre todos os brasileiros porque ninguém jamais reuniu tantas e tão intensas características – mesmo as dissonantes do tipo padrão – comuns à nossa alma, ao conjunto de elementos que formam o nosso espírito.

Ariano tinha a simplicidade e a humildade de um camponês que sabe precisamente a importância da terra e valor do trabalho, mas não precisa fazer alarde de nada na vida.

Ariano Suassuna

“Vou ficar com saudade”, diria.(Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

Ao mesmo tempo em que exibia essa face do matuto, do jeca tatu tão discriminado pelo povo da cidade, Ariano tinha uma erudição cultural à qual raríssimas pessoas puderam se equiparar.

Seu ar prosaico, distraído e relaxado - de nordestino que adora deitar na rede para refletir profundamente sobre a morte da bezerra - escondia a disciplina hercúlea para a pesquisa e a produção literária, assim como o rigor extremo e o alto nível de exigência que encontramos mais comumente em acadêmicos e cientistas, nem sempre em artistas.

De forma semelhante, conjugava tanto a arte do improviso – tão bem empregado nas suas aulas-shows – quanto o laborioso e metódico ofício do ourives literário. O “jeitinho brasileiro” se encontrava com o gênio diligente e cuidadoso.

Como tantos conterrâneos, estampava no rosto o sorriso e a doçura da eterna criança, ao passo em que podia ficar mais enfezado do que siri em lata de querosene quando escutava alguma asneira, especialmente algo que considerasse ofensivo à cultura popular brasileira.

Expressava suas convicções com o vigor de um militante político – e nunca hesitou em assumir seu lado na política – ao tempo em que sabia reconhecer um equívoco (ou um exagero) próprio e se redimir por isso, como ocorreu com Chico Science e o nascente movimento manguebeat, no início dos anos 1990.

Era conhecido como o mais ferrenho e intransigente defensor da cultura brasileira, mas jamais escondeu que suas maiores influências artísticas são autores estrangeiros.

Seu bom humor tipicamente nordestino – que ri da própria desgraça como remédio para a mesma – era amplamente conhecido, mas não negava seus momentos de turrão e ranzinza.

Ariano Suassuna sorrindo

Risada boa (Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

Ostentava com prazer a paixão irracional pelo futebol da qual tantos compatriotas também sofrem.

Carregava a curiosidade aguda em relação a tudo que dizia respeito ao universo da arte, tanto quanto o orgulho bairrista do qual não abria mão “nem pr’um trem”. Costumava dizer que os rappers americanos não chegavam aos pés dos repentistas sertanejos e que o rap não se comparava à embolada.

À parte tudo isso, escreveu magistrais obras que, em outro idioma ou talvez em outro país, teriam virado referências universais, mas jamais se preocupou com a fama efêmera das multidões, embora prezasse imensamente o reconhecimento e o carinho do público.

Ariano Suassuna

“Obrigado” (Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

A criação da maior parte de suas personagens foi inspirada no romanceiro ibérico medieval, mas da contemporaneidade tupiniquim extraía a riqueza essencial dos tipos que povoaram sua lavra.

Ariano, mais do que um Quixote da cultura brasileira, era como o avô que todos gostaríamos de visitar aos domingos, o amigo que gostaríamos de levar ao estádio, o professor que sonhávamos ter na escola, o conselheiro a quem recorreríamos nos momentos de dúvida, o companheiro que ouviria nossas lamúrias no bar, o porteiro do nosso edifício ou o síndico do condomínio, o dono da banca de revistas ou da padaria da esquina, o cronista que leríamos no jornal todos os dias, o apresentador do programa de variedades no fim da noite, o taxista que te atualiza com as notícias e tendências da cidade… ele era tudo isso e muito mais.

Ariano Suassuna foi e é uma síntese do povo que o inspirou. O mais brasileiro entre todos os brasileiros.

Ariano Suassuna

Será que ele foi? (Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

Numa das quatro ou cinco vezes que nos falamos, sempre rapidamente, no intervalo ou fim de algum evento no qual ele brilhara, lhe contei uma ideia para um futuro livro que ainda pretendo escrever: “Nordestemido povo – contos e causos nordestinos”, expliquei. “Bom título”, comentou. “Siga em frente”, acrescentou. Também disse que ele seria uma fonte obrigatória. Se colocou à disposição. Quase dez anos após esse breve diálogo, em Salvador, se não estou enganado. E hoje descobri que Ariano Suassuna não era imortal.

