Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 29/08/2014

Boaventura de Sousa Santos: Marina é uma cara nova para a direita

A entrevista da Folha de São Paulo é de outubro de 2013, mas vale a pena relê-la agora, especialmente para quem diz, pelo menos da boca pra fora, que Marina é uma alternativa de esquerda. Destaques meus.

Folha de SP: A ex-ministra Marina Silva tem um discurso mais próximo desses segmentos que o senhor mencionou, meio ambiente, indígenas. Ela serve para a esquerda?

Boaventura: Eu penso que não. Sou amigo da Marina Silva, estive em vários painéis com ela e comungo com ela muitas causas ambientalistas. Mas acho que não porque a influência religiosa no país iria nitidamente continuar a desequilibrar. A dimensão religiosa que está por trás dela é uma dimensão que, no meu entender, tem mais um potencial conservador do que um potencial da Teologia da Libertação.

Portanto é um potencializador de uma interferência conservadora na sociedade. Isso pode ter outras dimensões para os direitos das mulheres, dos homossexuais, para as diversidades sexuais.

Por outro lado, sua política econômica, por aquilo que tenho visto e pelos apoios que ela recorre, é realmente uma tentativa de, com uma cara nova, uma mulher, repor o sistema que estava antes. Seria desacelerar ainda mais as políticas de redistribuição social que foram aquelas que, no meu entender, mais caracterizaram o período Lula. Não penso que a Marina Silva esteja muito sensível a isso tudo.

Então eu penso que ela é uma cara nova para a direita. Não é uma cara para a esquerda, no meu entender.

Boaventura sobre Marina: cara nova

Boaventura sobre Marina: “cara nova para a direita”

Sem mais.

Link para a entrevista na íntegra:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1362319-dilma-tem-grande-insensibilidade-social-diz-guru-da-esquerda.shtml

***

LEIA MAIS:

Marina Silva quando senadora: liberar transgênicos é “canoa furada” para garantir “lucro imediato de meia dúzia”

Campanha de Marina diz que Feliciano na CDHM foi uma “concessão do PT”

No dia em que muita gente – por má fé ou por equívoco – atacou Marina Silva por supostamente “explorar” politicamente a morte de Eduardo Campos, suposição da qual seriam “provas” as fotos onde ela aparece sorrindo, a defendi e até disse que era desonestidade afirmar que ela estava contente com a tragédia.

Recebi muitas críticas por defendê-la, mas não recuei um milímetro.

Agora, me deparo com uma desonestidade abjeta que a campanha da candidata do PSB está divulgando na internet. Num site (http://marinadeverdade.strikingly.com) feito divulgar “a verdade” sobre as posições de Marina Silva em relação a questões polêmicas, está dito que a nomeação do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara foi “uma concessão do PT”.

Marina sobre Feliciano: a culpa é do PT

Marina sobre Feliciano: a culpa é do PT

Sim. Os marineiros tiveram coragem de dizer que a indicação do PSC – que possuía em 2013 uma bancada de 16 deputados – para presidir a comissão que o partido escolheu foi uma “concessão” do PT.

Ou seja, para a turma de Marina Silva, o fato de um racista e homofóbico notório ter sido escolhido pelo seu partido para presidir uma comissão no Congresso Nacional era responsabilidade do PT!

Entre 1995 (quando o petista Nilmário Miranda propôs a criação da CDH) e 2012, o PT havia presidido a comissão em DOZE dos quinze anos da existência do órgão.

Mas quando a bancada petista resolveu presidir comissões que estavam completamente dominadas pela direita – Relações Exteriores e Seguridade Social (que debate projetos da Saúde) – e que não eram presididas pelo PT há vários anos (Seguridade Social, desde 2003!!!), a culpa do PSC indicar Marco Feliciano foi (segundo os marineiros) do PT…

As tentativas de reescrever a história por iniciativa de governos autoritários já foram devidamente repudiadas pela literatura, pela história e pelo debate político. E quando isso ocorre com uma postulante à presidência da República?

É Marina... assim fica difícil te defender...

