Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 09/06/2012

Na chapada, com Eduardo Galeano e o panteísmo

Pela 12ª (ou 13ª, não tenho certeza) vez, em cinco anos, estou na Chapada dos Veadeiros, um dos incontáveis paraísos no lugar chamado Brasil.

Desde a descoberta, num final de semana maravilhoso em fevereiro de 2007, até a visita presente, sempre vi, descobri e percorri lugares espetaculares, conheci pessoas que te fazem melhor, provei comidas inacreditavelmente deliciosas, tomei porres dionisíacos, senti energias únicas e vivenciei experiências indeléveis da memória.

A três horas de Brasília, cidade que já me acostumei a chamar de minha, a Chapada dos Veadeiros só tem um lugar rival à altura na arte de acalentar o meu espírito: outra chapada, a Diamantina, no coração da Bahia.

Aqui não sinto fome. O sono é mínimo. A ansiedade é um fio de cabelo no oceano.

O que mais faço por aqui é caminhar. Não sou adepto de esportes “radicais” ou “de aventura”. Nada me dá mais prazer do que andar pelas paisagens do cerrado sentindo o cheiro e escutando os sons desse lugar tão cativante quanto ignorado ou, em certos casos, até desprezado.

Desta vez, a lembrança mais marcante será a leitura do “Los hijos de los dias”, novo livro do Eduardo Galeano, outro viciado em caminhada*. Já li toda a obra desse uruguaio umas cinco ou seis vezes, inclusive por conta de um projeto pessoal em andamento, e sei dizer exatamente em que momento – e em que lugares – li cada livro dele. E lembro bem o meu contexto em cada leitura, desde que descobri uma edição surrada e devorada pelas traças de “As veias abertas da América Latina”, numa prateleira da UFMA, em maio de 2000.

Como a maioria dos livros do pai da Florência, “Los hijos de los dias” – que deve sair em português em breve –desperta riso, raiva e pranto de vários tipos.

O livro-calendário – composto de pequenas histórias sobre fatos, pessoas e personagens ilustres ou anônimos, um para cada dia do ano – tem traços de História, jornalismo, poesia, crônica, conto, romance e gêneros inclassificáveis. A obra em si mesma é inclassificável, marca do “estilo Galeano”, especialmente desde a trilogia Memória do Fogo, parida em meados dos anos 1980.

Estar em lugares como as chapadas, aqui ou na Bahia, ou Caviahue, na Patagônia Argentina, que conheci há poucos meses, é também estar mais perto do que considero “Deus”: a natureza. Não gosto de rótulos, mas na esfera religiosa cada vez mais me convenço que sou um panteísta, um crente nas conexões indecifráveis do que existe há milhões de anos, enquanto as religiões e seus templos abarrotados de mercadores existem há poucos séculos ou alguns milênios.

Entes panteístas da Chapada dos Veadeiros (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Assim, para encerrar esta reflexão inflacionada de palavras, partilho um gole do Galeano, notório adorador do universo e das lendas e culturas dos seus diversos e tão distintos – porém iguais na essência – filhos humanos.

*Galeano costuma dizer que, caminhando pelas ruas de Montevidéu ou de onde quer que esteja, economiza uma fortuna que poderia ser gasta em terapia.

Obs.: Tradução livre deste escriba. Qualquer correção necessária, por favor, me informem.

*****

Maio

12

Os sismógrafos vivos

No ano de 2008, um terremoto feroz sacudiu a China.

Na China havia sido inventado o sismógrafo, há dezenove séculos, mas nenhum sismógrafo avisou o que vinha.

Os que avisaram foram os animais. Os cientistas não lhes prestaram a menor atenção. Desde uns dias antes da catástrofe, multidões de sapos enlouquecidos passaram a correr, rumo a parte alguma, e a toda a velocidade atravessaram as ruas de Miauzhu e outras cidades, enquanto no zoológico de Wuhan os elefantes e as zebras golpeavam as grades das jaulas e rugiam os tigres e gritavam os pavões-reais.

Mayo

12

Los sismógrafos vivientes

En el año 2008, un terremoto feroz sacudió a China.

En China había sido inventado el sismógrafo, hada diecinueve sigios. pero ningún sismógrafo avisó lo que se venía.

Los que sí avisaron fueron los animales. Los científicos no les prestaron la menor atención. Desde unos días antes de la catástrofe, multitudes de sapos enloquecidos se echaron a correr, rumbo a ninguna parte, y a toda velocidad atravesaron las calles de Miauzhu y otras ciudades, mientras en el zoológico de Wuhan los elefantes y las cebras embestían los barrotes de las jaulas y rugían los tigres y gritaban los pavos reales.

Começando a ler “Los hijos de los dias”

Mais sobre Los hijos de los dias aqui no blog:

Novo livro de Eduardo Galeano – Los hijos de los dias
https://brasiliamaranhao.wordpress.com/2012/03/30/novo-livro-eduardo-galeano

20 de abril no novo livro de Eduardo Galeano
https://brasiliamaranhao.wordpress.com/2012/04/20/baia-dos-porcos-eduardo-galeano

PS: Agradeço às queridas Tamara Menezes e Cecília Bizerra, que compraram o livro para mim, na Espanha e no Uruguai, respectivamente. Tamara, logo apareço aí para buscar o regalo!

PS2: O primeiro panteísta que conheci foi o amigo-irmão baiano Gustavo Pereira. Salve!


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