Primeiro encontro com o mestre. Recife, junho de 2000.

Primeiro encontro com o mestre. Recife, junho de 2000.

Em 2015, justamente trinta anos após assumir, de forma inesperada, a presidência da República, José Sarney deixará de ser, pelo menos no plano formal, um dos cardeais da política brasileira. E a eventual – cada vez mais provável – vitória de Flávio Dino (PCdoB) ao governo do Maranhão poderá alterar ainda mais o tabuleiro político nacional.

O outono do patriarca – com o devido perdão ao verdadeiro imortal Garcia Márquez – da oligarquia maranhense não chega meramente pelo desejo de aposentadoria. A renúncia à disputa por mais um mandato no Congresso Nacional é consequência do enfraquecimento paulatino experimentado há anos, tanto na terra das palmeiras onde nem sempre cantam os sabiás e no Amapá quanto no Planalto Central.

Vacinado pelas dificuldades enfrentadas em 2006, quando venceu por pequena margem (53% a 43%), “El Bigodón” sabe que não venceria o pleito ao Senado este ano no Amapá. Tal qual o pai em 1990, que mudou o domicílio eleitoral para o antigo território, temendo a iminente derrota para Cafeteira, Roseana Sarney sabe que dificilmente seria reconduzida à Câmara Alta pelos maranhenses em outubro. Por isso, evitou o vexame da derrota e também anunciou sua saída da política institucional.

A escolha do suplente de senador Edison Lobão Filho (PMDB) para a disputa do governo contra Flávio Dino é apenas mais um entre tantos sinais do desespero que tomou conta da oligarquia.

Medíocre parlamentar, Lobinho até recentemente era apenas conhecido como um playboy destemperado na noite de São Luís. Daí que para muitos foi uma cena chocante vê-lo alçado à condição de senador, mesmo considerando os padrões não muito elevados do Senado.

Com o esmaecimento da influência de Sarney sobre o PMDB nacional, que não ocorrerá imediatamente, mas é inevitável, deverá haver forte movimentação interna, sendo eufemista, em torno do espólio do ex-presidente.

Nos últimos meses, o PT nacional – a contragosto do “PT de bigode”, a ala sarneísta da legenda no Maranhão – deu vários passos para sinalizar a intenção de descolamento da família. O último foi negar ao diretório estadual a permissão de indicar o vice da chapa de Lobão Filho.

Obviamente, a dilapidação do capital político de Sarney não dependerá exclusivamente ao resultado no seu estado de origem, mas este será um fator de grande peso.

Flávio Dino

Será o primeiro governador da história do PCdoB?

Em caso de vitória, Flávio Dino será o primeiro governador da história quase centenária do PCdoB. Não há dúvidas de que o partido dedicará uma enorme parcela da sua energia e da sua estrutura à eleição que poderá sepultar uma das unanimidades – em termos de rejeição e ojeriza – nacionais. Daí que a visibilidade da eleição maranhense será bem maior e poderá ter consequências bem mais impactantes do que teria em condições normais.

Flávio Dino – junto com seu arco de alianças, que reúne um amplo e heterogêneo espectro ideológico – certamente se tornará um ator político de estatura nacional: “o homem que enterrou a oligarquia Sarney” mesmo em um partido pequeno, enfrentando uma colossal máquina política e midiática no estado e com apenas oito anos de carreira política, na qual brilhou como deputado federal e ministro, é bom lembrar. Este será o seu cartão de visitas.

O que será da política brasileira sem Sarney? Para responder isso, é bom prestar atenção aos resultados de outubro no Maranhão.

Rogério Tomaz Jr.
Jornalista formado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 17/07/2014

“Um lugar sem limites”, uma leitura proeminente

Anos 1960. Numa vila erma do Chile, próxima a Talca apenas na distância geográfica, longe do resto do mundo em sinal de existência, exceto pelo puteiro e pelos vinhedos, Manuela tenta ser quem é verdadeiramente.

