Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 25/06/2011

O maior Fla-Flu de todos os tempos

Todo torcedor do Fluminense nascido antes do 25 de junho de 1995 sabe exatamente onde e com quem estava na tarde daquele dia.

É um daqueles momentos que marcam a vida e carregamos eternamente na memória.

Hoje, sábado (25), foi dia de recordar aquele feito, cuja intensidade da alegria que proporcionou aos tricolores – “Tricolor é o Fluminense. O resto são times de três cores”, Nelson Rodrigues – foi equivalente a uma vida inteira de títulos para a maioria dos torcedores dos outros clubes do futebol brasileiro.

Seguem dois artigos do tricolor Paulo Cézar, retirados do interessante blog Jornalheiros (jornalistas + engenheiros).

PS: Na tarde do 25 de junho de 1995 eu estava em São Luís (MA), na casa do amigo Ruy, flamenguista que se somava a outros 50 rubro-negros contra eu e mais um único amigo tricolor, Eduardo Freire, diante de duas tvs. Eu e Eduardo nem conseguimos ver o terceiro gol, pois os flamenguistas já comemoravam e muitos até deram as costas ao jogo. E a nossa vibração nos causou a expulsão da casa pelo pai do Ruy.

*****

O maior Fla-Flu de todos os tempos

O momento em que Renato Gaúcho calou 80 mil flamenguistas.

Rio de Janeiro, 25 de junho de 1995.

Amigos, reza a história que o futebol do Flamengo nasceu de uma briga no Fluminense. Nove titulares campeões invictos de 1911 resolveram sair do Tricolor (só permaneceram Oswaldo Gomes e James Calvert). Por outra: o primeiro Flamengo, antes de ser Flamengo, foi Fluminense. Estava desenhado o maior clássico do futebol brasileiro, aquele que anos mais tarde ganharia um nome próprio perfeito: o Fla-Flu.

O jogo final do Campeonato Carioca de 1995 parecia ser o prelúdio da maior celebração da história do Flamengo. A conquista rubro-negra parecia ser uma certeza líquida e matemática, pois o Fluminense não teria a menor chance. O Flamengo tinha Romário, o Flamengo tinha Branco, o Flamengo tinha dois terços dos 120 mil no Maracanã, o Flamengo tinha a vantagem do empate.

No primeiro tempo, contrariando os prognósticos, só deu Fluminense. Com Renato, 1 a 0. Com Leonardo, 2 a 0. A empolgação agora vestia verde, branco e grená. Oitenta mil emudeciam em preto e vermelho.

No entanto, a magia do Fla-Flu reside na imprevisibilidade. Uma falta cobrada por Branco explodiu no travessão, e acordou o Flamengo. O rubro-negro lançou-se todo ao ataque, e a sua torcida veio junto. Romário, que nunca havia balançado as redes tricolores, fez o primeiro. E Fabinho empatou com um golaço. O placar em dois a dois levava a taça para a Gávea.

Quando o tricolor Lira foi expulso, deixando o Fluminense com apenas nove em campo, o destino do troféu parecia definitivamente selado. No entanto, é bom repetir: a magia do Fla-Flu reside na imprevisibilidade.

Quando eram decorridos quarenta e dois, trama pelo flanco direito no ataque tricolor: Ronald aciona Ailton, que invade a área, corta pra lá, corta pra cá, e dispara.

As cento e vinte mil testemunhas oculares arregalam os olhos.

Cento e cinquenta milhões de brasileiros prendem a respiração.

O Estádio Mario Filho treme.

Todas as atenções da nação se voltam para aquela bola.

Que desvia na barriga de Renato e entra.

Era o gol. Era a vitória. Era o título.

Fluminense três a dois.

Dos céus, Nelson Rodrigues sorri, e diz: “Não sei qual é mais formidável, se a euforia tricolor, se o silêncio rubro-negro”.

PC

Vídeo do jogo – Canal 100

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Recordar é viver – O Fla-Flu de 1995

Rio de Janeiro, 25 de junho de 1995.