É Marina… assim fica difícil te defender…

PS: No site sobre as polêmicas há várias outras “posições” curiosas de Marina Silva. Sobre o aborto, ela se resume a reafirmar a legislação existente (que é repressora às mulheres) e reconhecer “que existem argumentos relevantes dos dois lados da discussão e respeito as pessoas que têm posições diferentes da minha”, embora ela não diga qual é a sua posição.

Além disso, em relação a luta pela reforma agrária, Marina diz que é legítima, “mas a forma de lutar por ela não pode extrapolar o Estado Democrático de Direito”, numa clara crítica às ocupações de terra.

No caso da descriminalização da maconha, Marina diz apenas que um plebiscito é “o primeiro passo para avançar no debate”, ou seja, novamente não afirma nenhuma posição.

“Há uma lenda de que eu sou contra os transgênicos, mas isso não é verdade”.
Marina Silva no Jornal Nacional, terça-feira, 28 de agosto de 2014

A personagem que Marina Silva tenta compor no presente momento, em que disputa a presidência da República pelo PSB, não se sustenta a uma simples pesquisa nos arquivos do Senado Federal.

Enquanto exerceu o mandato de senadora pelo PT do Acre, Marina usou a tribuna da Câmara Alta para expressar as posições do movimento ambientalista e de setores da sociedade que enfrentam o modelo do agronegócio baseado no latifúndio e na monocultura – modelo que, hoje, parece não ser nenhum problema muito grave para a candidata do PSB, que avalia que “apenas uma parte” do agronegócio constitui ameaça ao meio ambiente.

Marina Silva no Senado

Em março de 2002, Marina fez um pronunciamento (clique aqui) em que citou seis vezes, sempre de forma crítica, a Monsanto, maior multinacional do comércio dos organismos geneticamente modificados (OGM), os chamados transgênicos. Naquele momento, a senadora defendia a proibição, chamada de “moratória”, do plantio de transgênicos no Brasil. O seu atual companheiro de chapa, Beto Albuquerque, era um dos maiores defensores da Monsanto na Câmara dos Deputados. Para Marina Silva, o Brasil poderia ser “a alternativa não-transgênica” no cenário agrícola internacional. Ela também criticava os setores empresariais que tinham a soja transgênica como “panaceia” para a exportação e afirmava que predominava no Brasil “a antiga visão do colonizado, que abaixa a cabeça na frente do colonizador”. Confira [destaques meus]:

Se já temos um mercado que está completamente contaminado pelos transgênicos – no caso da Argentina, a produção é de 100%; e dos Estados Unidos, do Canadá e da China são altamente elevadas –, o Brasil seria a alternativa não-transgênica que poderia ocupar tranquilamente aqueles campos que hoje, em termos de mercado, estão dispostos a declarar a moratória em relação aos transgênicos – no caso, o Mercado Comum Europeu e, parece-me, o Japão. Se contaminarmos a nossa produção de grãos, sobretudo a soja, estaremos perdendo essa oportunidade. Não me causa nenhum tipo de estranhamento que a Monsanto esteja tão ansiosa por essa liberação. O que me causa certo estranhamento é a posição do Governo brasileiro de não pensar, estrategicamente, no interesse de nosso País. O que me causa mais espanto ainda é o fato de a classe empresarial, sobretudo os produtores de soja, também não ficar atenta a esse aspecto e falar da soja transgênica como se ela fosse a panaceia para os nossos problemas de produção de grãos para exportação. Na verdade, poderíamos apropriar-nos desse diferencial de qualidade para competir com aqueles que já não têm essa possibilidade, como os Estados Unidos, o Canadá, a China e a Argentina.  Temos a antiga visão do colonizado, que abaixa a cabeça na frente do colonizador e, mesmo quando sabe que algo não dará certo, é obrigado a fazer isso somente para prestar um serviço ao senhor. Com todo respeito àqueles que defendem no Congresso Nacional a soja transgênica, faço este registro, porque, muitas vezes, somos rotulados de atrasados e acusados de não querermos que o País se desenvolva (…)”.

No discurso, a hoje candidata à presidência usou até trechos de um artigo de Eduardo Galeano para atacar a indústria agroquímica. E não deixa de tocar na esfera religiosa, que, como se sabe, está intimamente enraizada no seu pensamento.

