Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 05/03/2012

Reflexões de um brasileiro que deseja morar na Argentina

Ainda que eu ame demais o meu Brasil, bem como a cidade onde vivo hoje, tanto quanto a minha Fortaleza onde nasci e a minha São Luís onde cresci, é inevitável dizer que o desejo de morar algumas temporadas na Argentina – não necessariamente em Buenos Aires – é algo que se consolidou o suficiente para, definitivamente, se tornar uma prioridade para o horizonte dos próximos cinco anos.

Os motivos são inúmeros.

A proximidade com os vizinhos sulamericanos – Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e Peru – é um dos principais.

Percorrer e conhecer estes países, com tantas afinidades, embora tantas especificidades e peculiaridades próprias, é uma possibilidade que me instiga bastante.

Assim como o Brasil, a Argentina é um país culturalmente riquíssimo e repleto de contradições políticas e sociais que não podem ser resumidas ou compreendidas em meia dúzia de linhas.

A disparidade entre o conurbano bonaerense e o vasto e diverso interior – da Patagônia aos desertos do norte, passando pelos pampas e margeado pela cordilheira andina – é, à primeira vista, algo semelhante ao que existe no Brasil entre o Norte/Nordeste e o centro sul. Só à primeira vista.

Os históricos políticos e os contextos socioculturais não são clivados [apenas] pela dimensão econômica.

O “corte da carne social” na terra de Cortázar é um pouco mais complexo do que no nosso território tupiniquim, tanto quanto “Rayuela” é mais complexo do que “Grande sertão: veredas” ou do que “Macunaíma”.

Complexidade, ressalto, não guarda qualquer relação com juízo de valor, seja na vida social, seja na literatura ou na arte em geral. Vale dizer que poucas coisas são tão geniais na poesia – de qualquer canto do planeta – quanto os versos da lavra do semi-analfabeto Patativa do Assaré.

Falo em complexidade (social) apenas para denotar uma diferença muito forte entre duas nações e duas sociedades que se encontram tão próximas geograficamente, mas, na realidade histórica e cotidiana, são tão distantes e se conhecem tão pouco como é o caso de Brasil e Argentina.

E um outro motivo que me faz desejar – e ter a certeza que virei – morar na Argentina é justamente descobrir porque, em geral, eles nos conhecem (e desejam nos conhecer) bem mais do que o oposto.

Eu já havia percebido isso em julho de 2011, quando estive pela primeira vez em Buenos Aires. Agora, depois de percorrer mais de quatro mil quilômetros, permanecer em meia dúzia de cidades interioranas, de distintos tamanhos e características sociais e culturais, confirmei esta impressão e comecei a reunir elementos para formular algumas reflexões para aplacar esta inquietude que me aflige.

Escrevo estas linhas confidentes-filosóficas num restaurante-café em Palermo, que “desperdiça” uma generosa parte do seu espaço – que poderia ser ocupado por mais mesas – para expor uma camioneta Ford de 1929, com carroceria de madeira restaurada, em estado de fazer inveja a qualquer colecionador.

Orgulho argentino no El Timon

Orgulho argentino exibido pelo El Timon

Longe de ser um lugar chique, o “El Timon” escancara na porta as inúmeras promoções do para atrair clientes, indicador de que a crise também passou por aqui.

Mas o orgulho que faz os donos exibirem a relíquia automotiva permanece elevado.

E esse – o orgulho argentino – é outra causa que me fará vir morar nesta terra.

Em tempo: o simpático El Timon fica no tradicional bairro Palermo, na esquina da Dorrego com a Cabrera, a duas quadras da Plaza Mafalda.


Responses

  1. Acho maravilhoso você querer mudar de país para aprender a viver com outros olhos, a sentir com outros ouvidos e a olhar sobre novas perspectivas. Na verdade eu já desconfiava que você se apaixonaria no meio do caminho. Hehehe. Era só questão de tempo, Roger.

  2. Hay que tener en cuenta que todo este desplegue cultural, no sólo en la literatura, sino también en la pintura, la escultura, el cine, se desarrolló pese a la consigna del gobierno de turno: “Alpargatas sí, libros no”. Y no sabemos si la querrán imponer nuevamente.

    • Muchas gracias por el comentario, professor Kaplan. Lo recibo con mucha honra!


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