Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 17/04/2012

Acuado, jornalismo bandido da Veja dá sinais de desespero

Ninguém pode prever o que resultará da CPI do Cachoeira.

Tampouco é possível afirmar, categoricamente, sob a ótica jurídico-penal, que a Veja é sócia do esquema criminoso do bicheiro.

Demóstenes é praticamente réu confesso, mas sob a Veja há apenas indícios – fortes indícios, entretanto – que indicam não apenas que a revista se beneficiou de práticas criminosas de Carlinhos Cachoeira para fazer “jornalismo”, mas, sobretudo, e isso é o mais grave, que o fazia com viés inequivocamente político e com o objetivo de atentar contra a administração pública.

A CPI vai esclarecer tudo. Ou não.

O fato é que o jornalismo bandido -ou “jornalismo canalha”, termo que dá título ao livro de José Arbex Jr. de 2003 – da Veja está acuado.

Em 2003, José Arbex Jr. já dissecava o jornalismo canalha da Veja

A capa desta semana é mais um primor da revista da família Civita.

Ao acusar a iminente CPI de ser uma cortina de fumaça para influenciar o julgamento do chamado “mensalão”, a Veja não está “acusando o golpe”. Em verdade vos digo, a capa é a reação de quem já está cuspindo sangue, dentes e otras cositas más

A Veja após o anúncio da CPI do Cachoeira

A “reportagem” que valeu a capa é patética. Ou sórdida, diria o menino narrador do aclamado “Festa no covil”, do mexicano Juan Pablo Villalobos.

A “matéria” encerra sugerindo que um bom objeto para uma CPI seria investigar os blogs que a turma de Serra chama de “sujos” e que Veja chama de “achacadores” da Internet.

Atacado abaixo da cintura pela revista, o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), respondeu com um direto no fígado, um cruzado no cara e um uppercut no queixo da revista.

Em contundente nota, o petista questiona diretamente: “Por que a Veja é contra a CPMI do Cachoeira?”.

Maia partiu pra cima de Veja como quem corre atrás do trombadinha que tentou assaltar sua carteira: “posso assegurar que haverá, sim, investigações sobre as graves denúncias de que o contraventor Carlinhos Cachoeira abastecia jornalistas e veículos de imprensa com informações obtidas a partir de um esquema clandestino de arapongagem”.

O golpe de misericórdia vem logo em seguida: “vale lembrar que, há pouco tempo, um importante jornal inglês foi obrigado a fechar as portas por denúncias menos graves do que estas. Isto sem falar na defesa que a matéria da Veja faz da cartilha fascista de que os fins justificam os meios ao defender o uso de meios espúrios para alcançar seus objetivos”, diz a nota de Maia.

Sobre a reportagem em si, quem explica melhor o significado dela é o Luís Carlos Azenha. Para Veja, investigar o esquema Cachoeira seria um atentado à liberdade de expressão. Segue a excelente análise do Azenha.

*****

http://www.viomundo.com.br/humor/investigar-cachoeira-um-atentado-a-liberdade-de-expressao.html

Investigar Cachoeira, uma ameaça à liberdade de expressão

por Luiz Carlos Azenha

Por dever de ofício, li o texto de capa de revista que tenta provar que investigar os crimes do Carlinhos Cachoeira, no Congresso, é um atentado à liberdade de expressão.

O que chamou minha atenção foi a frase abaixo, que interpretei como defesa do uso de fontes-bandidas:

Qualquer repórter iniciante sabe que maus cidadãos podem ser portadores de boas informações. As chances de um repórter obter informações verdadeiras sobre um ato de corrupção com quem participou dele são muito maiores do que com quem nunca esteve envolvido. A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Isso é básico. Disso sabem os promotores que, valendo-se do mecanismo da delação premiada, obtêm informações valiosas de um criminoso, oferecendo-lhe em troca recompensas como o abrandamento da pena.