Num lugar sem energia elétrica, a protagonista do livro de José Donoso (1924-1996) luta para manter acesa a luz própria, atacada permanentemente pela moral patriarcal, machista e homofóbica que ainda hoje – o livro é de 1965 – domina o mundo e, muitas vezes, esmaga quem ousa afrontá-la.

Um lugar sem limites, do chileno José Danoso - aproveite a promoção da Cosac Naify

Um lugar sem limites, do chileno José Danoso – aproveite a promoção da Cosac Naify

A narrativa é, a um só tempo, doce e delicada, bruta e ríspida, intimista e sociológica. O clima e os sentimentos são alternados, por vezes, de uma frase para a outra, sem qualquer elemento distintivo ou transitório. O mesmo ocorre com o narrador principal e os secundários, que ora parecem ser, todos, meros ectoplasmas do ambiente em que vivem, para em seguida ganharem vida e raízes profundamente identificáveis com qualquer pessoa que tenha vivido em (ou simplesmente conhecido) um lugar como o cenário da trama.

A violência, de todos os tipos, sofrida por Manuela – um travesti apaixonado por dança e pelo seu vestido vermelho – é representativa dos abusos que ainda sofrem, cinquenta anos de “evolução e progresso” depois da obra ter sido escrita, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e transsexuais em praticamente todo o mundo. Nesse sentido, a Estação el Olivo é uma síntese do mundo. Síntese de uma dimensão que parece estar apartada das velozes transformações sociais pelas quais passam as demais esferas da sociedade.

José Donoso, tido por Vargas Llosa como “o mais literário de todos os escritores que conheci”, menos famoso que seus contemporâneos latino-americanos, instiga o nosso pensamento sobre valores como Justiça, Igualdade e Liberdade e ainda delicia os amantes da literatura com este pequeno e delicioso romance com ares de ensaio sociológico, muito antes de a academia se debruçar de verdade sobre a temática LGBT.

O livro recebeu uma ótima adaptação para o cinema do mexicano Arturo Ripstein. Abaixo o trailler. O filme inteiro está disponível (em espanhol, sem legendas) na Internet, mas recomendo fortemente a leitura da obra antes.

Foi publicado no Brasil pela Cosac Naify, que está como promoção de 50% (“Um lugar sem limites” sai por R$ 14,95) em todos os títulos neste mês de julho, por conta do seu 18º aniversário.

“El lugar sin límites” (1978)

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PS: Pela história e pela atuação enquanto militantes e parlamentares, dei um exemplar do livro à deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) e ao deputado Jean Wyllys (PSol-RJ). Coincidências da vida, Manuela me contou que visitou o Acre recentemente e que o rapaz que fora buscá-la no aeroporto estava lendo o mesmo livro.

PS2: De alguma maneira, “Um lugar sem limites” me fez lembrar o excepcional “Se me deixam falar”, a história da guerreira boliviana Domitila Barrios de Chungara contada por Moema Vizzer. Já tratei dela aqui no blog.

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 17/07/2014

Em Buenos Aires: o taxista racista e viúvo da ditadura

A minha mãe estava comigo. Embora ela não domine o espanhol, a fala do senhor septuagenário, bem compassada, como que arrastada, a permitiu compreender quase tudo. Em dez minutos de corrida, de San Telmo ao Caminito, o taxista atacou bolivianos, paraguaios, haitianos, colombianos e outros imigrantes pobres que povoam as villas (favelas) de Buenos Aires.

Que você nunca tenha a "sorte" que tive

Que você nunca tenha a “sorte” que tive (Foto: Rogério Tomaz Jr.) 

- Como podemos ficar atrás da Bolívia ou do Paraguai… em qualquer coisa? É uma vergonha isso! As villas estão cheias de bandidos porque o governo não faz nada. Antigamente isso não existia. É preciso ter mão pesada para isso!

Em vez de contestar, alimentei a fera. Comentei que no tempo do General Videla deveria ser melhor, o país devia ser mais decente.

- Ahhhh, claaaro que sim! Havia ordem e respeito naquele tempo!

Depois da isca, ele se sentiu à vontade.

- Veja você que os imigrantes que construíram esse país eram europeus… italianos, espanhois, ingleses, alemãos… e hoje… haitianos, colombianos, paraguaios… índios e negros… como podemos progredir assim, enquanto país?

