Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 02/02/2013

Amor renascendo no deserto

Por algum motivo que me foge à razão – quiçá pela incurável esperança no ato de redenção e emoção que representam as pazes – sempre gostei de testemunhar brigas de casais. Não daquelas em que se chega à violência física (sempre) desmesurada. Mas daquelas em que os gestos, olhares, expressões faciais e tons de voz revelam a profundidade da dor que emerge nestes momentos de clímax de uma relação.

O caso que relato abaixo ocorreu no Chile. Mais precisamente em San Pedro de Atacama. Num bar-café-restaurante que me encantou desde o primeiro instante.

Não era preciso entender francês.

Pelo seu modo de falar e de encarar, era perceptível a personalidade forte e a franca rejeição das justificativas frágeis que ouvia naquele momento e que se esforçavam para conseguir seu perdão ou, ao menos, sua tolerância mínima.

Seus sorrisos eram de sarcasmo ou de ironia.

Falava rispidamente, alto, repetindo frases – Trois fois! Trois fois! – para enfatizar e não deixar qualquer margem de dúvida sobre suas convicções.

Movia os braços e as mãos incisiva e freqüentemente, na cadência das palavras que escapavam como prisioneiros correndo pela liberdade há tanto suprimida.

No rosto branco, bochechas rosadas pelos raios que escaparam ao protetor solar. Quase se via o sangue pulsando sob as veias dilatadas.

Na exasperação, parecia perder a razão, mas tinha esta sob custódia total, ao contrário do rapaz à sua frente, que falava pouco e, vez por outra, abria os braços procurando sem êxito uma resposta para oferecer, alternando com a imobilidade pura e simples ou as costas atiradas para trás, como quem busca espaço para respirar ou tenta mostrar relaxamento em meio a um turbilhão de tensão e ansiedade.

Aqui, acolá, fitavam o cara na mesa ao lado, tomando mojito num copo largo e notas num guardanapo com a caneta emprestada do garçom que parecia curioso para saber que alfarrábios seu instrumento estaria produzindo.

Enquanto ela tinha o cenho franzido e o corpo estendido à frente, e continuava sacando seu desabafo com fôlego de Fidípedes, a cabeça baixa escancarava o desconsolo e a amargura do seu amante.

Então veio o silêncio cúmplice, compartido, longo.

Sem cigarro. Restrição local.

Alguns olhares fugazes, tímidos. Pediram a conta. Foram embora.

Ela à frente. Ele com a mão direita sob o ombro dela.

Amor renascendo no deserto

Amor renascendo no deserto

 


Responses

  1. E’ isso, o Amor te traz alegria , tristeza, silencio, duvidas , gritos, pancadas, felicidade ….


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