Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 08/03/2012

Crônica de uma noite tangera em La Boca

Crônica de uma noite tangera em La Boca

Com uma respeitável série de trinta e seis pelejas sem entrar na taca, a maior parte da torcida do Boca Juniors provavelmente nem lembrava que sua última derrota acontecera em 10 de abril de 2011, para o Lanús, pelo campeonato nacional.

Na presente temporada, o goleiro Orión não havia sofrido um golzinho mirrado sequer.

Muitos jornalistas argentinos se renderam às estatísticas e compraram apólices de terrenos na lua. Vários creditaram – talvez saudosos do esquadrão da década passada – à atual equipe xeneize um poderio que esta nem de longe possui.

Estou viajando pela Argentina há mais de três semanas e acompanhando de perto o futebol local. Neste período fui três vezes ao estádio – inclusive Unión 0x0 Boca, em Santa Fé – e, com a vantagem de não estar envolvido pela paixão das discussões, percebi que o campeonato argentino está nivelado por baixo. Muito baixo. Chega perto do pré-sal.

O Boca se sobressai no meio do LUMPEMPROLETARIADO boleiro por ter uma equipe menos ruim do que a maioria dos times PICA PIEDRAS, como se chamam aqui os pernas-de-pau. Idem para o Velez Sarsfield, que tem jogado bem melhor do que o clube de La Boca, vale dizer.

O sentimento da torcida tricolor durante toda a partida desta quarta 7 de março em La Bombonera foi bem similar àquele experimentado nos minutos finais contra o São Paulo pelas quartas-de-final da Libertadores de 2008. A vitória ontem parecia tão certa como o gol de Washington que finalmente veio aos 47 do segundo tempo.

Numa noite em que a zaga boquense NEM viu por onde o arisco Wellington passava feito um trem expresso por estações vazias e na qual a dupla Digão e Diguinho atuou muito afinada naquilo que lhe cabe fazer, tirar a pelota dos adversários, Deco e Fred fizeram a torcida da casa sentir saudades de Riquelme e Palermo.

Houve quem dissesse que o 10 azul y oro estava no show que Roger Waters fazia ao mesmo tempo no estádio do River Plate, e que na cancha da rua Brandsen figurava apenas um sósia com bons dotes teatrais.

Sósia de Riquelme em campo (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Thiago Neves suou as canelas, mas ficou devendo. Assim como o bom lateral Bruno. El perezoso Carlinhos quase armava uma rede para cochilar no primeiro tempo, mas noticia-se que Abelão aplicou o desfribilador no seu alero esquerdo e na metade final o dito cujo não só acordou como ganhou vivos aplausos dos quatro mil espremidos tricolores.

Do colombiano Valencia, diz-se que voltou correndo do estádio para o hotel, para manter a forma. No caminho de quatro quilômetros, ainda deu uns quatro carrinhos e completou meia dúzia de desarmes.

É público e notório que A ÚNICA MÚSICA de Michel Teló e as cumbias mais agitadas são o que mais se ouve por La Boca, mas este Dia Internacional da Mulher deve ter iniciado ao som docemente melancólico dos tangos de Gardel, Corsini e Magaldi.

Como manda os bons costumes, o freguês escolhe o tema.

Deco ensaiando o tango (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

– A única vez que o Boca ganhou do Fluminense a minha mãe nem era nascida ainda — lembrou um tricolor na saída do estádio, pouco importa se foram apenas quatro duelos até hoje.

Para resumir o feito, recorro ao sãopaulino Rica Perrone, que chegou perto de encarnar o mestre Nélson Rodrigues com essa, alguns anos atrás:

“Se futebol é paixão, ninguém mexe mais com isso em seu torcedor do que o Fluminense. Ele não ganha, não perde, nem empata. Ele faz história”.

Na temporada em que chegarei às trinta e seis voltas do relógio anual, decreto que, pelos próximos nove meses, só admito discutir futebol com torcedores do Paysandu de Belém ou de outro time brasileiro que vença o Boca na La Bombonera.

A fraude

Confesso que eu mesmo caí na fábula da “torcida do Boca” que é isso, aquilo… que não para de pular e cantar etc e tal.

De fato, os quatro mil malucos da La 12 pulam e cantam três ou quatro temas – com não mais do que três frases – o jogo todo. O juiz apita o final e eles nem devem saber o resultado da partida. Continuam pulando e cantando como antes da pelada começar.

Torcida do Boca: como o próprio time atual, tem fama maior do que a merecida (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Os outros 32 mil torcedores de azul e amarelo são praticamente as cadeiras brancas do saudoso Maracanã, mais freqüentadas pelos aposentados e aficionados que só têm disposição para pular as sete ondinhas na virada de ano.

Ou seja, a torcida do Boca Juniors é não apenas tão comum quanto qualquer outra organizada dos clubes brasileiros, mas é também menos criativa. Propaganda bem feita e galvanobuenices dá nisso. Fraude pura!

Usain Bolt

Para a noite ficar completa, me faltava apenas confirmar a fama de violenta da hinchada do Boca, que levou a polícia argentina a realizar uma megaoperação de escolta aos ônibus e vans tricolores na chegada e na saída do bairro de La Boca.

– Quando chegarmos perto do estádio, fechem os vidros, as cortinas e preparem-se para pedradas — avisou o motorista Diego, torcedor do Argentinos Jrs e roqueiro apaixonado pelo carnaval da Bahia.

Na vizinhança supostamente hostil, nenhum incidente. A experiência sociológica só viria a ocorrer bem depois do final do jogo, enquanto caminhava a procurar, com dois amigos, um boteco para lavar a garganta com algumas Quilmes nas redondezas do Obelisco, quando já passava da uma da madrugada.

A carreira que levei de três barras muy brabos do Boca despertou o espírito de um Usain Bolt do sertão neste ex-atleta de basquete. Senhoritas e senhoritos, depois de tentar – pacifista incorrigível que sou – dialogar com os jovens raivosos, nunca corri tão rápido em toda a minha vida. Até o jamaicano poser comeria poeira.

– Correu mais do que o Carlinhos hoje! — anotou um amigo tricolor enquanto garfávamos um bife de chorizo no bar Bernardo amplamente dominado pelas cores verde, grená e branco.

O episódio serviu para comprovar, com gosto amargo, a irracionalidade que domina este que já foi chamado de ópio do povo, mas, por vezes, serve para extravasar a ira do capeta.

Depois do susto, a constatação: o Boca perdeu na bola e na corrida.

Rogério Tomaz Jr.
Sem voz e sem sono

PS: Mais fotos do jogo estão aqui:

http://www.flickr.com/photos/rogeriotomazjr/

Testemunha ocular (Foto: Paulo Marcelo de Carvalho)

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Responses

  1. É, eu tbm tentaria o diálogo, mas confiando na velocidade das pernas adrenalizadas pelo pânico rs.
    Bela história, de fato uma experiência única.

    • Não foi fácil, mas nem o Usain Bolt me alcançaria ontem… rsrs

  2. em la bombonera o flu comeu os bombons e ainda jogou o papel no chão, parabens amigo pelo privilegio de ter vivido, ao vivo, tamanha alegria

  3. Comprovo td acima relatado, inclusive a respeito da corrida pq este quem vos fala foi o primeiro a correr huahuahuahuahua

    Mas cara, conseguiu sintetizar bem a magia dessa noite “interminável”.

    Parabéns!! Ficou fera seu texto!


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