Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 21/04/2012

Poesia do Dia (25) – Juan Gelman lê poema no quarto do hotel em Brasília

Havíamos falado pessoalmente no sábado (14), abertura da Bienal, e combinamos uma conversa para a semana.

Sofreu um pequeno corte no pé que o deixou de molho e – suponho – sem disposição para encontrar jornalistas.

Insisti e deixei na quinta-feira uma carta na recepção do hotel.

Na manhã seguinte, o telefone me acorda. No visor, um número que já conhecia.

Identifiquei o sotaque portenho na voz calejada do senhor de 80 anos que desdenha da idade (depois conto essa).

Fui para o hotel o mais rápido que pude.

Recebeu-me com bom humor e tirando sarro da própria situação:

– Estou bem. Meu pé que está mal – disse, como quem fala de uma pessoa distante.

Perguntei se já havia visitado Brasília.

– Sim. Onze anos atrás. Cresceu muito. Não é mais um avião. É uma frota… – sorriu, acrescentando que a Cidade do México, onde vive, é ainda mais infernal devido à quantidade de carros.

Durante a conversa-entevista, sentado na cama do seu quarto, não parou de fumar um segundo. E soltou tantas boas histórias quanto fumaça e sorrisos.

Por ora, compartilho um vídeo – bruto mesmo, sem edição nenhuma – com a leitura de “Límites”, poesia que tem tudo a ver com a luta pela criação (e, agora, pela instalação) da Comissão da Verdade no Brasil, tema que optou não abordar na conversa.

Juan Gelman lê poesia no quarto do hotel em Brasília


límites

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí la sed,

hasta aquí el agua?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?

Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.

limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.

*Esta e outras belíssimas poesias de vários momentos de sua obra estão na coletânea “Amor que serena, termina?”, selecionada e traduzida por Eric Nepomuceno, com revisão de Chico Buarque.

Para quem não o conhece ou não tem acompanhado o blog, Gelman é considerado o maior poeta vivo da língua espanhola.

Foto: Rogério Tomaz Jr.

 

Outros poemas de Gelman aqui no blog:

Poema XXXIII de Juan Gelman

Oração de Juan Gelman

poema xxi de Juan Gelman

Viagens de Juan Gelman


Responses

  1. Rogério, que lindo!!!! Um encanto!
    Ana Flávia

  2. belissima a poesia … queria compartilhar um pouco desta tua alegria e emoçao, diz , como foi ??? espero mto gratificante nn? bjs

  3. Que maravailha, Rogério! Santa insistência, hehe…
    Xêro.

  4. Poxa amigo… olhos marejados…
    Obrigada por fazer a minha manhã mais “coração”. =)


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