Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 10/11/2012

Para degustar a tristeza

Texto do colombiano Hector Abad, presente no seu ótimo “Livro de receitas para mulheres tristes”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni.

Originalmente, o texto não possui título. No post, escolhi o que achei mais conveniente.

Você faz piruetas com o corpo e com a imaginação para fugir da tristeza. Mas quem disse que é proibido ficar triste? Na verdade, muitas vezes não há nada mais sensato do que ficar triste; todo dia acontece alguma coisa, com os outros ou com a gente, que não tem remédio, ou melhor, só tem esse antigo e único remédio que é sentir tristeza.

Não deixe ninguém receitar alegria como quem prescreve um tratamento de antibióticos ou colheradas de água do mar de estômago vazio. Se você deixar que tratem sua tristeza como se fosse uma perversão, ou no melhor dos casos como uma doença, estará perdida: além de triste, se sentirá culpada. E você não tem culpa de sua tristeza. Não é normal você sentir dor quando se corta? Sua pele não arde quando leva uma lambada?

Pois é assim mesmo o mundo, a vaga sucessão dos fatos que acontecem (e dos que não acontecem) vai criando um fundo de melancolia. Como dizia o poeta Leopardi: “Assim como o ar preenche o espaço entre as coisas, a melancolia preenche os intervalos entre uma alegria e outra”.

Viva sua tristeza, apalpe-a, desfolhe-a em seus olhos, molhe-a com lágrimas, envolva-a em gritos ou em silêncio, copie-a em cadernos, grave-a em seu corpo, nos poros de sua pele. Pois só se você não se defender é que ela fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima.

E para degustar sua tristeza vou recomendar também um prato melancólico: couve-flor em névoa. Trata-se de cozinhar essa flor branca, triste e consistente, no vapor. Devagar, com o cheiro do hálito que a boca exala nas lamentações, ela vai cozinhando até ficar macia. E envolta em névoa, em seu vapor fumegante, acrescente azeite e alho e um pouco de pimenta, e salgue com suas próprias lágrimas. Então saboreie essa flor lentamente, abocanhando-a no garfo, e chore mais, e mais ainda, que no fim ela sugará sua melancolia sem deixar você seca, sem deixá-la tranquila, sem roubar de você a única coisa que é sua nesse momento, a única coisa que ninguém nunca poderá tirar de você, a sua tristeza; mas com a sensação de ter compartilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os namorados nunca pedem nas floriculturas, com essa flor de couve que ninguém nunca põe nos vasos, com essa anomalia, com essa tristeza florida, sua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.

“Sadness”, por Dmitry Kalinin – http://www.flickr.com/tree_leaf_clover

Para você que chegou até aqui, um brinde:

A felicidade


Responses

  1. Coincidencia ou nnn hoje comi a flor branca no almoço e jantar ,…. nn estou triste e sim saudosa … belissimo texto … bjs

  2. Belo texto, onde a tristeza cai como antídoto, e fecha como uma que é só alegria…. valeu! Abraços!

  3. Lindo!! Deu ate vontade de ficar triste. rsrsrs

  4. […] texto faz parte do “Livro de receitas para mulheres tristes”, publicado aqui pela Companhia das […]


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