“O admirável pensador uruguaio Eduardo Galeano reflete com genialidade sobre esse conflito globalizado pela indústria biotecnológica em um artigo publicado em novembro passado, intitulado: Quatro Frases que Fazem Crescer o Nariz de Pinóquio.

Os gigantes da Indústria Química (assim como os seus aliados, agentes governamentais e financeiros) fazem sua publicidade e lavam a sua imagem repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e colorindo de verde os seus préstimos. (…) São todos ecologistas até que alguma concreta tenta limitar a liberdade de contaminação”. Quando isso ocorre, “(…) as empresas que envenenam o ar e apodrecem as águas arrancam subitamente suas recém-adquiridas máscaras verdes e gritam: “Os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotar o desenvolvimento econômico e a espantar o investimento estrangeiro.

(…) 20% da humanidade comete 80% das agressões à natureza, enquanto a humanidade inteira paga pela conseqüente degradação da terra, a intoxicação do ar, o envenenamento da água, o enlouquecimento do clima e a dilapidação dos recursos naturais não renováveis.”
“Porém, os governos dos países do sul que prometem o ingresso para o primeiro mundo como mágico passaporte que nos fará a todos ricos e felizes, (…) sobretudo estão cometendo o delito da apologia ao crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza é o que nos está adoecendo o corpo, nos está envenenando a alma e nos está deixando sem mundo.

É o que diz esse brilhante pensador, neste artigo. “Quatro frases que fazem crescer o nariz de Pinochio” fez uma abordagem muito interessante. Inclusive o Galeano, em seu artigo, faz uma referência dizendo que a “natureza está fora de nós”, fora dos seres humanos, ou seja, algo que nos é externo. Isso é muito interessante mesmo para uma reflexão do ponto de vista teológico”.

O final do discurso contrasta fortemente as posições hoje expressadas por Marina Silva.

Apenas ressalto que o Congresso Nacional não pode embarcar nessa “canoa furada”, acreditando que aprovar sem nenhum cuidado a liberação dos transgênicos é dar uma grande contribuição ao desenvolvimento econômico, à ciência, ao combate à fome e à pobreza. Essa medida pode ser adequada ao lucro imediato de meia dúzia de pessoas que gostariam muito dessa conseqüência, talvez sacrificando, como sempre digo, recursos de milhares de anos em prol dos lucros de apenas cinco ou dez anos“.

Quem vê Marina Silva na campanha atual, constata que ela mudou tanto quanto o Brasil nos últimos doze anos. No caso do País, as mudanças trouxeram avanços. No caso da postulante ao cargo mais alto da República, o retrocesso é visível e lastimável.

Marina Silva no Senado em 2002

Marina Silva no Senado em 2002

Clique no link abaixo para conferir a íntegra do discurso da senadora Marina Silva em 11 de março de 2002:

http://www.senado.gov.br/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=322883

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 28/08/2014

Clássicos da literatura para ler em duas noites ou um dia

As definições de clássicos são muitas, complementares e convergentes. Recomendo a qualquer amante – experiente ou noviço – da literatura uma visita ao “Por que ler os clássicos”, de Ítalo Calvino (aqui você encontra bons trechos).

Algumas características de um clássico são a sua universalidade e a sua atemporalidade, ou, melhor dito, a sua eternidade.

gato livro

Tendo isso em mente, abaixo segue uma lista de obras clássicas e curtas, de até 150/200 páginas e narrativa simples, para ler em duas ou três noites ou mesmo durante um dia.

São obras que, embora curtas no tamanho, são enormes na qualidade, no reconhecimento do público e no que podem lhe acrescentar enquanto leitor e mesmo ser humano.

Em vez de passar horas vendo uma telenovela, que segue um padrão único e previsível de enredo, desfrute de alguns dos melhores frutos que a humanidade colheu na literatura.

Se tiver alguma sugestão adicional, deixe nos comentários.

