Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 05/02/2012

Famatina: o Belo Monte da Argentina (e o péssimo exemplo para o Brasil)

Embora viva grave crise econômica desde os anos 1990, quando o presidente neoliberal Carlos Menem aplicava a política de “relações carnais” com os EUA, o povo da Argentina não cansa de dar exemplos da sua disposição para desafiar as regras não escritas dos (que se julgam) donos do planeta.

A luta de resistência da vez tem o seu epicentro em Famatina, minúscula localidade com 6 mil habitantes na região norte, já em terras andinas.

A empresa de mineração canadense Osisko deseja implantar um projeto de exploração mineral na região de Famatina. Os canadenses não contavam, entretanto, com a resistência da população local, tão elevada quanto a altitude de 5.500 metros na qual se situa a pequena Famatina.

Os protestos da cidade – apoiados pelo prefeito, mas combatidos pelo governador da província de La Rioja, que se elegeu com uma plataforma de campanha antimineração – ecoaram por toda a Argentina e mobilizaram políticos, ativistas, ONGs ambientais e de direitos humanos, artistas, jornalistas e comunicadores independentes da oligarquia midiática conservadora ligada aos grupos Clarín e La Nación, principais jornais do País.

E o apoio à causa atravessou as fronteiras argentinas. Dias atrás, o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu pequeno texto – no jornal Página 12 – saudando os moradores de Famatina, “que não se deixam enganar com esses contos das sanguessugas modernas, que te prometem boa saúde enquanto te acompanham ao cemitério”.

O objetivo principal da luta é conseguir do governo federal a proibição da mineração a céu aberto, modalidade pretendida em Famatina, que é uma das atividades mais poluentes do mundo industrial.

Entre as ações dos moradores e apoiadores de Famatina, foi feito um bloqueio da estrada (foto abaixo) que leva à região escolhida para abrigar o projeto da Osisko.

"Em Famatina não se toca!" é um dos slogans do movimento que já tem adeptos em toda a Argentina

O bloqueio, somado a outros fatos, como a descoberta de uma “lista negra” preparada pela empresa elencando líderes da resistência, fez a companhia “atualizar” o status do projeto.

Em comunicado divulgado no seu próprio site, no dia 30 de janeiro, a Osisko diz que “não há nenhum plano, projeto ou intenção para quaisquer operações mineiras” no “Projeto Famatina”, que está no seu “estágio organizacional” e que “o desenvolvimento de uma mina é ainda altamente hipotético, já que muito pouco é sabido a respeito da quantidade, qualidade e localização dos recursos minerais que podem existir nas propriedades”.

O comunicado foi recebido pelo movimento como um recuo e o otimismo quanto à desistência do projeto é grande, especialmente quando se leva em conta a derrota imposta a outra companhia mineira do Canadá, a Barrick Gold (oitava maior do setor no mundo), que teve suas pretensões rejeitadas pela população de Famatina em 2007.

Como diz um slogan transformado em música criada por artistas apoiadores do movimento, em Famatina “a água vale mais do que o ouro”.

Pelos filhos dos seus filhos...

No Brasil, pouco se comenta desse caso. Deve ser porque seria um péssimo exemplo para os defensores de Belo Monte.

“Imagina o absurdo! Num país em crise, um povoado de 6 mil habitantes rejeitando um projeto de centenas de milhões de dólares em nome do meio ambiente!”, deverão pensar os “desenvolvimentistas” de Belo Monte se/quando souberem da resistência em Famatina.

No silêncio retumbante da mídia brasileira sobre o caso, há uma exceção que confirma a regra. O jornalista Ricardo Noblat publicou em seu blog, no último dia 31, um artigo da jornalista Gisele Teixeira, brasileira que vive em Buenos Aires e edita um blog bem interessante.

Mineração e papeleras – Na Argentina, os setores de mineração e de produção de celulose, que cresceram imensamente na última década, são os principais alvos do movimento ambientalista.

Lá, a resistência ao avanço dessas indústrias, tal qual se faz no Brasil com a resistência à expansão desenfreada das barragens, é desqualificada de várias formas: são ONGs vendidas aos europeus que querem barrar o desenvolvimento nacional; são ecochatos que, se pudessem, não teriam permitido a invenção do motor a vapor; são oposição ao governo, entre outros argumentos covardes e cômodos que não aceitam discutir o modelo socioeconõmico vigente. Tudo em nome do “desenvolvimento”.