Antes que eu vomitasse, chegamos ao destino.

Nunca tive carro em nove anos e meio de Brasília. Ando bastante de táxi. Em São Paulo e no Rio também. Já conheci saudosos da ditadura daqui, alguns que odeiam o PT até o último cromossomo, machistas e homofóbicos a rodo. E alguns com preconceito de classe e xenófobos também. Mas igual ao taxista argentino, nenhum no Brasil chegou sequer perto.

PS: A maioria absoluta dos taxistas argentinos que conheci não tem nada a ver com este senhor descrito acima. Ao contrário, quase sempre tive a sorte de pegar motoristas bem humorados, simpáticos, admiradores dos brasileiros e progressistas. Outra exceção, Murphy explica, foi quando estava com meus tios Paulo e Nazita e demos o azar de conhecer um de péssimo humor…

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 03/06/2014

Colunista da Forbes questiona se EUA são “país sério”

“Se os Estados Unidos são um país sério, por que não podem construir um aeroporto sério?”, questiona, já no título do artigo, o colunista Eamonn Fingleton, da Forbes, em texto publicado no último 18 de maio.

Colunista da Forbes questiona seriedade dos aeroportos dos EUA

Colunista da Forbes questiona seriedade dos aeroportos dos EUA

Descobri esse artigo pouco depois de ler os enfáticos elogios de Alexis Lalas - ex-jogador de futebol da seleção dos EUA e atual comentarista da ESPN – ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, a principal porta de entrada para o Brasil, junto com o aeroporto de Guarulhos.

Alexis Lalas elogia aeroporto do Rio

Alexis Lalas elogia aeroporto do Rio

Além dos elogios ao Galeão, Lalas falou no seu Twitter em “segurança visível” na praia de Copacabana. E, em resposta a um brasileiro que falou dos “muitos problemas”, mas também do “grande coração” e da “alma amigável” dos brasileiros, o ex-jogador disse que “todos temos problemas”.

De fato, os problemas do Brasil são enormes e alguns deles – como a brutalidade animalesca das nossas polícias – ficaram ainda mais visíveis no contexto da Copa do Mundo.

Nada justifica, porém, as recorrentes manifestações do complexo de vira-latas de quem faz oposição ao governo e, por isso (ou por outros motivos), torce para que tudo na Copa dê errado e para que passemos um vexame global.

Nelson Rodrigues, criador do termo e maior crítico deste complexo, mesmo sendo um conservador empedernido, se agita de indignação em seu túmulo ou nos botecos além da vida…

Eu considero astrologia uma coisa tão séria quanto a criação extensiva de capote (galinha d’Angola) no Pólo Norte. Mas há quem acredite em tudo. Até em astrologia.

Pois aquela que é considerada a maior astróloga do Brasil publicou, na Folha de São Paulo de quarta (28/05/2014), uma previsão política que daria inveja a Mãe Dinah – outra notória sábia e certeira analista política de inquestionável credibilidade.

“Lua nova em Gêmeos sinaliza fortalecimento das oposições ao governo Dilma nos próximos dias”, destacou Barbara Abramo no seu espaço no jornal que defendeu e trabalhou para a ditadura encerrada em 1985.

Barbara Abramo na Folha

Barbara Abramo na Folha

Pois veja o que disse a mesma astróloga em fevereiro de 2001 em entrevista ao jornal do Sindicato dos Bancários de São Paulo (o Renato Rovai, hoje com a Revista Fórum, assina a matéria, disponível aqui).

Barbara Abramo sobre Lula em 2001: "Se o Lula for o candidato do PT é para perder"

Barbara Abramo sobre Lula em 2001: “Se o Lula for o candidato do PT é para perder”

“Se o Lula for o candidato do PT é para perder”, cravou a astróloga.

Por ironia do destino, logo em seguida, questionada sobre a crença na astrologia, Barbara Abramo diz que as pessoas, com o tempo, vão “vendo que não era bem assim”…

Sei…

Veja o que ela disse, também em 2001, em dois chats do UOL com internautas. Clique nas imagens para ampliar.

