Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 31/07/2012

Mensalão por Jânio de Freitas: pressão sobre julgamento revela pouco apego à democracia

Certeiro e na contracorrente, inclusive do seu próprio jornal, Jânio de Freitas mostra que a pressão sobre o julgamento parte de quem tem pouco apego à democracia.

Por si só, o uso ad nauseum do rótulo “maior caso de corrupção da história” já deixa escancarada a posição unânime da grande mídia, escapando apenas as exceções que confirmam a regra, como o articulista abaixo.

Sem mais.

PS: Lembrei que o professor Venício Artur de Lima, um dos principais analistas da imprensa e das políticas de comunicação do Brasil, contou sobre um debate que participou com o diretor da Globo, Ali Kamel. Questionado sobre a ânsia condenatória que norteia a cobertura da grande mídia, Kamel se justificou com essa: “o tempo da imprensa é diferente do tempo da Justiça”. Mais explícito, impossível. A imprensa, na ótica de Ali Kamel, não precisa se basear nos julgamentos da Justiça para emitir suas opiniões sobre questões afeitas à esfera da própria Justiça.

Folha de São Paulo, 31 de julho de 2012

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/57791-o-julgamento-na-imprensa.shtml

O julgamento na imprensa

Se há contra os réus indução de animosidade, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações

Jânio de Freitas

O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que “o mensalão é o maior escândalo da história” -do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.

Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.

Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?

E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: “Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana”.

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que “vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana”.


Responses

  1. Pois é…!

  2. Não há linchamento ou julgamento antecipado contra os mensaleiros do PT. Para o observador imparcial basta rever a trajetória, até agora, do comportamento de membros do PT tentado dificultar, postergar ou intimidar ministros do STF, ou a nefasta partidarização política dos órgãos públicos, infestada de apadrinhados corruptos, endossada pelo ex-presidente Lula, de cujas pastas muitos ministros foram defenestrados pela presidente Dilma Rousseff, para compreender-se o que houve no país.
    O senhor José Dirceu considera-se um injustiçado. Mas trata-se de uma figura enigmática em seus negócios políticos obscuros. De instinto rude e de personalidade duvidosa – a mãe de seu filho só ficou sabendo de quem se tratava muito tempo depois – tinha e tem interesses subjacentes no comando do país.
    É justamente sob o clamor da opinião pública ou sob as diversas linhas de enfoques do jornalismo político que a nossa Suprema Corte tem que mostrar a sua independência jurídica aos fatos ora em ebulição. E somente os partidários petistas & Cia., cônscios dos malfeitos praticados, podem por em dúvida a seriedade dos ministros da Suprema Corte que irão julgar o maior escândalo da política nacional.

    • Eu me divirto com os tucanos. Vivem num mundo paralelo, sem nenhuma conexão com a realidade.

  3. Ops, amigo rogério, não sou tucano. Juro. Fui com lula todas as vezes. Esperava dele a razão do meu voto. Pois bem, meu bom amigo rogério, de cima dos meus quase 70 anos de idade, aconselho-o a pedir, mais ainda, rezar, REZAR, para que neste julgamento do mensalão botem o J. Dirceu e o resto do bando na cadeia, NA CADEIA, para o bem do Brasil, para o seu bem, para o bem dos seus filhos. Jânio se equivocou, ou não, ou foi tendencioso, não interessa agora. O que interessa é a punição desta gente.

    • Cada um escolhe aquilo com o que se preocupar. O mundo real não se importa com isso. E a caravana Brasil anda.

      • Como assim meu bom e dileto amigo rogério? como assim? então o “confisco” do meu bolso, não foi real? Reflita bem sobre o artigo do jânio e conclua que tolamente ele confirma a roubalheira e a corrupção, tentando defender a quadrilha citando casos piores… Caramba, no mundo real e e você fomos roubados, meu bom e dileto amigo rogério. Roubados. Breno.

  4. Ministros do STF, em meu leigo entendimento, não podem se deixar persuadir por esse ou aquele apelo, essa ou aquela pressão… São a corte máxima. Se assim o fizerem não estão aptos. E a imprensa veicula os pensamentos e anseios de parte da população a que representa (esquerda ou direita). Hoje ansiamos pelo fim da vergonha histórica das práticas de corrupção. Quer seja tucano (Demóstenes Torres), quer seja do PT (José Dirceu).
    O que está em jogo, a meu ver, é o estabelecimento de um novo fazer político para o Brasil, alinhado com suas pretensões de potência democrática. Que temam por corromperem-se todos os que desejam chegar ao poder, venham de onde vierem.


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