  1. O velho e o mar (Ernest Hemingway)
  2. Ninguém escreve ao coronel (Gabriel Garcia Marquez)
  3. Crônica de uma morte anunciada (Gabriel Garcia Marquez)
  4. O enterro do diabo (Gabriel Garcia Marquez)
  5. Relato de um náufrago (Gabriel Garcia Marquez)
  6. Olhos de cão azul (Gabriel Garcia Marquez)
  7. Pedro Páramo (Juan Rulfo)
  8. A metamorfose (Franz Kafka)
  9. As intermitências da morte (José Saramago)
  10. O estrangeiro (Albert Camus)
  11. A queda (Albert Camus)
  12. O pequeno príncipe (Antoine Saint-Exupéry)
  13. A volta ao mundo em 80 dias (Julio Verne)
  14. 20 mil léguas submarinas (Julio Verne)
  15. Viagem ao centro da Terra (Julio Verne)
  16. Laranja mecânica (Anthony Burgess)
  17. Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
  18. A revolução dos bichos (George Orwell)
  19. A invenção de Morel (Adolfo Bioy Casares)
  20. O coração das trevas (Joseph Conrad)
  21. A desobediência civil (Henry David Thoreau)
  22. A máquina do tempo (H.G. Wells)
  23. O estranho caso do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde (R. L. Stevenson)
  24. O cão dos Baskerville (Arthur Conan Doyle)
  25. Como água para chocolate (Laura Esquivel)
  26. A hora da estrela (Clarice Lispector)
  27. Todos os fogos o fogo (Julio Cortázar)
  28. Bestiário (Julio Cortázar)
  29. Terra sonâmbula (Mia Couto)
  30. A alma do homem sob o socialismo (Oscar Wilde)

PS: Uma telenovela brasileira no horário nobre raramente tem menos de 180 capítulos. Considerando que você pode ler cada um desses 30 livros listados acima em até três noites, você precisaria do período equivalente a metade de uma novela para ler todas essas obras. E ainda teria outras 90 noites para ler outros livros maiores e mais profundos.

PS2: De bônus, alguns livros que (ainda) não são exatamente clássicos universais, mas cuja leitura é deliciosa e inspiradora – e igualmente breve, de até 200 páginas (exceto os de Eduardo Galeano, que extrapolam essa dimensão, mas são sugeridos aqui porque são compostos por textos curtos ou curtíssimos) e linguagem simples.

:: Nove noites (Bernardo Carvalho)

:: A contadora de filmes (Hernán Rivera Letelier)

:: Auto da compadecida (Ariano Suassuna)

:: Big Jato (Xico Sá)

:: Cartas para minha mãe (Teresa Cárdenas)

:: Festa no covil (Juan Pablo Villalobos)

:: Se vivêssemos em um lugar normal (Juan Pablo Villalobos)

:: Histórias de Paris (Mario Benedetti)

:: O livro dos abraços (Eduardo Galeano)

:: Espelhos – uma história quase universal (Eduardo Galeano)

:: Os filhos dos dias (Eduardo Galeano)

:: Bocas do tempo (Eduardo Galeano)

:: Futebol ao sol e à sombra (Eduardo Galeano)

:: Com Che Guevara pela América do Sul (Alberto Granado)

:: De moto pela América do Sul (Ernesto “Che” Guevara)

"O velho e o mar", não mais do que três noites para ser lido

“O velho e o mar”, não mais do que três noites para ser lido

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 24/07/2014

Ariano Suassuna, o mais brasileiro entre todos os brasileiros

Não me refiro ao orgulho ou ao patriotismo expresso na paixão e na defesa incondicional da cultura popular brasileira.

Chamo Ariano Suassuna de o mais brasileiro entre todos os brasileiros porque ninguém jamais reuniu tantas e tão intensas características – mesmo as dissonantes do tipo padrão – comuns à nossa alma, ao conjunto de elementos que formam o nosso espírito.

Ariano tinha a simplicidade e a humildade de um camponês que sabe precisamente a importância da terra e valor do trabalho, mas não precisa fazer alarde de nada na vida.

Ariano Suassuna

“Vou ficar com saudade”, diria.(Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

Ao mesmo tempo em que exibia essa face do matuto, do jeca tatu tão discriminado pelo povo da cidade, Ariano tinha uma erudição cultural à qual raríssimas pessoas puderam se equiparar.