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A 9 de agosto, Barbara afirma que “não há recursos para o Lula ser presidente”. Já em 6 de setembro, ela diz que “os aspectos de sol e saturno” a fazem crer que o PT não tenha “muita condição” de “ganhar essa parada e segurar”… pois bem, a “parada” já vai completar doze anos. Se Dilma ganhar e Lula for candidato em 2018… bem, até lá a Barbara talvez deseje se aposentar (ou não, depende do mapa)…

 

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 28/05/2014

Imagem do Dia (46) – A resposta numa rolha de vinho

Do que você precisa para ser feliz?

Quantas florestas viraram papel e quanta saliva foi gasta em conferências para essa resposta?, que pode ser encontrada, dependendo de quem faz a pergunta, numa rolha de vinho…

Rolha do vinho El Arte de Vivir

Rolha do vinho El Arte de Vivir

PS: Após quase dois anos, volto a publicar na seção “Imagem do Dia”. Sem compromisso…

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 23/05/2014

Meus cafés em Buenos Aires

Qualquer lista de “melhores cafés” de Buenos Aires será, inevitavelmente, arbitrária, subjetiva e absolutamente incompleta. Os 10 mil cafés* espalhados pelos 13 mil quarteirões da cidade explicam isso.

A paixão bonaerense pelo néctar negro é tão grande quanto a brasileira, mas há diferenças e a principal talvez seja o tipo de “templo” onde esse “culto” é realizado. Os cafés de Buenos Aires – e também de Montevideu – são um aspecto muito peculiar da cultura herdada do Velho Mundo. Seja na arquitetura, seja no hábito dos encontros marcados ou dos refúgios individuais, seja nos itens do cardápio, é inegável a influência européia neste circuito das duas cidades portenhas.

De 2011 para cá, perdi a conta de quantas vezes estive pelas bandas de lá. Nas quatro estações do ano, das 8h da manhã às 3h da madrugada, em mais de 15 bairros, creio que visitei pelo menos 50 cafés. Seguem alguns dos meus preferidos, sem qualquer pretensão de comporem uma lista de “melhores”.

*Segundo Ariel Palácios em “Os argentinos” (Contexto, 2013, 368p).

PS: Para conhecer mais sobre os cafés de Buenos Aires, a melhor fonte é o blog Café Contado (http://cafecontado.com), de Carlos Cantini. E a lista completa dos 54 cafés/bares notáveis está disponível aqui: http://www.54bares.com.ar/todos-los-bares/

PS2: Clique nas fotos para ampliá-las.

1. La Poesia (Chile 502, San Telmo – esquina com Bolívar): delícia de ambiente, com uma luz única, que justifica o nome. Cardápio para o desjejum, almoço e jantar, além de um chope artesanal (cerveza rubia, roja ou negra) encorpado e inesquecível. À noite, de vez em quando, jam session de piano ao vivo. Definitivamente, o meu preferido. Fica a cinco quadras da estação Independencia (linhas C e E do metrô). Abre diariamente às 8h e não tem hora para fechar.

Site: http://www.cafelapoesia.com.ar/

Já escrevi algumas coisas por lá:

http://brasiliamaranhao.wordpress.com/2011/07/27/vendedor-rosas-buenos-aires/

Café La Poesia (fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Café La Poesia (fotos: Rogério Tomaz Jr.)

2. El Federal (Carlos Calvo esquina com Peru, em San Telmo): fundado em 1864 (!!!), pertence ao mesmo grupo do La Poesia e ambos estão entre os “Cafés Notables” que recebem apoio da prefeitura para manter a tradição e a qualidade. Bem parecido com o irmão mais jovem, porém mais agitado. O cardápio é basicamente o mesmo, com alguns acréscimos, como as minipizzas, bem apetitosas. O imenso e antigo balcão é um chamariz à parte. Foi o lugar onde mais vezes estive em Buenos Aires. Está situado a seis quadras da estação Independencia do metrô. Também abre todos os dias das 8h até o último cliente (já fui esse sujeito algumas vezes). Site: http://barelfederal.com.ar/

Bar El Federal (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Bar El Federal (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

3. Bar Britanico (Av. Brasil esquina com Defensa, San Telmo): um dos mais antigos (1928) da cidade, chegou a ser fechado e reabriu as portas por pressão popular. Muita história, como mostram as fotos (durante a Guerra das Malvinas, depois de ter uma vidraça quebrada, o local virou o “Bar Tanico” para evitar qualquer confusão). Cardápio limitado, mas o ambiente é gostoso, leve e nostálgico. Com o Parque Lezama na frente, é um belo lugar para ver o dia passar. Lá também foi rodada uma cena do filme “Diários de Motocicleta”. Fica a dez quadras da estação San Juan (linha C) do metrô e abre de segunda a sábado das 6h até a meia-noite.

