Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 24/11/2012

Filho de Ciro Gomes é detido e imprensa do Ceará abafa o caso

Se você chegou até aqui movido pela curiosidade de saber detalhes sobre o que houve com o filho de Ciro Gomes, lamento decepcioná-lo(a). Escrevi esse texto motivado mais pela atitude da imprensa sabuja de Fortaleza do que pelo caso do Ciro Jr.

Do pouco que foi divulgado, o filho do ex-governador do Ceará envolveu-se, na manhã deste sábado, num acidente de trânsito e, supostamente, em seu carro foram encontradas bebidas e drogas, fato que o levou a prestar esclarecimentos em uma delegacia da capital cearense (o 2º distrito, no bairro Aldeota, segundo informa o Terra.

Que ele se resolva com a Justiça e não seja criminalizado por ser usuário de drogas, prática policial comprovadamente inadequada e ineficaz. Mas isso é outra discussão e me interessa aqui analisar como os principais grupos midiáticos do estado abordaram o episódio.

O portal do jornal O Povo, tido como o mais sério e independente, publicou nota acanhada a respeito, que ganhou destaque secundário na página inicial no início dessa tarde. Fui informado que a demora na publicação se deveu à confusão entre versões. Também me disseram que o blog do Eliomar, colunista do jornal, havia noticiado o fato ainda pela manhã, mas não achei qualquer menção ao caso no blog neste momento (15h).

O Povo foi bastante tímido ao reportar o fato (clique para ampliar)

Já o Diário do Nordeste, do grupo Edson Queiroz, dono da afiliada da Rede Globo local, foi malandro: deu destaque amplo na home page do portal, informou que o motorista tentou subornar os policiais, mas não disse – nem no título e nem no texto da matéria – que se tratava do filho de Ciro Gomes, como se vê no print da tela abaixo.

“Motorista é preso ao se recusar a fazer o teste do bafômetro” (clique para ampliar)

Esse é um bom exemplo do jornalismo sabujo e bajulador. Como o Diário do Nordeste noticiaria o caso se o envolvido fosse a prefeita Luizianne Lins (PT) ou outro político petista?

Curiosamente, a notícia mais completa saiu justamente num blog do grupo Jangadeiro, pertencente à família Jereissati, de notórias boas relações com o clã dos Ferreira Gomes.

Às 8h40 da manhã, a jornalista Kézya Diniz publicou post no seu blog, hospedado no site da TV Jangadeiro, e informou logo no primeiro parágrafo que o condutor detido era  o filho de Ciro Gomes. Embora também omita o “detalhe” na manchete (curiosamente o link do post indica que o título trazia essa informação) e esteja repleto de erros ortográficos, o texto é o que mais atende aos critérios jornalísticos.

Repórter da Jangadeiro mostrou independência (clique para ampliar)

A repórter também cita a proibição de acesso da imprensa às dependências da delegacia. Acho até acertada a decisão da polícia, mas lamento que esse zelo com o direito à privacidade não ocorre quando os detidos são pessoas pobres ou sem notoriedade, o que permite o show de horrores* que as TVs exibem como notícias “de polícia”.

NENHUM dos três veículos, entretanto, publicou uma foto, mesmo de arquivo, do ilustre rapaz.

A conclusão a que podemos chegar é a mesma de sempre: diante dos ricos e poderosos, salvo exceções, a imprensa pisa em ovos para noticiar suas condutas condenáveis.

Mas engana-se quem acredita que isso não é um problema da “imprensa regional”. Procure escândalos das maiores corporações do mundo nos principais jornais globais. Ou das grandes empresas brasileiras na Folha de SP, O Globo, Estadão e afins… Se/quando encontrar, serão exceções e bastante mutiladas. E, muito provavelmente, publicadas somente após condenações judiciais ou terem sido divulgadas no exterior.

*Exemplo extremo das bizarrices policialescas que tentam se travestir de jornalismo foi o da repórter Mirella Cunha, da Band Salvador, que humilhou um preso diante das câmera e foi acionada judicialmente pelo Ministério Público, além de ter sido duramente criticada por entidades de direitos humanos e de jornalistas.

O grotesco vídeo da “reportagem” foi retirado do ar – e censurado no Youtube – pela Band, mas o caso está bem registrado em dois posts no blog Pragmmatismo Político (aqui e aqui)


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