Seu ar prosaico, distraído e relaxado – de nordestino que adora deitar na rede para refletir profundamente sobre a morte da bezerra – escondia a disciplina hercúlea para a pesquisa e a produção literária, assim como o rigor extremo e o alto nível de exigência que encontramos mais comumente em acadêmicos e cientistas, nem sempre em artistas.

De forma semelhante, conjugava tanto a arte do improviso – tão bem empregado nas suas aulas-shows – quanto o laborioso e metódico ofício do ourives literário. O “jeitinho brasileiro” se encontrava com o gênio diligente e cuidadoso.

Como tantos conterrâneos, estampava no rosto o sorriso e a doçura da eterna criança, ao passo em que podia ficar mais enfezado do que siri em lata de querosene quando escutava alguma asneira, especialmente algo que considerasse ofensivo à cultura popular brasileira.

Expressava suas convicções com o vigor de um militante político – e nunca hesitou em assumir seu lado na política – ao tempo em que sabia reconhecer um equívoco (ou um exagero) próprio e se redimir por isso, como ocorreu com Chico Science e o nascente movimento manguebeat, no início dos anos 1990.

Era conhecido como o mais ferrenho e intransigente defensor da cultura brasileira, mas jamais escondeu que suas maiores influências artísticas são autores estrangeiros.

Seu bom humor tipicamente nordestino – que ri da própria desgraça como remédio para a mesma – era amplamente conhecido, mas não negava seus momentos de turrão e ranzinza.

Ariano Suassuna sorrindo

Risada boa (Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

Ostentava com prazer a paixão irracional pelo futebol da qual tantos compatriotas também sofrem.

Carregava a curiosidade aguda em relação a tudo que dizia respeito ao universo da arte, tanto quanto o orgulho bairrista do qual não abria mão “nem pr’um trem”. Costumava dizer que os rappers americanos não chegavam aos pés dos repentistas sertanejos e que o rap não se comparava à embolada.

À parte tudo isso, escreveu magistrais obras que, em outro idioma ou talvez em outro país, teriam virado referências universais, mas jamais se preocupou com a fama efêmera das multidões, embora prezasse imensamente o reconhecimento e o carinho do público.

Ariano Suassuna

“Obrigado” (Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

A criação da maior parte de suas personagens foi inspirada no romanceiro ibérico medieval, mas da contemporaneidade tupiniquim extraía a riqueza essencial dos tipos que povoaram sua lavra.

Ariano, mais do que um Quixote da cultura brasileira, era como o avô que todos gostaríamos de visitar aos domingos, o amigo que gostaríamos de levar ao estádio, o professor que sonhávamos ter na escola, o conselheiro a quem recorreríamos nos momentos de dúvida, o companheiro que ouviria nossas lamúrias no bar, o porteiro do nosso edifício ou o síndico do condomínio, o dono da banca de revistas ou da padaria da esquina, o cronista que leríamos no jornal todos os dias, o apresentador do programa de variedades no fim da noite, o taxista que te atualiza com as notícias e tendências da cidade… ele era tudo isso e muito mais.

Ariano Suassuna foi e é uma síntese do povo que o inspirou. O mais brasileiro entre todos os brasileiros.

Ariano Suassuna

Será que ele foi? (Foto: Rogério Tomaz Jr. – Bienal do Livro de Brasília 2014)

Numa das quatro ou cinco vezes que nos falamos, sempre rapidamente, no intervalo ou fim de algum evento no qual ele brilhara, lhe contei uma ideia para um futuro livro que ainda pretendo escrever: “Nordestemido povo – contos e causos nordestinos”, expliquei. “Bom título”, comentou. “Siga em frente”, acrescentou. Também disse que ele seria uma fonte obrigatória. Se colocou à disposição. Quase dez anos após esse breve diálogo, em Salvador, se não estou enganado. E hoje descobri que Ariano Suassuna não era imortal.

Primeiro encontro com o mestre. Recife, junho de 2000.

Primeiro encontro com o mestre. Recife, junho de 2000.

Em 2015, justamente trinta anos após assumir, de forma inesperada, a presidência da República, José Sarney deixará de ser, pelo menos no plano formal, um dos cardeais da política brasileira. E a eventual – cada vez mais provável – vitória de Flávio Dino (PCdoB) ao governo do Maranhão poderá alterar ainda mais o tabuleiro político nacional.

