Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 28/03/2012

Sonho de criança realizado (e/ou “Minha paixão pela Iuguslávia”)

27/03/2012 – Finalmente

8h10. Antes do despertador, o interfone toca. Seu Martins, o porteiro, avisa:

– Chegou uma encomenda pra ti. Pega aqui quando descer.

Grogue das curtas cinco horas de sono e do sonho interrompido, nem consegui imaginar do que se tratava.

Quando peguei o pacote e senti que era uma roupa, lembrei da compra feita, via Internet, mais de dois meses antes. Nem esperava mais receber.

Junto com a alegria que veio tão instantaneamente quanto o sorriso que dominava o rosto, voltei no tempo vinte e seis anos.

19/07/1986 – Não um julho qualquer

De férias escolares, passei praticamente o mês inteiro me revezando entre a sala da TV, o jardim de casa e a rua.

Toda tarde passava pelo menos uma partida do Campeonato Mundial de Basquete masculino, que acontecia na Espanha.

Em São Luís (MA), quando não estava diante da TV vendo os jogos narrados pelo Luciano do Valle, eu brincava com uma bola de tênis e uma cesta improvisada no gramado do jardim. Ou, quando os garotos mais velhos não estavam jogando, eu suava dando arremessos no aro improvisado em um poste da rua das Jaqueiras.

Eu tinha dez anos e exatamente naqueles dias nasceram em mim duas paixões: pelo basquete e pela Iuguslávia.

Na disputa da medalha de bronze*, num 19 de julho, o Brasil de Oscar Schmidt era massacrado (91 x 117) pelo timaço iugoslavo que mesclava alguns veteranos e jovens candidatos a astros do esporte de quadra mais popular do planeta.

Apesar da tristeza pela derrota do vibrante time comandado pelo Mão Santa, me chamou a atenção um ala-armador adversário de nome estranho, que eu já tinha visto um pouco em outras partidas durante o torneio: Drazen Petrovic.

Fiquei impressionado com o seu arremesso certeiro, especialmente da linha de 3 pontos, e com suas infiltrações com fintas curtas e rápidas no meio da nossa defesa, que lembravam o endiabrado Maradona assombrando o mundo poucas semanas antes, na Copa do Mundo de futebol.

Confira abaixo o vídeo com os 23 pontos de Petrovic contra o Brasil**.

Petrovic (1986) – Yugoslavia 117 x 91 Brasil

Petrovic contra o Brasil em 1986

Já devidamente dominado pelo vício da bola laranja, passei a jogar com frequência nas quadras de rua – no bairro Monte Castelo, no muro da casa da minha avó em São Luís, jogava contra meu tio e seus amigos, em média oito a dez anos mais velhos e pelo menos quinze centímetros e vinte quilos a mais do que eu naquela época.

Já era colecionador da Placar, revista que me fez escolher o ofício do Jornalismo, e buscava acompanhar tudo sobre o basquete internacional e, com maior dificuldade, sobre a “liga profissional dos Estados Unidos”, que era como chamávamos a NBA naqueles tempos em que sequer era transmitida na TV brasileira.

Iugoslávia

A intensa admiração pelo talentoso e “artístico” basquete da Iuguslávia se ampliou para o futebol e a curiosidade por aprender sobre aquele país me fazia pesquisar todas as enciclopédias existentes.

É impressionante como um país tão pequeno – em 1990 tinha pouco mais de 20 milhões de habitantes – podia extrair tanto talento, especialmente nos esportes coletivos. A Iugoslávia era tão forte no basquete que, após ser dividida em seis países, quatro destes possuem seleções muito competitivas.

A Croácia foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, e bronze no mundial de 1994. E a Iugoslávia (já sem Croácia, Eslovênia, Macedônia e Bósnia) conquistou a prata nos Jogos de Atlanta, em 1996, além de ter sido campeã mundial em 1998 e 2002.

Quando começava minha “vida competitiva” no basquete, fiquei bastante triste com a derrota da Iugoslávia para a União Soviética, na final olímpica de 1988. Em compensação, vibrei muito com o título mundial de 1990, sobre a mesma URSS.

Naquele mundial, Petrovic fez impressionantes 31 pontos na vitória sobre a forte equipe*** universitária que os EUA enviaram para a Argentina. Parecia uma “vingança” contra o país que o fizera amargar seus piores momentos da carreira, quando jogou apenas 12 minutos por jogo, em média, na temporada de 1989-1990, pelo Portland Trailblazers.

No folgado trinfo (92 x 75) sobre os soviéticos na final, o número 4 iugoslavo precisou fazer apenas 18 pontos.