Bar Británico (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Bar Británico (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

4. Coffee Town (o quisque bem no centro do Mercado de San Telmo, na esquina da Bolívar com a Carlos Calvo): a “Meca” para os degustadores do grão, com cafés de catorze países (Ilha de Java, Papua Nova Guiné, Etiópia, Sumatra, Burundi, Índia, Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e outros países da América Central e África) que pode ser experimentados nos mais diversos métodos de preparo (espresso, cafeteira italiana, êmbolo francês, aeropress e o tradicional café coado). Se você gosta de verdade do produto e não tem pudor de pagar um pouco mais caro por isso, esse é o lugar imperdível! O Mercado de San Telmo fica a sete quadras da estação Independencia.

Site: http://www.coffeetownargentina.com/

Coffee Town, uma jóia no mercado (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Coffee Town, uma jóia no mercado (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

5. Los Galgos (Av. Callao esquina com Lavalle, bairro San Nicolás, entre centro e Recoleta): fundado em 1930 – “mais antigo que o Obelisco” – e ainda hoje com o estilo original, é inevitável a sensação de voltar 40, 50 anos no tempo. É como se universo lá dentro funcionasse em câmera lenta. Um quadro antigo no fundo do sóbrio salão imortaliza o garçon careca que ainda hoje serve pelas manhãs. O cardápio é básico, mas tanto a comida quanto o café são muito bons. Situado a uma quadra da estação Callao (linha B, não confundir com a estação Callao da linha D, que fica a 3 quadras do local). Aberto de segunda a sexta, das 6h às 20h.

Na Internet: https://www.facebook.com/pages/Los-Galgos/319276371453910

Los Galgos (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Los Galgos (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

6. Libros del Pasaje (Thames 1762, esquina com Costa Rica, Palermo): fora de San Telmo, é o meu favorito. Livraria com ambiente acolhedor e cardápio muito bem elaborado para um lanche de qualidade, porém com poucas opções de almoço ou jantar. Uma das melhores opções da cidade para comprar (e ler) livros de todo tipo, escrever, descansar de uma caminhada ou planejar o próximo passeio. Fica a oito quadras da estação Plaza Italia (linha D) do metrô e funciona de segunda a sábado das 10h às 22h e aos domingos e feriados das 14h às 21h. Site: http://www.librosdelpasaje.com.ar/

Libros del Pasaje (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Libros del Pasaje (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

7. Eterna Cadencia (Honduras 5574, esquina com Fitz Roy, Palermo): outra livraria-café que adoro, especialmente o terraço superior, perfeito para os dias frescos e luminosos. Destaque também para as saletas silenciosas com sofás ultraconfortáveis para você relaxar numa leitura (ou numa prosa) sem pressa. A excelente carta inclui um mojito de nível cubano, boas opções de vinho, comida variada e cafés de qualidade superior. Localizado a oito quadras da estação Dorrego (linha B) do metrô, abre de segunda a sexta das 11h30 às 21h e sábados de 11h30 às 20h. Site: http://www.eternacadencia.com/

Eterna Cadencia (Fotos: Sarmale / Olga, Aya Padrón e Rogério Tomaz Jr.)

Eterna Cadencia (Fotos: Sarmale / Olga, Aya Padrón e Rogério Tomaz Jr.)