O outono do patriarca – com o devido perdão ao verdadeiro imortal Garcia Márquez – da oligarquia maranhense não chega meramente pelo desejo de aposentadoria. A renúncia à disputa por mais um mandato no Congresso Nacional é consequência do enfraquecimento paulatino experimentado há anos, tanto na terra das palmeiras onde nem sempre cantam os sabiás e no Amapá quanto no Planalto Central.

Vacinado pelas dificuldades enfrentadas em 2006, quando venceu por pequena margem (53% a 43%), “El Bigodón” sabe que não venceria o pleito ao Senado este ano no Amapá. Tal qual o pai em 1990, que mudou o domicílio eleitoral para o antigo território, temendo a iminente derrota para Cafeteira, Roseana Sarney sabe que dificilmente seria reconduzida à Câmara Alta pelos maranhenses em outubro. Por isso, evitou o vexame da derrota e também anunciou sua saída da política institucional.

A escolha do suplente de senador Edison Lobão Filho (PMDB) para a disputa do governo contra Flávio Dino é apenas mais um entre tantos sinais do desespero que tomou conta da oligarquia.

Medíocre parlamentar, Lobinho até recentemente era apenas conhecido como um playboy destemperado na noite de São Luís. Daí que para muitos foi uma cena chocante vê-lo alçado à condição de senador, mesmo considerando os padrões não muito elevados do Senado.

Com o esmaecimento da influência de Sarney sobre o PMDB nacional, que não ocorrerá imediatamente, mas é inevitável, deverá haver forte movimentação interna, sendo eufemista, em torno do espólio do ex-presidente.

Nos últimos meses, o PT nacional – a contragosto do “PT de bigode”, a ala sarneísta da legenda no Maranhão – deu vários passos para sinalizar a intenção de descolamento da família. O último foi negar ao diretório estadual a permissão de indicar o vice da chapa de Lobão Filho.

Obviamente, a dilapidação do capital político de Sarney não dependerá exclusivamente ao resultado no seu estado de origem, mas este será um fator de grande peso.

Flávio Dino

Será o primeiro governador da história do PCdoB?

Em caso de vitória, Flávio Dino será o primeiro governador da história quase centenária do PCdoB. Não há dúvidas de que o partido dedicará uma enorme parcela da sua energia e da sua estrutura à eleição que poderá sepultar uma das unanimidades – em termos de rejeição e ojeriza – nacionais. Daí que a visibilidade da eleição maranhense será bem maior e poderá ter consequências bem mais impactantes do que teria em condições normais.

Flávio Dino – junto com seu arco de alianças, que reúne um amplo e heterogêneo espectro ideológico – certamente se tornará um ator político de estatura nacional: “o homem que enterrou a oligarquia Sarney” mesmo em um partido pequeno, enfrentando uma colossal máquina política e midiática no estado e com apenas oito anos de carreira política, na qual brilhou como deputado federal e ministro, é bom lembrar. Este será o seu cartão de visitas.

O que será da política brasileira sem Sarney? Para responder isso, é bom prestar atenção aos resultados de outubro no Maranhão.

Rogério Tomaz Jr.
Jornalista formado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 17/07/2014

“Um lugar sem limites”, uma leitura proeminente

Anos 1960. Numa vila erma do Chile, próxima a Talca apenas na distância geográfica, longe do resto do mundo em sinal de existência, exceto pelo puteiro e pelos vinhedos, Manuela tenta ser quem é verdadeiramente.

Num lugar sem energia elétrica, a protagonista do livro de José Donoso (1924-1996) luta para manter acesa a luz própria, atacada permanentemente pela moral patriarcal, machista e homofóbica que ainda hoje – o livro é de 1965 – domina o mundo e, muitas vezes, esmaga quem ousa afrontá-la.

