Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/11/2012

Obrigado, Lucas!

Lucas Fortuna, 28, jornalista, militante do movimento LGBT e árbitro de vôlei.

Assassinado neste sábado (17), numa praia em Pernambuco, seu corpo foi encontrado com marcas de violência brutal.

Era militante do PT, do qual era presidente do diretório municipal em Santo Antonio de Goiás.

Santo Antonio é o santo casamenteiro dos católicos. Mas as autoridades católicas – e muitos dos seus fieis – não aceitam a igualdade de direitos para pessoas do mesmo sexo que partilham a vida e o teto.

Durante boa parte da sua curta vida, Lucas lutou a favor da união civil para homossexuais. E também pela criminalização dos atos de homofobia, que começam com as piadas “inofensivas” – que servem para reproduzir e disseminar o preconceito e a discriminação – e chegam aos atos de extrema violência… da qual, muito provavelmente, Lucas se tornou mais uma vítima fatal.

O conheci em janeiro de 2004, no Congresso Brasileiro dos Estudantes de Comunicação Social (Cobrecos) realizado na capital federal.

Exceto durante os encontros estudantis – e, posteriormente, de direitos humanos – dos quais participamos, não tive convivência muito próxima a ele. Entretanto, qualquer pessoa que o tenha conhecido jamais esquecerá a personalidade forte, a franqueza e a inteligência afiada que expressava a serviço das suas convicções.

Assim como não esquecerá o sorriso e a simpatia tão marcantes nele.

Recordo um debate acalorado na plenária do Cobrecos, envolvendo estudantes marxistas ortodoxos e outros – aos quais eu me alinhava – mais simpáticos às idéias de Gramsci e demais teóricos afins.

No meio da peleja, que já soltava faíscas, Lucas pediu a palavra para colocar uma posição divergente de ambas as correntes em confronto. Demonstrou profundo conhecimento de autores que versavam sobre os temas em discussão, mas que não estavam no rol de leituras comuns do movimento estudantil naquele momento. E terminou com uma provocação bem humorada: “Vamos fazer uma suruba de Marx e Freud e sejamos felizes!”, resumiu.

Naquele mesmo encontro, Lucas havia sido alvo de discriminação. Andava de saia – “Não existe nada mais confortável”, dizia – em todos os locais do evento e o seu visual motivou piadas e ofensas homofóbicas por parte de alguns estudantes que apenas aproveitavam o “turismo estudantil”.

Em apoio a ele, algumas dezenas de participantes do encontro também passamos a usar saia e nos somamos ao debate sobre diversidade sexual, assunto ainda bastante restrito na militância estudantil àquela época.

O “Movimento Saia Como Quiser” se repetiu em outras ocasiões. No Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom), em agosto de 2004, em Fortaleza (CE), o “auge”.

Num evento de 800 pessoas, quase uma centena de homens vestiu saião ou minissaia na noite em que o então ministro da Secretaria dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Orlando Fantazzini, foram os convidados de um painel que debateu temas de direitos humanos e mídia.

Fui designado para expressar – para o ministro, o deputado e a plateia que desconhecia – o significado político daquele ato, que superava a dimensão do desagravo e se assumia como manifestação com o objetivo de quebrar barreiras e estereótipos.

Para mim, nascido no Ceará, estado onde o humor sem limites é um dos traços culturais marcantes, não foi fácil me libertar das amarras preconceituosas tecidas pela cultura homofóbica profundamente enraizada.

Se hoje conheço um pouco e posso me expressar sem pudor e sem qualquer hesitação em favor das bandeiras da população LGBT, devo isso, em grande parte, ao Lucas.

Descanse em paz, companheiro. Sua luta continuará, ainda com mais força, graças à indignação que alimenta a nossa sede de justiça e de igualdade.

PS: Amigos(as) me lembram que desde o Cobrecos 2002, em Maceió (AL), Lucas já usava saia. Mas a primeira vez que ele foi ofendido num encontro foi mesmo em 2004. E o Bráulio Ribeiro me lembra que o nome do “movimento” era “Saia Como Quiser”.


Responses

  1. Boa Viagem Lucas !!! Sentimentos a seus familiares …

  2. Que bom que temos você pra colocar com palavras tão sensíveis nossa indignação e doces memórias a respeito do Lucas. Lembrar de cada um dos momentos que você citou tendo participado junto é motivo de orgulho, muito orgulho do Lucas, por saber que foi exatamente assim e que você não exagerou em nada ao falar do bom humor, inteligência, perspicácia e determinação do Lucas ao tratar de temas tão importantes com objetividade, mas sem perder a leveza. Obrigada mesmo, Lucas Fortuna! E obrigada a você também Rogério, por trazer à tona uma memória tão feliz apesar do momento tão triste.

  3. Eu tambem usei saias gracas ao lucas.
    A luta continua.

  4. Estou consternada. Minha solidariedade aos familiares e amigos.

  5. Em homenagem ao Lucas, amanhã, todos os estudantes de jornalismo e jornalistas, deveriam usar saia, aquela que sempre foi uma das intervenções mais autênticas e insubordinadas levantada pelo seu espírito ousado e questionador .

  6. […] faculdade, e a manteve em atividade nos congressos de jornalistas e eventos de comunicação, onde comparecia trajando saia. Daí o mote do […]


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