Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/12/2012

Quem ama, se declara!

Tive o privilégio de ouvir ao telefone o Daniel lendo o texto abaixo e pedindo minha opinião.

Não há como não “aderir” de imediato à sua proposta.

Algumas das mais sólidas barreiras na luta ideológica não estão nas ruas, no governo, nos parlamentos ou no em outros espaços físicos, mas encontram-se precisamente na língua e na linguagem.

Não sei se o movimento LGBT já discutiu esse “detalhe” enorme que é o significado defensivo, acanhado, culpado, quase constrangido, do termo “assumir”. Especialmente num momento como esse, de avanço paulatino, mas real, da necessária e justíssima afirmação dos direitos da população LGBT, desconstruir a opressão das amarras linguísticas também é tarefa deveras importante.

O brilhante deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ) também ficou bastante tocado com o “chamado” do Daniel, mas por conta da agenda insana deste fim de ano na Câmara, não conseguiu opinar no texto final, já que o autor tinha grande desejo de colocar o mesmo na rua ainda esse ano.

O presidente da ABGLT, Toni Reis, espalhou pela rede do setor.

Segue abaixo, reproduzido d’O Miraculoso. E vamos às armas! O chamado é nobre!

Nada de assumir. Agora a palavra é declarar!

E parabéns ao Daniel (o marmanjo na foto abaixo) pela iniciativa e pelo excelente texto. Com isso, Daniel atesta na prática o princípio de que a luta pela cidadania LGBT não é algo corporativo, mas de todos as pessoas – héteros (como ele) ou homossexuais – que amam, de fato, a liberdade e a igualdade.

Adelante!

Daniel Galvão em audiência pública na Câmara que virou ato de homenagem ao Lucas Furtado

Daniel Galvão em audiência pública na Câmara que virou ato de homenagem ao Lucas Furtado

Quem ama, se declara!

“Mudar a história é mudar o pensamento a respeito de si mesmo” – Malcolm X

Desde a pré-adolescência, nunca consegui compreender o motivo pelo qual uma pessoa, em suas palavras, se autoproclamava melhor que outra pelo simples fato de ser heterossexual. Isso sempre me assombrava e confesso que ainda hoje assusta.

Das maneiras mais diversas, a fala oficial heteronormativa adotada pelos grandes veículos de comunicação, incomodava por se tratar de simulacro da realidade. Nas novelas, programas dominicais, dupla de ancoras em telejornais e, principalmente, nos chamados entretenimentos humorísticos, com suas piadas preguiçosas e mantenedoras de padrões dominantes, a presença tipificada do “papai e mamãe perfeitos”, todos constituindo enredos onde não se reconhecia o amor entre iguais, o amor, amplo para além dos limites da anatomia.

Ficava patente nas apresentações padronizadas um tipo de formato onde não havia espaço para a diversidade, para homoafetividade – linguagem adquirida em meio ao processo de enfrentamento da violência-, e quando havia era de maneira a desqualificar ou tornar ridículo pelo discurso a moça ou rapaz com trejeitos “inadequados”.

Entretanto, neste momento, a crítica não é para programas da televisão privada com inclinação homofóbica, nem para os negociadores da fé alheia que juram “curar gays”, nem mesmo aos reacionários do parlamento brasileiro que negam direitos iguais para todos. Esses sabem bem de que lado estão, no debate dos direitos humanos que negam.

O apontamento tem endereço certo. E é, principalmente, para o valoroso movimento LGBT , que luta para que haja garantias de direitos às Lesbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. O direito pleno a todo cidadão em sua dissimilitude é o que importa.

Acontece que não são raras as vezes em que militantes desse Movimento, no desejo de fazerem a defesa do amor, em sua múltipla expressão, se valem de um termo que reforça – sem intencionalidade – os contornos de uma sociedade construída em estereótipo monstruoso, pois inumano. Refiro-me especificamente ao famigerado termo ASSUMIR, como intensificador de estigma.

O termo ASSUMIR está sempre presente nas falas de Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, que ao se colocarem em um debate, reafirmam sua orientação/gênero com o seguinte argumento: “Eu sou gay assumido”; “ assumo minha homossexualidade”. Entretanto, a palavra ASSUMIR segue como uma cruz na construção verbal do ativista, compondo uma afirmação argumentativa que restringe possibilidades ao invés de expandi-las, que é o que se deseja. Além de avocar “confissão penosa”, o que em outro aspecto, remete a certo heroísmo extemporâneo e igualmente prejudicial à Causa.

Identificar que Assumir é um verbo transitivo direto que está associado a um fardo, dor, crime e responsabilidade excessiva, é compreender que a Palavra exerce conotação de algo não bom, anômalo. Daí a necessidade de um outro fazer, uma outra linguagem capaz de criar na delicadeza novas fruição.

As pessoas quando dizem ASSUMIR, assumem culpas, delitos, atos falhos e vergonhosos. É imprescindível quebrar o estereótipo, ressignificar o ato de posicionar-se afirmativamente. Avançar na definição de um conceito mais próximo da satisfação e dos desejos. Desconstruir o conceito carregado de dor, romper a lógica da violência e o ranço que a palavra ASSUMIR engendra, é ação estratégica para a maior compreensão de que não há restrições para o ato de amar.

Deste modo, proponho uma imediata substituição do termo Assumir pelo Declarar-se. Por entender que o que é bom se declara. As pessoas declaram seus afetos, satisfação musical, poesias, amores e paixões. Não é correto consigo mesmo dizer “eu me assumo” para tratar de minha boa sentimentalidade, de meu sentimento mais belo. É um tipo de negação de si mesmo na palavra, negação do prazer. Minha afetividade, se decidir, eu a declaro!

Sabe-se que a língua obriga mais do que possibilita, compõe elemento potente no trato do cercear. Já a linguagem, mesmo com limitações, pode possibilitar de forma articulada em contextos atuais, uma maior aproximação daquilo que se pretende revelar.

Roland Bartes afirmava que a linguagem é como uma pele, pois com ela se entra em contato com os outros. Para ele a linguagem é uma pele que esfrega-se no outro. É como se tivéssemos palavras ao invés de dedos, ou dedos nas pontas das palavras.

E é nesta perspectiva que ofereço ao exame de tod@s a substituição da palavra ASSUMIR por DECLARAR, não só aos LGBT que sentem a suja navalha estúpida da homofobia cortando na sua carne, mas a tod@s os defensores dos direitos humanos que se indignam com demonstrações medievais de uma gente que vive na caverna, uma caverna midiática do preconceito a se preocupar com o modo com que o outro pode gozar.

Mulheres, homens, gays e heteros, humanistas de todo Brasil, façamos uma declaração coletiva ao amor! À luta e à reinvenção!

“Ser gay é apenas mais uma declaração de amor. EU ME DECLARO!” (1)

**Daniel Queiroz Galvão – Acrobata no amar e aprendiz. Militante dos Direitos Humanos, mestre em Ciência Política e pai de João.

Contato: dqgalvao@yahoo.com.br


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