Um lugar sem limites, do chileno José Danoso - aproveite a promoção da Cosac Naify

Um lugar sem limites, do chileno José Danoso – aproveite a promoção da Cosac Naify

A narrativa é, a um só tempo, doce e delicada, bruta e ríspida, intimista e sociológica. O clima e os sentimentos são alternados, por vezes, de uma frase para a outra, sem qualquer elemento distintivo ou transitório. O mesmo ocorre com o narrador principal e os secundários, que ora parecem ser, todos, meros ectoplasmas do ambiente em que vivem, para em seguida ganharem vida e raízes profundamente identificáveis com qualquer pessoa que tenha vivido em (ou simplesmente conhecido) um lugar como o cenário da trama.

A violência, de todos os tipos, sofrida por Manuela – um travesti apaixonado por dança e pelo seu vestido vermelho – é representativa dos abusos que ainda sofrem, cinquenta anos de “evolução e progresso” depois da obra ter sido escrita, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e transsexuais em praticamente todo o mundo. Nesse sentido, a Estação el Olivo é uma síntese do mundo. Síntese de uma dimensão que parece estar apartada das velozes transformações sociais pelas quais passam as demais esferas da sociedade.

José Donoso, tido por Vargas Llosa como “o mais literário de todos os escritores que conheci”, menos famoso que seus contemporâneos latino-americanos, instiga o nosso pensamento sobre valores como Justiça, Igualdade e Liberdade e ainda delicia os amantes da literatura com este pequeno e delicioso romance com ares de ensaio sociológico, muito antes de a academia se debruçar de verdade sobre a temática LGBT.

O livro recebeu uma ótima adaptação para o cinema do mexicano Arturo Ripstein. Abaixo o trailler. O filme inteiro está disponível (em espanhol, sem legendas) na Internet, mas recomendo fortemente a leitura da obra antes.

Foi publicado no Brasil pela Cosac Naify, que está como promoção de 50% (“Um lugar sem limites” sai por R$ 14,95) em todos os títulos neste mês de julho, por conta do seu 18º aniversário.

“El lugar sin límites” (1978)

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PS: Pela história e pela atuação enquanto militantes e parlamentares, dei um exemplar do livro à deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) e ao deputado Jean Wyllys (PSol-RJ). Coincidências da vida, Manuela me contou que visitou o Acre recentemente e que o rapaz que fora buscá-la no aeroporto estava lendo o mesmo livro.

PS2: De alguma maneira, “Um lugar sem limites” me fez lembrar o excepcional “Se me deixam falar”, a história da guerreira boliviana Domitila Barrios de Chungara contada por Moema Vizzer. Já tratei dela aqui no blog.

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 17/07/2014

Em Buenos Aires: o taxista racista e viúvo da ditadura

A minha mãe estava comigo. Embora ela não domine o espanhol, a fala do senhor septuagenário, bem compassada, como que arrastada, a permitiu compreender quase tudo. Em dez minutos de corrida, de San Telmo ao Caminito, o taxista atacou bolivianos, paraguaios, haitianos, colombianos e outros imigrantes pobres que povoam as villas (favelas) de Buenos Aires.

Que você nunca tenha a "sorte" que tive

Que você nunca tenha a “sorte” que tive (Foto: Rogério Tomaz Jr.) 

- Como podemos ficar atrás da Bolívia ou do Paraguai… em qualquer coisa? É uma vergonha isso! As villas estão cheias de bandidos porque o governo não faz nada. Antigamente isso não existia. É preciso ter mão pesada para isso!

Em vez de contestar, alimentei a fera. Comentei que no tempo do General Videla deveria ser melhor, o país devia ser mais decente.

- Ahhhh, claaaro que sim! Havia ordem e respeito naquele tempo!

Depois da isca, ele se sentiu à vontade.

- Veja você que os imigrantes que construíram esse país eram europeus… italianos, espanhois, ingleses, alemãos… e hoje… haitianos, colombianos, paraguaios… índios e negros… como podemos progredir assim, enquanto país?

Antes que eu vomitasse, chegamos ao destino.

Nunca tive carro em nove anos e meio de Brasília. Ando bastante de táxi. Em São Paulo e no Rio também. Já conheci saudosos da ditadura daqui, alguns que odeiam o PT até o último cromossomo, machistas e homofóbicos a rodo. E alguns com preconceito de classe e xenófobos também. Mas igual ao taxista argentino, nenhum no Brasil chegou sequer perto.

