Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/06/2013

Carta aberta ao Greenpeace sobre a “sonolência” do povo brasileiro

Brasília, DF, 19 de junho de 2013

Caros dirigentes do Greenpeace Brasil,

Como militante de direitos humanos e interessado na agenda socioambiental, sou cadastrado para receber os seus boletins, declarações, notícias e informes de campanhas.

De antemão, esclareço que não me coloco entre aqueles que, mesmo no campo da esquerda, consideram genericamente que as “ongs estrangeiras” representam uma ameaça à soberania e aos interesses nacionais. Também considero que o modelo energético brasileiro é dominado por concepções equivocadas (para dizer o mínimo), tal qual ocorre com outras questões estruturais do nosso país.

Chegando ao que me faz escrever estas linhas, nesta terça-feira, 18 de junho, recebi por e-mail uma mensagem – intitulada “O gigante acordou” – assinada pelo seu diretor da campanha de Clima e Energia que me deixou bastante intrigado.

No entendimento geral – clamor por uma “mudança significativa de comportamento” e “pedidos por serviços acessíveis e de qualidade na saúde, educação e no transporte público” – e no objetivo (“cidades mais justas”), coincidimos plenamente.

Também endosso e felicito o Greenpeace por reafirmar sua disposição para continuar colocando as campanhas na rua, na forma de protestos e ações pacíficas e criativas, algumas das quais já participei e divulguei.

O que me intrigou, entretanto, é a avaliação de que o “Brasil acordou – e não pretende dormir mais” e que a sociedade brasileira se encontrava em “estado de sonolência”.

Sei muito bem da elevada qualificação profissional dos integrantes do Greenpeace e, portanto, não posso crer em desconhecimento da nossa história enquanto sociedade.

Seria desnecessário, portanto, dizer que os povos indígenas que aqui vivem estão há séculos acordados e em luta pela garantia da posse e da restituição dos seus territórios. O genocídio que eles sofreram – e que ainda hoje sofrem, de forma silenciosa e em baixa intensidade – não lhes dá direito de dormir ou de entrar em estado de sonolência.

Ademais, os camponeses sem terra e/ou perseguidos pelos latifundiários lutam igualmente há séculos por condições dignas de vida. Antonio Conselheiro em Canudos; João Pedro Teixeira, Adelson Julião e as Ligas Camponeses; Manoel da Conceição (ainda bem acordado!) e os trabalhadores rurais do Maranhão; as milhões de pessoas ligadas ao MST (incluindo os mártires de Eldorado dos Carajás) e aos outros inúmeros movimentos sem terra que lutam por um outro modelo agrícola e fundiário, coerente, inclusive, ao que defende o Greenpeace; a Comissão Pastoral da Terra e os heróicos e solitários adeptos da Teologia da Libertação que enfrentam as milícias e os jagunços nos rincões do Brasil, como o brasileiríssimo dom Pedro Casaldáliga.

E os/as milhares de militantes do movimento negro, que encaram de peito aberto e cabeça erguida o racismo e buscam a igualdade de direitos e oportunidades? Tampouco se pode falar em sonolência deste segmento.

O que dizer das mulheres e da militância LGBT, que sofrem cotidiana e sistematicamente todo tipo de violência física e simbólica que lhes impede de gozar plenamente dos seus direitos básicos? Ninguém dorme no ponto quando seus direitos estão em jogo.

E o tripé de milhares de professores, funcionários e estudantes das universidades federais, que deflagraram mais de uma dezena de greves e incontáveis mobilizações nacionais nas últimas duas décadas? E posso falar, como testemunha que participou ativamente de alguns desses momentos, que dormir é o que menos se faz nesses processos.

Preciso falar do movimento sindical, que já enfrentou tanques (petroleiros em 1995) e levou às ruas multidões colossais no início dos anos 1980, contribuindo decisivamente para derrubar a ditadura que nos sufocava?

Aliás, por falar em ditadura, centenas de famílias brasileiras ainda hoje não dormem porque jamais souberam o que aconteceu com seus entes que ousaram levantar armas ou vozes contra o regime civil-militar instaurado em 1964. E outras dezenas de milhares certamente têm gravado na pele e na memória as dolorosas lembranças daqueles não tão longínquos tempos nos quais, para muitos, o sono era algo raro e até perigoso.

Ainda poderia discorrer sobre a luta do movimento sanitarista que resultou na construção do SUS e que hoje continua a peleja pelo seu aperfeiçoamento e implementação efetiva. Ou sobre a ação conjunta das dezenas de milhares de pessoas vinculadas aos conselhos tutelares e à luta pela defesa dos direitos de crianças e adolescentes.

E claro que não posso dormir e esquecer os jornalistas, radialistas, midialivristas, blogueiros e toda a sorte de comunicadores populares que empunham a bandeira da democratização da comunicação e difundem outras, como a dos direitos humanos.

Nenhum destes atores políticos que listei jamais dormiu ou esteve na sonolência. E todos eles estão não apenas felizes com as recentes manifestações Brasil afora, mas estão participando e ajudando a organizá-las, a garantir a visibilidade e a divulgação dos pontos de vista de quem as faz.

O que sempre aconteceu e continuará ocorrendo, sem qualquer dúvida, é o permanente processo de invisibilização, deslegitimação e criminalização (quando não a eliminação física dos integrantes) destes atores enquanto sujeitos da história, em processos comandados pelos setores dominantes política e economicamente da nossa sociedade.

Por tudo isso lhes peço: por favor, jamais digam novamente que o povo brasileiro esteve dormindo ou em sonolência. Além de não corresponder à realidade histórica e contemporânea, afirmar isso é, em última análise, um desrespeito ao sangue, ao suor e às lágrimas derramadas ao longo destes cinco séculos.

Dito isso, vamos continuar nas ruas e praças, mas também nos acampamentos, assentamentos, territórios indígenas, comunidades quilombolas, nos sindicatos, grêmios, centros acadêmicos e demais entidades estudantis, nos conselhos de direitos e de políticas públicas e em todos os espaços da sociedade civil e do Estado, porque a política está em todos esses lugares, o tempo todo. Ela não pode se resumir a partidos políticos. E muito menos a ONGs.

Vamo que vamo!

Cordialmente,

Rogério Tomaz Jr.
Jornalista

Esse povo alguma vez dormiu? (Foto: Sebastião Salgado)

Esse povo alguma vez dormiu? (Foto: Sebastião Salgado)


Responses

  1. Parabéns Rogério! como sempre os seus artigos são de uma clareza fora do comum.

  2. Esse cabra não dorme, pestaneja e nem cochila! Visceral, Roger. Como sempre.Tt.

  3. É isso aí companheiro! Parabéns pelo belo texto!
    Estamos acordados há muito tempo!

  4. É isso aí, Rogério. Só quem não conhece a verdadeira História desse país e vivia alienado às margens do processo histórico de transformação social pode afirmar que o Brasil vivia em Estado de sonolência. As lutas sociais já ocorrem há séculos. Se havia alguém sonolento, com certeza não são os brasileiros oprimidos que lutam por mudanças. Aí mesmo no Maranhão, o Manoel Conceição é um exemplo vivo de resistência contra a família Sarney e seus aliados. VIVA A LUTA HISTÓRICA POR JUSTIÇA SOCIAL, POR IGUALDADE, POR FRATERNIDADE E POR LIBERDADE.

  5. Valeu Rogério! Vale para o Greenpeace e para todos os que defendem a mesma bandeira! Parabéns!

  6. Brilhante, Rogério!


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