Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 16/12/2012

Fantástico mostra absurdo cometido pela polícia no Maranhão

Jamais tente questionar um policial, mesmo com toda a polidez e tranquilidade do mundo.

A “ética” da corporação policial é não aceitar qualquer espécie de questionamento. Para eles, isso é uma afronta à autoridade.

Do soldado raso ao marechal, passando pelo agente comum ou mesmo por um escrivão, a reação a um questionamento será, via de regra, violência física ou verbal. Ou ambas.

Na única vez que fiz isso, quando morava em Salvador e uma viatura quase me atropelou numa rua estreita do Pelourinho, levei um tapa na cara e, quando fui prestar queixa na corregedoria, fui novamente agredido, com um empurrão, e ameaçado de ser preso – é o velho e nefasto espírito de corpo que faz os colegas se protegerem mutuamente.

O Fantástico desse domingo (16) mostrou um caso que certamente acontece todos os dias, em todos os recantos do Brasil. O azar – ou sorte – é que o episódio foi filmado. O que não quer dizer muita coisa, como mostra a reportagem.

Maior do que a indignação que sinto – e qualquer pessoa que não seja policial sente – diante do caso, porém, é a reação dos reaças que já têm prontos os chavões para atacar os princípios dos direitos humanos quando alguém cobra que as polícias respeitem as leis.

“Direitos humanos é defesa de bandido”, é o que mais se escuta, mesmo quando policiais agem como bandidos.

No mais, o aparato de segurança pública do Maranhão perdeu sua natureza pública há muito tempo. Assim como em outros estados, impera a corrupção, a ineficiência e a péssimas condições de recursos materiais e humanos, elementos que consequência de esquemas ligados a grupos privados (inclusive do crime organizado) erguidos há décadas.

Confira a reportagem – cujo tema já fora abordado pela mídia local em julho de 2011 (aqui reportagem da Mirante), quando o fato ocorreu.

Clique no link para ver o vídeo. O texto segue abaixo.

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2012/12/operario-vitima-de-violencia-policial-e-considerado-agressor-pela-justica.html

16/12/2012 21h18 – Atualizado em 16/12/2012 21h18

Operário vítima de violência policial é considerado agressor pela Justiça

José Raimundo Pires levou chutes de policiais e teve uma arma apontada em sua direção, mas foi condenado a pagar multa de R$ 200.

Polícia Maranhão

Um caso de agressão policial terminou de forma muito estranha. Uma vítima foi condenada a pagar multa para o agressor. O episódio aconteceu com um operário em São Luís do Maranhão.

Dia 15 de julho de 2011. Policiais descem do carro em uma rua interditada ao tráfego por funcionários da companhia de água, que estavam trabalhando no local. O carro de polícia tenta avançar. A rua não pode ser liberada e o delegado Alberto Castelo Branco e dois investigadores decidem levar o operário José Raimundo Ribeiro Pires preso por desacato.

Pires leva um chute de um policial. O outro policial saca uma arma, aponta para o trabalhador e depois ameaça dar uma coronhada. O operário é posto no carro da polícia com muita violência. O celular dele cai e é chutado para longe pelo delegado.

Quase um ano e meio depois do que aconteceu, nem o delegado e nem os investigadores envolvidos no caso receberam qualquer punição. Pelo contrário: no relatório interno da Polícia Civil, a conduta deles chega a ser elogiada e colocada como exemplo de atuação. E mais: quem aparece como agressor é o funcionário da companhia de água.

A sindicância diz que as imagens “mostram o empenho dos investigadores de polícia, sob o olhar e auxílio do delegado agredido em sua integridade física e atacado em sua autoridade” e pede o arquivamento do caso.

A atual delegada Geral do Maranhão, Maria Cristiana Menezes, que na época era da Corregedoria, é quem assina o relatório.

“Os exames de corpo de delito do Seu Pires não comprovaram nenhuma agressão, nenhuma lesão. A minha preocupação é que a sociedade entenda que houve um ato de força proporcional, moderado e necessário naquele momento”, sustenta a delegada, apesar de as imagens contradizerem suas palavras.

Perguntada se seria normal o fato de um dos policiais ter sacado a arma e apontado para o operário, a delegada responde: “Nas imagens não consta isso. Consta que o policial – único que está armado – segura a arma no coldre. Analisando as imagens, verificamos que não houve arma apontada”. Nas imagens, é possível ver que o policial aponta uma arma.
O caso também foi parar na Justiça. O delegado abriu um processo contra o operário, se dizendo vítima de agressão. Na versão de Alberto Castelo Branco, o operário teria jogado uma mangueira nele. A Justiça determinou que o operário pagasse multa de R$ 200 e o processo foi encerrado.

“Eu paguei por ter apanhado. É o que os meus colegas dizem”, lamenta o operário José Raimundo Ribeiro Pires.

“O que nos preocupa com relação a essa decisão é ela servir como uma espécie de carta em branco para que outros atos de violência pela polícia sejam cometidos”, alerta Rafael Silva, representante de Direitos Humanos da OAB do Maranhão

O delegado Alberto Castelo Branco não quis gravar entrevista, nem falar por telefone. “Não tenho nada a me manifestar. E não me ligue mais. Tchau”, disse ele à equipe do Fantástico.

“Não fui eu que entrei na área de trabalho dele, ele que entrou na minha área”, afirmou o operário.

O delegado responde ainda a outros dois processos na ouvidoria da polícia por abuso de autoridade.

“Neste caso específico, há uma falência múltipla dos órgãos, que levaram um caso flagrante desse a se voltar contra a vítima”, diz José de Araújo e Silva, ouvidor de segurança pública do Maranhão.


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