PS: A maioria absoluta dos taxistas argentinos que conheci não tem nada a ver com este senhor descrito acima. Ao contrário, quase sempre tive a sorte de pegar motoristas bem humorados, simpáticos, admiradores dos brasileiros e progressistas. Outra exceção, Murphy explica, foi quando estava com meus tios Paulo e Nazita e demos o azar de conhecer um de péssimo humor…

Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 03/06/2014

Colunista da Forbes questiona se EUA são “país sério”

“Se os Estados Unidos são um país sério, por que não podem construir um aeroporto sério?”, questiona, já no título do artigo, o colunista Eamonn Fingleton, da Forbes, em texto publicado no último 18 de maio.

Colunista da Forbes questiona seriedade dos aeroportos dos EUA

Colunista da Forbes questiona seriedade dos aeroportos dos EUA

Descobri esse artigo pouco depois de ler os enfáticos elogios de Alexis Lalas – ex-jogador de futebol da seleção dos EUA e atual comentarista da ESPN – ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, a principal porta de entrada para o Brasil, junto com o aeroporto de Guarulhos.

Alexis Lalas elogia aeroporto do Rio

Alexis Lalas elogia aeroporto do Rio

Além dos elogios ao Galeão, Lalas falou no seu Twitter em “segurança visível” na praia de Copacabana. E, em resposta a um brasileiro que falou dos “muitos problemas”, mas também do “grande coração” e da “alma amigável” dos brasileiros, o ex-jogador disse que “todos temos problemas”.

De fato, os problemas do Brasil são enormes e alguns deles – como a brutalidade animalesca das nossas polícias – ficaram ainda mais visíveis no contexto da Copa do Mundo.

Nada justifica, porém, as recorrentes manifestações do complexo de vira-latas de quem faz oposição ao governo e, por isso (ou por outros motivos), torce para que tudo na Copa dê errado e para que passemos um vexame global.

Nelson Rodrigues, criador do termo e maior crítico deste complexo, mesmo sendo um conservador empedernido, se agita de indignação em seu túmulo ou nos botecos além da vida…

Eu considero astrologia uma coisa tão séria quanto a criação extensiva de capote (galinha d’Angola) no Pólo Norte. Mas há quem acredite em tudo. Até em astrologia.

Pois aquela que é considerada a maior astróloga do Brasil publicou, na Folha de São Paulo de quarta (28/05/2014), uma previsão política que daria inveja a Mãe Dinah – outra notória sábia e certeira analista política de inquestionável credibilidade.

“Lua nova em Gêmeos sinaliza fortalecimento das oposições ao governo Dilma nos próximos dias”, destacou Barbara Abramo no seu espaço no jornal que defendeu e trabalhou para a ditadura encerrada em 1985.

Barbara Abramo na Folha

Barbara Abramo na Folha

Pois veja o que disse a mesma astróloga em fevereiro de 2001 em entrevista ao jornal do Sindicato dos Bancários de São Paulo (o Renato Rovai, hoje com a Revista Fórum, assina a matéria, disponível aqui).

Barbara Abramo sobre Lula em 2001: "Se o Lula for o candidato do PT é para perder"

Barbara Abramo sobre Lula em 2001: “Se o Lula for o candidato do PT é para perder”

“Se o Lula for o candidato do PT é para perder”, cravou a astróloga.

Por ironia do destino, logo em seguida, questionada sobre a crença na astrologia, Barbara Abramo diz que as pessoas, com o tempo, vão “vendo que não era bem assim”…

Sei…

Veja o que ela disse, também em 2001, em dois chats do UOL com internautas. Clique nas imagens para ampliar.

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A 9 de agosto, Barbara afirma que “não há recursos para o Lula ser presidente”. Já em 6 de setembro, ela diz que “os aspectos de sol e saturno” a fazem crer que o PT não tenha “muita condição” de “ganhar essa parada e segurar”… pois bem, a “parada” já vai completar doze anos. Se Dilma ganhar e Lula for candidato em 2018… bem, até lá a Barbara talvez deseje se aposentar (ou não, depende do mapa)…

 

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