Amigos, diante de 120.418 pessoas* no Maracanã, Flamengo e Fluminense decidiram mais uma vez o Campeonato Carioca. Ressaltemos as palavras eternas de Nelson Rodrigues: em todo o mundo não há um jogo que chegue aos pés do Fla-Flu, que é cada vez mais empolgante. Cada jogo entre o Fluminense e o Flamengo parece ser o maior do século, e assim será eternamente. O Fla-Flu não tem começo, o Fla-Flu não tem fim. O clássico das multidões começou quarenta minutos antes do nada.

“O primeiro zero a zero,
O segundo três a um,
O terceiro foi quatro a três,
E o Flamengo virou freguês!”

Assim cantou a torcida do Fluminense, naquele chuvoso domingo, antes do início da partida. A legião tricolor se referia aos três Fla-Flu’s anteriores daquele certame. A galera pó-de-arroz fez bem ao relembrar a campanha. Sim, porque um título não se conquista em uma única tarde. Não. Um título é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro.

Relembremos a fantástica jornada: o Fluminense montou um time de operários, comandado por Joel Santana, com folha salarial três vezes menor que a do Flamengo. Ao passo que, para comemorar seu centenário, o clube da Gávea contratou um verdadeiro escrete. Até Branco, ídolo tricolor, reforçou as linhas rubro-negras. E o que dizer da contratação de Romário, o melhor jogador do mundo? Ainda tinha o Sávio, a maior revelação do futebol brasileiro. Também estava lá Vanderlei Luxemburgo, o técnico bicampeão brasileiro pelo Palmeiras. Não havia dúvidas: o favorito do ano era mesmo o Flamengo**.

Logo na estréia, perdemos para o Madureira em Conselheiro Galvão (0 x 1, 28/01). Parecia que seria mais um ano de vacas magras em Álvaro Chaves. Vivíamos o maior jejum de nossa história: longos nove anos sem títulos. A torcida tricolor não agüentava mais sofrer. Veio o primeiro Fla-Flu, estréia de Romário e o empate (0 x 0, 12/02). Um mês depois, veio a vitória no segundo Fla-Flu (3 x 1, 12/03)! E a torcida pó-de-arroz voltou a ter esperanças.

Porém, começamos o octogonal final em desvantagem gigantesca. Éramos o único grande sem pontos extras: o Vasco tinha 1, o Botafogo tinha 1, e o Flamengo tinha 3. Para piorar, empatamos com o América (0 x 0, 26/03) e perdemos para o Botafogo (0 x 1, 02/04). Ao final da segunda rodada, o Flamengo liderava, com oito pontos a mais que o Fluminense (2 vitórias e 3 pontos extras). A vantagem rubro-negra parecia infinita. Mas então se iniciou a fantástica caminhada tricolor: do caos para a liderança. Do caos para a liderança, repito, essa foi a nossa épica jornada! Vencemos o Vasco, o Volta Redonda e o Entrerriense (3 x 2 de virada, 3 x 1, e 4 x 1). E então veio o terceiro Fla-Flu: ah, doce e santa vitória por 4 a 3!

Então, vencemos o Bangu e o América (1 x 0 e 1 x 0), e empatamos com o Botafogo (0 x 0). Continuando, o Flu bateu o Bangu de novo (1 x 0) e empatou com o Vasco (0 x 0). Depois, vieram as vitórias sobre Volta Redonda e Entrerriense (2 x 0 e 3 x 0), e chegamos ao grande dia. O dia do quarto, decisivo e eterno Fla-Flu!

Ao Flamengo, dono da melhor campanha, bastava o empate. Para o Fluminense, era vencer ou morrer. Os 120.000 fanáticos coloriam as arquibancadas, gerais e cadeiras do maior templo do futebol. De um lado, a massa rubro-negra, “proprietária da empolgação e senhora das arquibancadas, espalhando o pólen da auto-confiança”. Do outro, a legião tricolor, “não menos empolgada, não menos confiante, mas com menos pessoas no estádio, na proporção de 2 para 1”.

Já disse que chovia. Repito e amplio: chovia demais. Desabava muita água sobre a cidade do Rio de Janeiro. Com a lama e as poças, o esforço dos jogadores era triplicado, dando uma dimensão de guerra ao Fla-Flu. E, nesse cenário, o inexcedível ímpeto tricolor começou a sobressair. Aos 30 minutos, Leonardo acha Rogerinho, que passa a Renato, e ele marca: 1 a 0 para o Flu. Aos 42, Renato briga pelo rebote do goleiro Roger, e toca para Leonardo: 2 a 0! A torcida tricolor, emocionada, começava a vislumbrar o fim do jejum:

“Não é mole não, chegou a hora de gritar é campeão!”

