Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 20/12/2012

Breve glosa sobre o rum, o vinho e outros elixires nobres

Pouca dúvida há sobre a nobreza inquestionável e insuperável do vinho.

Nenhuma outra bebida tem uma alma tão densa, complexa e elevada quanto a dos deuses Baco e Dionísio.

Para além dessa constatação, entretanto, há muitíssimos outros licores intensamente prazerosos e transformadores – para melhor – do espírito.

Depois de criar o que chamo de “Super-Mega Mojito”, resolvi partilhar alguns trechos do sábio comentário do escritor colombiano Hector Abad sobre as bebidas que as sociedades humanas criaram e disseminaram mundo afora.

O texto faz parte do “Livro de receitas para mulheres tristes”, publicado aqui pela Companhia das Letras.

Só não esqueça de uma coisa: beba exclusivamente por prazer. Jamais trate a bebida como um fim em si mesmo.

Super-Mega Mojito: receita cubana, rum venezuelano

Super-Mega Mojito: receita cubana, rum venezuelano

(…)

O sábio e alquimista Paracelso disse que o álcool era a essência ou o espírito do vinho. Mas notou que essa alma da bebida de Cristo adquiria cores diferentes, como, ao que parece, as almas de todos os homens antes do purgatório. Portanto aprenda, antes de mais nada, a observar as cores. Discrimine. Há aguardentes brancas puras como a água cristalina. Nessa confusa condição revelam sua verdade: líquido traiçoeiro aquele que, sem ser água, parece água. Evite, portanto, bebidas cristalinas. Dessas você beberá, e um único cálice, apenas em dois casos: se mais gelada que o gelo não congelar, ou se for de uma textura tão espessa que facilmente se distinga do primeiro elemento.

Não é o uísque uma bebida que eu muito recomende. Seus blends amarelos não são bons para o peito aflito. Contudo, sendo de single malt e de águas escocesas ou da Irlanda, você pode tomar três ou quatro doses. Mas não em qualquer caso: somente quando se vir na obrigação de mentir descaradamente; o uísque deixa a cara tão dura que facilita a mentira. Mais séria do que um tratante, você parecerá de gesso, e todos acreditarão no que disser.

(…)

Também o vinho tinto tem tons variados. Há os escuro-noite, escuro-sangue, escuros de violento violeta arrebatado. Há os mais claros, como amoras dissolvidas, há os rosados de vários aspectos. É trago dos mais seguros, a não ser que a tiamina cause queimação ou peso na boca do estômago. Se um dia inventarem uma bebida do amor, será com vinho tinto.

(…)

O rum de cana das nossas Antilhas é bebida quente e de bom gosto. Há o branco, que é assaz aromático e que, como sabemos, você não deve beber puro, mas misturado com algum suco doce ou até com alguma dessas bebidas de artifício engarrafadas aos milhões. O envelhecido e de cor ambarina é excelente para beber puro, até como brandy. Não pense que por ser de nossas terras e custar barato é de baixa categoria. lembre-se que os britânicos só não o fabricaram em suas brumosas ilhas porque a cana não vingou por lá, senão… Mas inventaram seu nome e suas propriedades para consolo de seus piratas. Se inventaram o uísque, foi porque não conseguiram fazer nada melhor, e usaram o rum das colônias para conquistar o mundo com seus navios. Com gelo e gotas de limão, o rum revela seus melhores atributos, mas, como todas as bebidas de alto teor, deve ser tomado com cautela, no máximo três copos por vez.

Muito salutar é a cerveja, que expele pela boca sua própria flatulência. Trate de que faça espuma sem transbordar sua caneca. Há as loiras, as morenas, as ruivas e as negruscas: das mesmas cores que as raças humanas com climas invertidos. As loiras são mais adequadas aos trópicos e as escuras às terras boreais. Além de tudo, a cerveja mantém a bexiga em atividade: cuidado para não abusar.

Muitas são as invenções cujos eflúvios sobem à cabeça. Pouco posso lhe dizer sobre elas: observe a cor, a espessura, a doçura ou secura do produto. E nunca beba álcool algum com a avidez que se pode permitir aos camelos sequiosos por água nos confins do Saara; prove, aguarde, avalie: encontre seu caminho e sua medida. Domine-o e domine-se, continue a mandar em seu próprio corpo. Se a euforia levar a roldão a consciência dos seus atos, se você não conseguir parar quando alguma coisa lá no fundo disser que está na hora, não se habitue demais: uma vez por ano já basta.

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