8. Porota (Gorriti 5881, Palermo, entre Emilio Ravignani e Carranza): além de um espresso saborosíssimo, esse é O LUGAR para você provar algumas das coisas doces mais inesquecíveis da sua vida. Sem mais. Aberto de segunda a sexta das 8h às 20h e sábados das 11h às 18h, está situado a quatro quadras da estação Dorrego (linha B) do metrô. Site: http://porota.com/

Porota, paraíso doce (Fotos: porota.com)

Porota, paraíso doce (Fotos: porota.com)

9. Ateneo (Av. Santa Fé 1860, entre Callao e Riobamba, bairro Norte). A visita à livraria considerada a segunda mais linda do mundo é obrigatória e uma passada pelo ótimo café, que fica exatamente no palco do antigo teatro, completa o passeio. Fica a quatro quadras da estação Callao (linha D) do metrô e abre de segunda a quinta das 9h às 22h, sexta e sábados das 9h às 0h e domingos das 12h às 22h.

Ateneo, onde você toma café no palco (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Ateneo, onde você toma café no palco (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

10. Confiteria London City (Av. de Mayo, 599, perto da Plaza de Mayo). Nas suas mesas o grande Julio Cortázar escreveu seu romance inaugural (“Os prêmios”, 1960). A comida é  decoração cativa, assim como a iluminação, com muita luz natural atravessando as amplas janelas nos dias ensolarados. Menos badalado do que o quase vizinho Tortoni, porém sem o burburinho dos turistas e com o Cortázar te observando. Fica ao lado da entrada da estação Perú, linha A do metrô.

London City (Fotos: Wally Gobetz, Rosalie Smith e Isabel E.)

London City (Fotos: Wally Gobetz, Rosalie Smith e Isabel E.)

11. Café Tortoni (Av. de Mayo, 825). Lugar repleto de turistas onde você certamente ouvirá mais o português do que a língua nativa, mas vale a pena a visita pela beleza e pela história de mais de 150 anos. E se você nunca esteve em Buenos Aires, pode até curtir o show de tango que dura cerca de uma hora todas as noites (o ingresso precisa ser comprado com antecedência). O cardápio é bom e, para quem gosta da literatura local, é deveras interessante estar num local que teve Borges e Bioy Casares como clientes assíduos. A duas quadras da estação Peru (linha A) do metrô, abre de segunda a sábado das 8h às 3h30 e aos domingos das 8h até 1h da madrugada. Site: http://www.cafetortoni.com.ar/

Tortoni (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

Tortoni (Fotos: Rogério Tomaz Jr.)

12. Origen Café (Humberto Primo 599, esquina com Peru). Mais um bistrô e bar do que café, o Origen entra na lista por três motivos: a excelente qualidade dos cafés (tanto o espresso quanto o cappuccino e os especiais), o lugar (uma das mais interessantes esquinas de San Telmo, “La Esquina de las Flores”, com as mesas na calçada) e o ambiente interno, muito, mas muito gostoso. De bônus, você pode ter a chance de ser atendido por uma sósia da Cléo Pires. Fica a sete quadras da estação Independencia do metrô e a duas quadras da Plaza Dorrego, centro da famosa Feira de San Telmo.

Site: https://www.facebook.com/origencafe

Café Origen (Fotos: facebook.com/origencafe)

Origen Café (Fotos:

13. Martinez (é uma rede internacional e a loja que mais gosto é na Callao com Lavalle, na frente do Los Galgos). Sanduíches que valem por uma boa refeição em tamanho e qualidade, além de cafés de vários países e estilos. Estilo meio modernoso, mas aconchegante. Site: http://www.cafemartinez.com/

Café Martinez (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Café Martinez (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Para conhecer mais sobre os cafés de Buenos Aires, a melhor fonte é o blog Café Contado (http://cafecontado.com), de Carlos Cantini. E a lista completa dos 54 cafés/bares notáveis está disponível aqui: http://www.54bares.com.ar/todos-los-bares/

Por fim, seria ótimo receber comentários com sugestões, críticas, contos e relatos sobre estes e outros cafés que você tenha conhecido em Buenos Aires, Montevideu (em breve um post sobre os cafés de lá) ou qualquer outro canto do mundo.

[Agradecimento especial a algumas pessoas que me deram tantas dicas e me receberam tão bem em Buenos Aires: Sofía e Gustavo, Lia e Fede, Luís Flores, María Hirshfeld e Ester, Fernanda, Lu Carvajal e Thiago Ferronato, o garçon Carlos do El Federal, meu mestre Márcio Araújo e a outros que eu posso estar esquecendo injustamente]

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 20/05/2014

Deputada é atacada por secretário-geral da Mesa da Câmara

Um fato inédito e inusitado na história do Congresso Nacional ocorreu nesta terça-feira, 20 de maio de 2014.

