Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 12/10/2012

Testemunha do Elefantaço na casa de Eduardo Galeano

Nesta sexta, 12 de outubro, Argentina e Uruguai novamente colocaram sua rivalidade no campo de futebol.

Triunfo da turma de Lionel Messi & Cia., por 3×0, com dois gols do maior virtuose desse esporte no século XXI.

A partida, pela 9ª rodada das Eliminatórias para a Copa de 2014, foi o primeiro encontro após a vitória uruguaia – na decisão por penaltis – na Copa América de 2011, em pleno território argento.

Aquela peleja aconteceu na cidade de Santa Fé, no estádio apelidado de Cemitério de Elefantes, graças ao longo histórico de reveses dos grande times argentinos diante do clube local, o Colón.

E a data não poderia ser mais especial para o Uruguai: 16 de julho, imortalizada em 1950, quando a seleção de futebol deste pequeno país calou 200 mil torcedores que aguardaram 90 minutos no Maracanã por uma festa brasileira que não veio.

O espírito do Maracanazo de 1950 viajou no tempo e no espaço e ressurgiu em 2011, na forma do Elefantazo no centro-leste argentino.

Naqueles dias, estava de férias em Montevideu e acabei presenciando o episódio na casa de um ilustre uruguaio.

— Você sabe que hoje é 16 de julho, lembra que é o dia do Maracanazo, não? — já foi me dizendo, mal me recebia à porta, o senhor que se diz postulante ao cargo de presidente do Sicalmu (Sindicato dos Calvos do Mundo).

A esposa – “que vale por um harém”, frisou em certo momento – estava em Buenos Aires, mas a filha Florencia, o genro e os filhos do casal visitavam o vovô escritor.

Os netos, jogadores de basquete da seleção nacional, foram apresentados como “os anões” da família. Não à toa. Felipe, 14 anos e 1,90m, e Manuel, 16 anos e 1,96m, jogam no Trouville, mesmo time por onde passou o jovem Washington Sebastián Abreu Gallo, mais conhecido como “Loco” Abreu, antes de se tornar futebolista profissional.

A pequena Carmela, com o doce sorriso e aparente timidez, olhava curiosa o brasileiro que chegava com presentes* para o seu avô.

A casa de Eduardo Galeano e Helena Villagra é praticamente uma galeria de arte. Quadros, gravuras, bonecos, mandalas, esculturas – como a primeira do renomado poeta nicaraguense Ernesto Cardenal – e tantos outros objetos de todos os cantos do planeta se distribuem por todos os cômodos da residência, inclusive o banheiro.

Escultura de Ernesto Cardenal (clique para ampliar). Foto: Rogério Tomaz Jr.

O anfitrião acompanhou o jogo saboreando cerveja e vinho, acomodado numa cadeira da qual levantava apenas para beijar uma cruz  – lembrança de El Salvador, se não estou enganado – que ele acabara de dedicar à mais nova ordem religiosa uruguaia, o sanmuslerismo, fruto das incontáveis e quase inacreditáveis defesas do goleiro Muslera, que impediu a derrota da Celeste.

Nascia o sanmuslerismo (clique para ampliar). Foto: Rogério Tomaz Jr.

A cruz de San Muslera (clique para ampliar). Foto: Rogério Tomaz Jr.

Eu e Juliana, amiga paraibana que conheci na Posada Al Sur, fomos de medio y medio** e vinho.

Embora conhecido pela sisudez, Galeano não passou 5 minutos sequer sem fazer uma piada.

— O Tabarez [técnico do Uruguai] não pode pedir a substituição de Messi?, perguntou aos netos, impacientes com a pressão argentina na maior parte do tempo.

Intervalo antes dos penaltis (clique para ampliar). Foto: Felipe Montalverde

Eu havia chegado trajando a camisa do Fluminense, mas trazia a do Nacional – time do clã Galeano, exceto por Felipe, hincha do Peñarol – na mochila e fui considerado pé quente.

A equipe de Diego Forlán – melhor jogador do Mundial de 2010 – abriu o placar e a euforia na casa do silencioso bairro de Malvín só não foi maior do que no final, com a cobrança derradeira do defensor Martín Cáceres.

 No puedo creer! No puedo creer! No puedo creer! El segundo Maracanazo!… foi o que conseguiu dizer o vovô, de mãos na cabeça e felicidade juvenil, enquanto os netos choravam e gritavam, corriam e pulavam pela sala.

San Muslera não viu seus compatriotas baterem os penais.

Após o jogo, vendo a entrevista de Oscar “El Mastro” Tabarez na qual este descartava qualquer favoritismo de sua equipe, Galeano comentou, sem esconder o orgulho do compatriota:

— Veja isso. Acabou de derrotar a dona da casa, mas não se deixa levar pela glória e lembra que não ganhou nada. Uma lição de humildade. Os uruguaios somos assim…

Naquela noite, prodigamente histórica para 3,5 milhões de humildes uruguaios, ninguém ficou mais alegre do que eu.

Fim de jogo, hora de tietar (clique para ampliar). Foto: Rogério Tomaz Jr.

*Entre os regalos, levei uma garrafa de Maria da Cruz, deliciosa cachaça produzida por uma destilaria pertencente ao nosso ex-vice-presidente, José Alencar, então recém-falecido, fato que não foi perdoado pelo humor afiado de Galeano: — Ah, então foi isso que matou ele…

**Medio y medio é uma bebida típica do Uruguai, mais precisamente do Mercado do Porto de Montevideu, composta a partir da mistura de vinho branco e espumante.

PS: Acabei vendo a final da Copa América 2011 (Uruguai 3×0 Paraguai) no Monumental de Nuñez, lendária cancha do River Plate. As  fotos estão no meu Flickr e o relato saiu no Impedimento.


Responses

  1. Amigo, vc sempre me encantando com suas histórias. Quero viajar contigo!!!!


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