Não havia chegado a hora ainda. Abençoado seja o Fla-Flu, imprevisível, emocionante e cheio de alternativas! Branco cobra falta, e a bola explode no travessão! A torcida rubro-negra viveu o seu grande dia no Estádio Mário Filho: empurrou o time com uma pressão extraordinária. Aos 26 do segundo tempo, pela primeira vez na carreira Romário marca um gol no Fluminense. O tricolor Sorlei e o rubro-negro Marquinhos são expulsos na briga pela bola no fundo da rede.

Dez contra dez, mais espaços em campo, e só faltava um gol para o Flamengo. A maior torcida empurrava o rubro-negro para a glória. E, aos 32, acontece o diabólico empate: Fabinho, o volante perna-de-pau, faz uma jogada digna de Cruyff, Rummenigge, ou Pelé: dá o drible e desfere o chute mortal. 2 a 2. Agora, a torcida do Flamengo não vê mais como perder o título.

O Fluminense, que jogara por música no primeiro tempo, parecia fulminado. Lira perdeu a cabeça, deu uma tesoura e foi expulso pelo árbitro Léo Feldman. Nove contra dez. Alguns tricolores começaram a ir embora. Os flamenguistas gritavam “é campeão”.

Mas… abençoado seja o Fla-Flu, imprevisível, emocionante e cheio de alternativas! Ronald tem a bola na meia-direita, e toca na ponta-direita para Aílton, que invade a área. “Chuta, chuta, chuta!”, implorava eu, com meus pensamentos de menino que nunca havia visto o Fluminense campeão. Antes de chutar, Aílton dribla para a esquerda, e dribla de novo para a direita, entortando Charles. “Ai, meu Deus!”. Veio então o disparo de perna direita. Aquele não era apenas um chute a gol: era o lance de todo o campeonato. Para mim, era mais até do que isso: era o lance mais importante da história do futebol.

Charge: Lucas Guerra (clique para ampliar)

E então ocorre o desvio na barriga de Renato, e o gol! Era o golpe que ficou, fica e ficará para sempre na memória de todos. Era a vitória, era o título! Fluminense, campeão carioca de 1995!

Amigos, nossa humildade pára aqui. Passamos todo o campeonato com um passarinho em cada ombro, e as duras e feias sandálias nos pés. Agora, podemos soltar o grito de “é campeão”. Como disse o técnico Joel Santana, quem esperou nove anos tem que comemorar nove anos. A música do final, ao mesmo ritmo da inicial, exaltava a conquista:

“O segundo três a um,
O terceiro quatro a três,
O quarto foi três a dois,
E o campeão é o pó-de-arroz!”

E daqui a trezentos anos, o Rio de Janeiro dirá, mordido de nostalgia: “Aquele Fla-Flu!”.

PC

* O público presente foi de 120.418 pessoas, e o público pagante foi de 112.285 pessoas.

** Ainda havia os nada desprezíveis times de Vasco e Botafogo. O Vasco mantinha a base que havia sido tricampeã (1992/93/94). O Botafogo tinha o segundo melhor time de sua história, que ganharia o título mais importante da história do clube no final do ano.

*** A charge é do amigo Lucas Guerra. Quem quiser ver a versão detalhada, é só clicar nela.

Escalações:
Fluminense: Wellerson, Ronald, Lima, Sorlei e Lira; Márcio Costa, Aílton, Djair e Rogerinho, depois Ézio; Renato Gaúcho e Leonardo, depois Cadu. Técnico: Joel Santana.
Flamengo: Roger, Marcos Adriano, depois Rodrigo, Gelson, Jorge Luís e Branco; Charles, Fabinho, Marquinhos e William, depois Mazinho; Romário e Sávio. Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

Globo Esporte do dia seguinte

Outros vídeos estão no post original (aqui).

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Responses

  1. No caso do Fla-Flu o mais formidável é, de longe, o silêncio rubro-negro! 😉


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