07/06/1993 – A despedida

Três dias antes do meu aniversário de 17 anos, o maior jogador de basquete europeu de todos os tempos, já um astro da NBA****, era vítima de acidente de carro fatal, numa rodovia na Alemanha.

A 7 de junho de 1993, Drazen Petrovic estava a quatro meses e meio de completar 29 anos.

Dormia no carro conduzido por sua namorada*****, que colidiu com um caminhão que atravessara a pista no sentido contrário.

A notícia saiu em algum telejornal noturno daquela segunda-feira e assisti em casa, recém-chegado do meu treino pelo time juvenil da AABB.

No âmbito esportivo, foi uma das perdas que mais me entristeceu e até hoje me emociono ao lembrar.

Um dos melhores arremessadores da história do basquete

Naqueles tempos, eu já era grande fã de Toni Kukoc, que jogaria várias ótimas temporadas no meu Chicago Bulls, e de Dejan Bodiroga, muito provavelmente o melhor jogador que jamais jogou na NBA. Curiosamente, Bodiroga era primo de segundo grau de Drazen.

Só hoje, 26 anos depois de conhecê-lo e 19 anos após sua passagem, consegui ter uma camisa dele, do último clube em que atuou, o New Jersey Nets.

Feliz coincidência é receber essa camisa justamente apenas três dias depois de conhecer pela primeira vez uma pessoa nascida na Croácia.

Agora faltam as camisetas #4 da Iugoslávia e da Croácia. Quiçá não demorem tanto a entrar na coleção, embora a dificuldade de encontrá-las, certamente, será bem maior.

Quem sabe indo visitar Zagreb isso fique mais fácil.

Fotos: Salu Parente

PS: Quem quiser saber mais sobre Petrovic e sobre o basquete da Iugoslávia, destruído pela guerra, uma ótima opção é o excelente e emotivo documentário “Once brothers”, da ESPN, que pode ser facilmente encontrado no Youtube, embora ainda não disponível com legendas em português. O filme relata a forte amizade entre Drazen e o pivô sérvio Vlade Divac, que foi rompida por um episódio menor e jamais retomada. Isso no contexto de uma equipe de basquete – a seleção da Iugoslávia –  que jogava por música e que poderia fazer frente ao célebre Dream Team de 1992, se a guerra não tivesse acontecido.

*Na semifinal, a Iugoslávia perdeu na prorrogação para a União Soviética, após estar vencendo por nove pontos de diferença quando faltava menos de um minuto para o fim da partida. O então inexperiente Vlade Divac cometera um erro bobo nos segundos derradeiros e permitiu o ataque que garantiu o empate soviético. O vídeo dessa recuperação histórica está disponível aqui.

**Outra grande atuação de Petrovic contra o Brasil viria no Mundial de 1990, quando anotou 27 pontos na (novamente) fácil vitória por 105 x 86.

***O Team USA de 1990 tinha futuras estrelas da NBA: Alonzo Mourning, Kenny Anderson, Billy Owens, Christian Laettner e Chris Gatling.

****Na temporada 1992-1993, Petrovic teve 22,3 pontos de média por partida na NBA (#12 na lista de cestinhas da liga), sendo o 3º melhor nos arremessos de 3 pontos, com 44,9% de acerto (categoria na qual ele liderou a liga no anterior, com 44% de acerto), desempenho que lhe valeu um lugar na terceira seleção do campeonato, ficando atrás apenas de Michael Jordan (Chicago Bulls) e Joe Dumars (Detroit Pistons) em sua posição.

*****A última namorada de Drazen Petrovic, Klara Szalantzy, mais tarde se casou com o famoso jogador de futebol Oliver Bierhoff.

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Responses

  1. Muito belo … Emocionante, pq repassou tudo na minha mente de quando eras criança , os treinos na aabb, q chegava tarde e comia aquela farofa de ovo, lembras ?? rsrsr qdo engessaste a perna …ehehehh belos tempos se passaram … vou la’ na Croacia pegar uma camiseta, qual é q tu queres ??

  2. Vixe, passou um longa metragem na minha cabeça. Também acompanhei tudo isso e colecionava a Placar : )

  3. Parabéns por mais essa conquista para sua coleção.
    Assisti ao documentário da ESPN e é excelente, emocionante.
    Lembro que nas tuas mais de 100 falecidas fitas VHS, que guardei numa caixa, zanzando de um lado para o outro, até Cybelle jogar tudo fora, tinha jogos do camp. mundial de 90 na Argentina.


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