Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 09/09/2012

A simplicidade de Pepe Mujica e seu discurso histórico na Rio+20

Há quase dez anos estou envolvido num projeto pessoal – sem pressa e prazo para ser concluído – sobre a América Latina, despertado a partir da obra do uruguaio Eduardo Galeano.

A cada nova descoberta que faço da história, da cultura e de personagens ilustres ou anônimos desta região, tenho mais orgulho de ter nascido nessa parte do mundo.

Hoje quero falar de um conterrâneo de Galeano que até 2009 era completamente desconhecido fora do seu país. Nos dias de hoje, porém, é um exemplo vivo do que o mundo poderia ser, se o dinheiro não fosse a principal medida de (quase) tudo e todos.

José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai, é daqueles senhores que evocam a figura do avô querido e pacato da nossa infância. Ou do “tio que faz o churrasco aos domingos”, como diriam os gaúchos.

Sua simplicidade e humildade são tão grandes que, dia desses, resolveu sair de casa, acompanhado apenas do seu cão, para comprar uma tampa de privada. No caminho, foi visto por jogadores do Huracán de Paso de La Arena, pequena equipe da vizinhança, que disputa as divisões menores do futebol charrúa. Os atletas, que estavam prestes a iniciar o treinamento, pediram que o presidente desse uma palestra motivacional para o grupo, que em poucos dias disputaria partidas decisivas para o acesso à primeira divisão. Convite aceito, o presidente também acenou positivamente com a participação no churrasco de comemoração pela eventual subida do time, o que, infelizmente, acabou não acontecendo.

Mujica, 77 anos, é um sobrevivente. Integrou o movimento guerrilheiro Tupamaros e foi preso e torturado pela ditadura militar uruguaia na década de 70.

Dirige o próprio carro para ir à sede da presidência e doa a programas sociais 90% do seu salário de 12.500 dólares. Aliás, vive na mesma chácara onde morava antes de ser eleito, a poucos quilômetros de Montevideu.

Na Rio+20, fez um discurso tão valioso quanto pouco divulgado, inclusive por boa parte do movimento ambientalista, devidamente aderido ao (ou cooptado pelo) “capitalismo verde”. O vídeo do discurso (com legendas em português) segue abaixo. Não deixe de ver. E, se gostar, repasse adiante.

Ao final do post, um comentário que Mujica fez em resposta à sua alegada – pela mídia da sociedade do espetáculo – condição de “presidente mais pobre do mundo”.

Discurso de José Mujica na Rio+20

Mujica sobre a pobreza

Eu não sou pobre. Pobres são os que creem que eu sou pobre. Tenho poucas coisas, é certo, as mínimas. Mas só para poder ser rico.

Quero ter tempo para dedicar às coisas que me motivam.

Se tivesse muitas coisas, teria que gastar tempo com elas e não poderia fazer o que realmente gosto.

Essa é a verdadeira liberdade, a austeridade, o consumir pouco.

A casa pequena para poder dedicar o tempo ao que verdadeiramente desfruto. Senão, teria que ter uma empregada e já teria uma interventora dentro de casa. Se tenho muitas coisas, tenho que me dedicar a cuidar delas para que não as levem de mim. Não, com três peças me basta. Passamos a escova entre a velha e eu, e pronto, se acabou.

Então, se temos tempo para o que realmente nos entusiasma, não somos pobres.

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Responses

  1. Adorei êle falou e disse!1

  2. Para mim é uma pessoa maravilhosa, como exemplo para a humanidade. O mundo deveria ver isso.

  3. Mujica fala aquilo que as pessoas negam ver, as mazelas existenciais dentro de nos são muitas,quando abrirmos os olhos e de fato ver o real valor da vida, ja não mas estaremos aqui!


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