Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 16/06/2012

Encontros (ou coincidências) quase incríveis

Sábado, 9 de junho de 2012.

Retorno dos 18 Km de caminhada que separam Alto Paraíso da cachoeira dos Cristais, na chapada dos Veadeiros.

Encosto num lugar de nome atrativo e fachada atraente.

Lugar de encontro na Chapada dos Veadeiros (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

No balcão, um índio em trajes típicos usados em boa parte da América Latina, porém mais identificado pelos povos nativos do Peru e da Bolívia.

Cedendo ao óbvio, pergunto se é boliviano.

– Não. Uruguaio – diz Antonio, de sobrenome Cáceres, que denota sua ascendência paraguaia.

Mostro a ele o livro que carrego na mochila – “Los hijos de los dias”, de Eduardo Galeano – e a conversa flui.

O cansaço me empurra a um banho e combino breve retorno para jantar a chapizza, pizza feita com chapito, massa indiana que serve para fazer pão e alimentos afins.

Chego à pousada e comento com Sheila, a anfitriã, que em poucas horas chegará o meu aniversário.

– Você me lembrou que amanhã também é o meu! – respondeu.

Depois dos sorrisos e dos comentários filosóficos sobre tal coincidência, retirei-me para a ducha revigorante.

De pronto, voltei ao Cravo e Canela, onde reencontrei Antonio, o paranaense Fábio e a brasiliense Renata.

Partilho com eles a “coincidência” e Fábio diz serenamente:

– Amanhã também é o meu aniversário…

Os aniversariantes sob o mantra indiano* (Foto: Antonio Cáceres)

Refeito da surpresa e dos risos, lembro que Milan Kundera usa a palavra “acaso” 53 vezes em “A insustentável leveza do ser”, embora o livro não trate de “coincidências”, mas divaga pelas ideias do eterno retorno de Nietzsche e da dicotomia peso-leveza de Parmênides.

Fábio, mais arguto, sugere que eu realmente procurava passar meu aniversário com alguém que celebrasse a mesma data.

Sem saber, ele dizia a mais pura verdade. De última hora resolvi ir para a chapada, deixando para outro dia uma viagem para Ouro Preto e Belo Horizonte, onde encontraria a querida Carolina Pinho, que também nasceu no popular 10 de junho.

No meio da charla, descubro que Antonio havia feito uma greve de fome em Montevideu, em 1997, e recebera uma visita solidária de Eduardo Galeano e outros intelectuais engajados do Uruguai, como o saudoso Mario Benedetti.

– Eles nos vistaram para dar apoio à nossa luta e Galeano me deu um exemplar autografado de “As veias abertas da América Latina” – contou o músico e professor charrua.

Antonio lendo o conterrâneo (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

As conexões não pararam aí. Logo soube que a esposa da Fábio, que estava na cozinha preparando as delícias do aprazível restaurante, realizou um projeto de teatro baseado num livro do conterrâneo de Antonio.

Camila, na faculdade, encenou textos de “O Livro dos Abraços”, uma das mais tocantes e inspiradas obras do escritor que chegou a ser bancário na juventude. Quando virou professora de teatro, Camila fez o mesmo com seus alunos.

Segue o vídeo com o testemunho de Camila sobre o projeto, que é também um agradecimento ao autor do livro e ao realizador do projeto, o professor Daniel Marques, atualmente na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde é um dos responsáveis pela Escola de Teatro.

Camila Veter fala sobre projeto de teatro inspirado em obra de Eduardo Galeano

Antonio Cáceres e sua arte (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

PS1: Cheguei a Alto Paraíso numa noite de quinta-feira e iria apenas dormir lá e partir para São Jorge pela manhã. Resolvi ficar mais um dia e depois outro. Apenas por essas decisões acabei sabendo que a dona da pousada onde eu me hospedava comemora aniversário junto comigo.

PS2: Gravei Antonio tocando dois tangos clássicos com sua flauta talentosa. Em breve aqui no blog.

*O mantra acima do balcão do Cravo e Canela é indiano e significa “que todos aqueles que chegarem, de onde vierem, que voltem em paz”.

*****

ATUALIZAÇÃO – 18h50 de 16/06/2012

Pesquisando agora há pouco sobre Horacio “Pintin” Castellanos, autor da milonga “La puñalada”, uma das duas músicas tocadas por Antonio no vídeo que gravei (abaixo), descobri que esse compositor uruguaio nasceu também num 10 de junho.

Antonio escolheu as músicas – a outra é “La comparsita”, de Gerardo Matos Rodrigues – por serem de compositores do Uruguai, mas não sabia que “Pintin” nascera num 10 de junho, de 1905, no caso.

Fiz essa pesquisa movido por curiosidade, para saber o período exato em que viveram esses dois compositores.

E eis que descubro mais um 10 de junho…

Sem palavras.

Assista também a esse vídeo com o belo concerto de Antonio Cáceres.


Responses

  1. Melhor impossível.


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