Enquanto fazia um discurso de protesto contra o encerramento abrupto de sessão solene em homenagem aos 90 anos da Coluna Prestes, a deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA) foi atacada pelo secretário-geral da Câmara, Mozart Vianna, que se dirigiu com o dedo em riste contra a parlamentar para negar a responsabilidade da Secretaria-Geral pelo episódio que gerou a reclamação dela.

O comportamento agressivo do funcionário da Câmara é chocante até mesmo para os padrões ultramachistas do Parlamento brasileiro. Assista ao vídeo e confira.

Nunca é demais lembrar que o Brasil fica atrás de mais de CEM países no ranking da participação de mulheres no poder Legislativo nacional.

Em janeiro de 2012, estávamos situados exatamente na posição 116, MUITO ATRÁS de Ruanda (#1), Cuba (#3), África do Sul (#7), Argentina (#17), Tanzânia (#18, junto com Espanha), Uganda (#19), Afeganistão (#34), Sudão do Sul (#36), Bolívia (#37), Iraque (#38), Vietnã (#43), Quirguistão (#48), Paquistão (#52), Uzbequistão (#52), Cazaquistão (#74), Emirados Árabes Unidos (#75), Vemezuela (#77), Albânia (#82), Coreia do Norte (#83), Gabão (#88) e muitos outros. O ranking completo de 2012 está aqui: http://www.ipu.org/pdf/publications/wmnmap12_en.pdf

Afinal, o funcionário da Câmara – que, entre 2011 e 2013 foi assessor do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e consultor da ABERT, entidade que faz o lobby da Rede Globo – teria essa atitude contra um deputado homem?

É, amigo… ser mulher na política não é para qualquer uma… se isso acontece no Congresso Nacional, diante dos olhos do País, com transmissão ao vivo, imagine o que não acontece Brasil afora…

Parabéns à Alice Portugal por não aceitar o desrespeito injustificável!

E parabéns também ao sempre combativo Amauri Teixeira (PT-BA), que protestou na mesma hora contra o abuso de Mozart Vianna.

Alice Portugal foi atacada pelo secretário-geral da Mesa da Cãmara (Foto: Luis Macedo/Câmara)

Deputada Alice Portugal foi atacada pelo secretário-geral da Mesa da Câmara (Foto: Luis Macedo/Agência Câmara)

Assunto relacionado:

A indignação de Manuela D’Ávila diante do machismo de um deputado tucano

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 20/05/2014

Álvaro Dias matou a charada: a FIFA é comunista!

Finalmente descobrimos como o Brasil – esse País atrasado governado por comunistas barbudos (a Dilma é apenas uma distração!) – acabou sendo escolhido para sediar o maior e mais lucrativo evento esportivo do planeta!

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) descobriu o que muitos já desconfiavam: a FIFA é COMUNISTA!

Confira o glorioso post abaixo, disponível no Facebook oficial do senador:

A FIFA é comunista e é controlada por Cuba!

A FIFA é comunista e é controlada por Cuba!

No clipe oficial da Copa do Mundo, a bandeira de Cuba aparece QUATRO VEZES!  Pouco importa se a estrela do videoclipe, o cantor Armando Christian Pérez, mais conhecido como “Pitbull”, é de origem cubana! Trata-se de um artifício para espalhar a semente do comunismo mundo afora!

Parabéns ao senador tucano (na verdade, ao seu brilhante e infatigável assessor Eduardo, que ASSINA o post com a foto) que DESVENDOU e DENUNCIOU mais um tentáculo da conspiração comunista internacional!!!

Agora sabemos que a Copa do Mundo não passa de um artifício para disseminar o comunismo no mundo! TUDO COMPRADO! E com DINHEIRO DE CUBA! A prova é esse clipe carregado de mensagens subliminares da comunista FIFA!!!

Todos os cidadãos de bem TÊM O DEVER MORAL DE DENUNCIAR tal patranha!

Alvíssaras!

Confira a prova da patranha comunista:

Álvaro Dias

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