Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 17/07/2014

“Um lugar sem limites”, uma leitura proeminente

Anos 1960. Numa vila erma do Chile, próxima a Talca apenas na distância geográfica, longe do resto do mundo em sinal de existência, exceto pelo puteiro e pelos vinhedos, Manuela tenta ser quem é verdadeiramente.

Num lugar sem energia elétrica, a protagonista do livro de José Donoso (1924-1996) luta para manter acesa a luz própria, atacada permanentemente pela moral patriarcal, machista e homofóbica que ainda hoje – o livro é de 1965 – domina o mundo e, muitas vezes, esmaga quem ousa afrontá-la.

Um lugar sem limites, do chileno José Danoso - aproveite a promoção da Cosac Naify

Um lugar sem limites, do chileno José Danoso – aproveite a promoção da Cosac Naify

A narrativa é, a um só tempo, doce e delicada, bruta e ríspida, intimista e sociológica. O clima e os sentimentos são alternados, por vezes, de uma frase para a outra, sem qualquer elemento distintivo ou transitório. O mesmo ocorre com o narrador principal e os secundários, que ora parecem ser, todos, meros ectoplasmas do ambiente em que vivem, para em seguida ganharem vida e raízes profundamente identificáveis com qualquer pessoa que tenha vivido em (ou simplesmente conhecido) um lugar como o cenário da trama.

A violência, de todos os tipos, sofrida por Manuela – um travesti apaixonado por dança e pelo seu vestido vermelho – é representativa dos abusos que ainda sofrem, cinquenta anos de “evolução e progresso” depois da obra ter sido escrita, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e transsexuais em praticamente todo o mundo. Nesse sentido, a Estação el Olivo é uma síntese do mundo. Síntese de uma dimensão que parece estar apartada das velozes transformações sociais pelas quais passam as demais esferas da sociedade.

José Donoso, tido por Vargas Llosa como “o mais literário de todos os escritores que conheci”, menos famoso que seus contemporâneos latino-americanos, instiga o nosso pensamento sobre valores como Justiça, Igualdade e Liberdade e ainda delicia os amantes da literatura com este pequeno e delicioso romance com ares de ensaio sociológico, muito antes de a academia se debruçar de verdade sobre a temática LGBT.

O livro recebeu uma ótima adaptação para o cinema do mexicano Arturo Ripstein. Abaixo o trailler. O filme inteiro está disponível (em espanhol, sem legendas) na Internet, mas recomendo fortemente a leitura da obra antes.

Foi publicado no Brasil pela Cosac Naify, que está como promoção de 50% (“Um lugar sem limites” sai por R$ 14,95) em todos os títulos neste mês de julho, por conta do seu 18º aniversário.

“El lugar sin límites” (1978)

PS: Pela história e pela atuação enquanto militantes e parlamentares, dei um exemplar do livro à deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) e ao deputado Jean Wyllys (PSol-RJ). Coincidências da vida, Manuela me contou que visitou o Acre recentemente e que o rapaz que fora buscá-la no aeroporto estava lendo o mesmo livro.

PS2: De alguma maneira, “Um lugar sem limites” me fez lembrar o excepcional “Se me deixam falar”, a história da guerreira boliviana Domitila Barrios de Chungara contada por Moema Vizzer. Já tratei dela aqui no blog.


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