Registre-se, inicialmente, a tentativa dos autores de usar os promotores de Justiça como escada. Tentam sugerir ao leitor que o esforço da revista, ao dar espaço em suas páginas a fontes-bandidas, equivale ao dos promotores de Justiça.

Sonegam que existe uma diferença brutal: os promotores de Justiça usam a delação premiada para combater o crime. Os criminosos que optam pela delação premiada têm as penas reduzidas, mas não são perdoados. E a ação ajuda a combater um mal maior. Um resultado que pode ser quantificado. O peixe pequeno entregou o peixe grande. Ambos serão punidos.

O mesmo não se pode dizer da relação de um jornalista com uma fonte-bandida. Se um jornalista sabe que sua fonte é bandida, divulgar informações obtidas dela não significa, necessariamente, que algum crime maior será evitado. Parece-me justamente o contrário.

O raciocínio que qualquer jornalista faria, ao divulgar informações obtidas de uma fonte que ele sabe ser bandida, é: será que não estou ajudando este sujeito a aumentar seu poder, a ser um bandido ainda maior, a corromper muito mais?

Leiam de novo esta frase: As chances de um repórter obter informações verdadeiras sobre um ato de corrupção com quem participou dele são muito maiores do que com quem nunca esteve envolvido.

Não necessariamente. Ele não tem qualquer garantia de que as informações são verdadeiras se vieram de um corrupto. Que lógica é esta?

O policial que não estava lá mas gravou a conversa que se deu durante um ato de corrupção provavelmente vai fornecer uma versão muito mais honesta sobre a conversa do que os corruptos envolvidos nela.

O repórter que lida com alguém envolvido em um ato de corrupção sabe, antecipadamente e sem qualquer dúvida, que a informação passada por alguém que cometeu um ato de corrupção atende aos interesses de quem cometeu o ato de corrupção. Isso, sim, é claro, não que as informações sejam necessariamente verdadeiras.

O repórter sabe também que, se os leitores souberem que a informação vem de alguém que cometeu um ato de corrupção, imediatamente perde parte de sua credibilidade. Não é por acaso que Carlinhos Cachoeira, o bicheiro, se transformou em “empresário do ramo de jogos”.

É por saber que ele era um “mau cidadão” que a revista escondeu de seus leitores que usava informações vindas dele. Era uma fonte inconfessável.

Não foi por acaso que Rubnei Quicoli, o ex-presidiário, foi apresentado como “empresário” pela mídia corporativa quando atendia a determinados interesses políticos em plena campanha eleitoral. A mídia corporativa pode torturar a lógica, mas jamais vai confessar que atende a determinados interesses políticos.

Carlinhos Cachoeira não é, convenhamos, nenhum desconhecido no submundo do crime. Vamos admitir que um repórter seja usado por ele uma vez. Mas o que dizer de um repórter usado durante dez anos, por uma fonte que ele sabe ser bandida?

Sim, porque o texto, sem querer, é também uma confissão de culpa: admite que a revista se baseou em informações de um “mau cidadão”. Ora, se a revista sabia tratar-se de um “mau cidadão” e se acreditava envolvida em uma cruzada moral para “limpar a sociedade” de “maus cidadãos”, não teria a obrigação de denunciá-lo?

Concordo que jornalistas não têm obrigação de dar atestado de bons antecedentes a todas as suas fontes.

Mas onde fica a minha obrigação de transparência com meus leitores se divulgo seguidamente informações que sei serem provenientes de um “mau cidadão”? Qual é o limite para que eu seja considerado parceiro ou facilitador do “mau cidadão”?

Se imperar, a lógica da revista será muito conveniente para aqueles policiais presos por associação ao crime.

Tudo o que terão de dizer, diante do juiz: “Ajudei a quadrilha de assaltantes de bancos, sim, doutor, matando e prendendo os inimigos deles. Mas foi para evitar um mal maior, meritíssimo: uma quadrilha que era muito mais bandida”.

À CPI, pois.


Responses

  1. Republicou isso em Florencio1's Blog.


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