Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 24/06/2011

10 anos de Milton Santos na eternidade

Quando me disseram que se tratava de um geógrafo, lembrei do quanto me encantava com os livros do Aziz Ab’Saber no ginásio e no segundo grau.

– Será que é da mesma linha do Aziz?, eu pensava comigo mesmo.

Quando finalmente encontrei “o melhor livro sobre globalização” que existia, seguundo um amigo do movimento estudantil, o dito cujo passou mais de ano na minha pasta, mesmo depois de terminada a leitura.

Era uma espécie de bíblia que me ajudava em qualquer debate sobre globalização e temas afins (como o papel da comunicação no contexto desses assuntos) tão discutidos naquela virada de década e de século.

Acabou, obviamente, sendo uma das referências mais importantes na minha monografia de Jornalismo na UFMA em 2003. E dei alguns exemplares de presente a amig@s que buscavam ideias que o geógrafo baiano plantava, regava e nutria.

“Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal” (2000), o livro em questão, teve quase tanto impacto sobre o meu pensamento e sobre o meu “despertar individual” quanto “As veias abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano. E quem me conhece sabe o que significam essa obra e esse autor para mim.

Uma das minhas bíblias na virada de século.

Passei a procurar mais textos e livros do Milton Santos, mas confesso que fiquei mesmo nos artigos e não terminei – ainda! – qualquer outro livro daquele senhor negro que deixaria o plano terreno exatamente no dia 24 de junho de 2001.

Nessa busca, descobri que aquele senhor negro de sorriso marcante havia sofrido com 13 anos de exílio forçado. E que o seu trabalho fora reconhecido mundialmente, com o chamado “Nobel da Geografia”, o prêmio Vautrin Lud, conferido por uma comissão que representava mais de 50 universidades ao redor do mundo.

Sorriso forte e marcante como suas ideias

Não pude conhecê-lo pessoalmente, mas a presença dele é muito intensa.

Grande Milton Santos! Dez anos de eternidade.

Deixo um trechinho do livro que me marcou (e está disponível em PDF aqui) e do belíssico documentário que Sílvio Tendler nos deu de presente.

“Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá”*

.

*Documentário disponível integralmente no Youtube e facilmente encontrável em qualquer boa locadora ou livraria.

 

A Violência da informação

Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação. Conforme já vimos, as novas condições técnicas deveriam permitir a ampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia, nas condições atuais, as técnicas da informação são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus objetivos particulares. Essas técnicas da informação (por enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por algumas empresas, aprofundando assim os processos de criação de desigualdades. É desse modo que a periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica, seja porque não dispõe totalmente dos novos meios de produção, seja porque lhe escapa a possibilidade de controle.

O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vida econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida em que o que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadas, é, já, o resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia. O fato de que, no mundo de hoje, o discurso antecede quase obrigatoriamente uma parte substancial das ações humanas – sejam elas a técnica, a produção, o consumo, o poder –  explica o porquê da presença generalizada do ideológico em todos esses pontos. Não é de estranhar, pois, que realidade e ideologia se confundam na apreciação do homem comum, sobretudo porque a ideologia se insere nos objetos e apresenta-se como coisa.

Estamos diante de um novo “encantamento do mundo”, no qual o discurso e a retórica são o princípio e o fim. Esse imperativo e essa onipresença da informação são insidiosos, já que a informação atual tem dois rostos, um pelo qual ela busca instruir, e um outro pelo qual ela busca convencer. Este é o trabalho da publicidade.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Pág. 38-9. 19ª Edição – Rio de Janeiro: Record, 2010.

(Trecho retirado do blog Confortável Ilusão)

Anúncios

Responses

  1. […] 10 anos de Milton Santos na eternidade (via Conexão Brasília Maranhão) Publicado junho 24, 2011 r Uncategorized Deixar um Comentário Tags:bahia, Cultura, Ditadura, Documentário, download, eduardo-galeano, jornalismo, Livro, ufma Quando me disseram que se tratava de um geógrafo, lembrei do quanto me encantava com os livros do Aziz Ab'Saber no ginásio e no segundo grau. – Será que é da mesma linha do Aziz?, eu pensava comigo mesmo. Quando finalmente encontrei "o melhor livro sobre globalização" que existia, seguundo um amigo do movimento estudantil, o dito cujo passou mais de ano na minha pasta, mesmo depois de terminada a leitura. Era uma espécie de bíblia que me ajudava … Read More […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: