Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 30/11/2012

A matemática na CPMI do Cachoeira e o acerto na retirada de Policarpo e Gurgel

Nos últimos dias, os ataques ao PT – e, em particular, ao deputado Odair Cunha (PT-MG) – por conta da retirada, do relatório final da CPMI do Cachoeira, das recomendações de indiciamento ao jornalista Policarpo Jr. (Veja) e de investigação ao Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, sugerem curiosas interpretações.

– o PT (e o relator Odair Cunha) seria “frouxo”, “covarde”, pusilânime (como definiu a revista Carta Capital), entre outros termos…

– o PT “afinou” com a Veja e com o Gurgel…

– o PT contribui com a impunidade da mídia golpista com essa decisão…

– o PT retirou Policarpo e Gurgel porque alguns deputados, como disse o Paulo Henrique Amorim, teriam “olho grande”, sugerindo algum tipo de barganha com a retirada do jornalista e do procurador do relatório…

E por aí segue o fuzilamento marcial, que tem partido mesmo de militantes petistas.

A pior coisa em política é quando o cérebro é contaminado pelo fígado. Como se sabe, o órgão que produz a bile também tem a função de transformar amônia em ureia. Quando ele está mal regulado, todo o corpo sofre as consequências.

Os ataques viscerais ocorrem por desinformação, limitações de raciocínio, descompromisso com a luta política maior (estratégica, de longo prazo) ou simplesmente por  má fé.

Em primeiro lugar, o “relatório do Odair Cunha” é a primeira versão apresentada, que está disponível para download em dois volumes no site do Senado (aqui e aqui) e possui quase 5 mil páginas – das quais, 86 tratam especificamente da conduta do chefe da sucursal da Veja em Brasília (o capítulo dele está disponível aqui), além de muitas outras nas quais ele é citado.

Em segundo lugar, durante toda a CPMI, mesmo completamente isolado, foi o PT – e, em alguns momentos, o senador Collor (PTB-AL) – que apontou a conduta criminosa de Policarpo Jr., que atuou como colaborador da quadrilha de Cachoeira.

O relatório que será aprovado (ou não) nas próximas duas semanas já é um texto “da CPMI”, que não é um órgão do PT e muito menos do deputado Odair Cunha.

A matemática é simples e cristalina. Dos 34 integrantes da CPMI, apenas as bancadas do PT (6) e do PCdoB (2) apoiam integralmente o indiciamento de Policarpo. Dependendo do parlamentar, o PSB talvez apoiasse. Com os dois votos desse partido e o voto de Collor, seriam 11 votos favoráveis e 23 contrários ao indiciamento.

Entretanto, e aqui mora o diabo, PMDB e outros partidos (PSDB, DEM, PDT, PPS, PP e outros) indicaram que derrubariam o relatório caso o relator insistisse em manter Policarpo e Gurgel.

Com a maioria absoluta dos votos na CPMI, estes partidos fariam exatamente aquilo pelo qual a maior parte da mídia e da direita corrupta torcia: a comissão ser encerrada sem relatório final. Aí, sim, uma pizza gigante, depois de quase oito meses de investigações.

Vários jornalistas, nas últimas reuniões da CPMI, comentavam sorrindo entre si acerca dessa possibilidade. “Seria a glória”, dava para ler os pensamentos deles.

Quem ataca o PT e o relator Odair Cunha não sabe ou não se importa com esse “detalhe”. É a diferença entre quem age como “torcida” e quem tem responsabilidade: saber recuar quando for necessário, para garantir a conquista do objetivo maior, estratégico.

Com a retirada do jornalista e do PGR, o relatório provavelmente será aprovado com a recomendação de indiciamento do governador goiano Marconi Perillo (PSDB), do prefeito petista de Palmas (TO), Raul Filho, do empresário Fernando Cavendish (por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro), além dos integrantes da quadrilha.

Vale dizer, aliás, que as informações sistematizadas pela CPMI vão permitir um avanço significativo das investigações sobre o esquema Cachoeira, inclusive nas suas relações com a Delta e outras dezenas de empresas. Se o PGR não dificultar o trabalho, Polícia Federal e Ministério Público Federal ainda poderão desvendar muita sujeira desse e de outros esquemas semelhantes envolvendo empreiteiras e outras grandes empresas.

As investigações da PF, do MPF e da CPMI mostram que o esquema Cachoeira floresceu com a proteção e o apoio do governo de Perillo, que é amigo pessoal do chefe da quadrilha e deste comprou uma casa numa operação nebulosa que foi negada à exaustão justamente porque revelaria o grau de intimidade entre os dois.

Perillo sabe que o nó vai apertar

Perillo sabe que o nó vai apertar

Policarpo Jr. pode ficar tranquilo com relação à CPMI. Mas o seu caso policial não acaba junto com ela.


Responses

  1. Excelente matéria, Rogério. Seu blog está cada vez melhor. Parabéns!

  2. Querido, vc nos traz informações esclarecedoras. Em miúdos, às vezes resta-nos ceder os anéis… Abs.

  3. Boa analise. Uma duvida: O senador Randolfe (PSOL-;AP) entra onde nesta conta??

  4. Valeu Rogério
    Fico um pouco mais tranquilo com sua explicação.


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