No Brasil, tivemos poucos casos semelhantes. Um deles foi protagonizado pelo Movimento Reage São Luís, que impediu – com argumentos políticos, ambientais, sociais, econômicos e jurídicos – um consórcio liderado pela Vale de instalar na capital maranhense o maior polo siderúrgico do mundo. Além da Vale, faziam parte do consórcio a sulcoreana Posco, a chinesa Baosteel, a alemã Thyssen-Krupp e a francesa Arcelor, todas gigantes do mundo do aço situadas entre as maiores do setor em escala global. O pequeno Reage São Luís era formado por militantes e entidades de diversas áreas e partidos políticos, tendo à frente o advogado e atual Relator Nacional para o Direito Humano ao Meio Ambiente, Guilherme Zagallo, da Plataforma DHESCA Brasil.

Veja dois excelentes vídeos sobre a resistência de Famatina. O segundo é feito em cima da épica canção “Latinoamerica”, da banda porto-riquenha Calle 13 (“Rua 13”), um verdadeiro hino da América Latina que chega a citar até Maradona: “Soy Maradona contra Inglaterra / anotándote dos goles”…

¡BASTA YA! Minería metalífera a cielo abierto y de radiactivos

El agua vale más que el oro

PS: Em meados de fevereiro irei a Famatina conhecer pessoalmente a luta contra a mineração.

“Latinoamerica”

(Calle 13)

Soy… soy lo que dejaron
Soy toda la sobra de lo que te robaron
Un pueblo escondido en la cima
Mi piel es de cuero, por eso aguanta cualquier clima

Soy una fábrica de humo
Mano de obra campesina para tu consumo
Frente de frío en el medio del verano
El amor en los tiempos del cólera, ¡mi hermano!

Si el sol que nace y el día que muere
Con los mejores atardeceres
Soy el desarrollo en carne viva
Un discurso político sin saliva

Las caras más bonitas que he conocido
Soy la fotografía de un desaparecido
La sangre dentro de tus venas
Soy un pedazo de tierra que vale la pena

Una canasta con frijoles,
Soy Maradona contra Inglaterra
Anotándote dos goles
Soy lo que sostiene mi bandera
La espina dorsal del planeta, es mi cordillera

Soy lo que me enseñó mi padre
El que no quiere a su patría, no quiere a su madre
Soy América Latina,
Un pueblo sin piernas, pero que camina

Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor

Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor

Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Tengo los lagos, tengo los ríos
Tengo mis dientes pa’ cuando me sonrio
La nieve que maquilla mis montañas
Tengo el sol que me saca y la lluvia que me baña

Un desierto embriagado con peyote
Un trago de pulque para cantar con los coyotes
Todo lo que necesito,
Tengo a mis pulmones respirando azul clarito
La altura que sofoca,
Soy las muelas de mi boca, mascando coca

El otoño con sus hojas desmayadas
Los versos escritos bajo la noches estrellada
Una viña repleta de uvas
Un cañaveral bajo el sol en Cuba

Soy el mar Caribe que vigila las casitas
Haciendo rituales de agua bendita
El viento que peina mi cabellos
Soy, todos los santos que cuelgan de mi cuello
El jugo de mi lucha no es artificial
Porque el abono de mi tierra es natural

Tú no puedes comprar el viento
Tú no puedes comprar el sol
Tú no puedes comprar la lluvia
Tú no puedes comprar el calor

Tú no puedes comprar las nubes
Tú no puedes comprar los colores
Tú no puedes comprar mi alegría
Tú no puedes comprar mis dolores

Não se pode comprar o vento
Não se pode comprar o sol
Não se pode comprar a chuva
Não se pode comprar o calor
Não se pode comprar as nuvens
Não se pode comprar as cores
Não se pode comprar minha alegria
Não se pode comprar as minhas dores

No puedes comprar el sol…
No puedes comprar la lluvia
(Vamos caminando) No riso e no amor
(Vamos caminando) No pranto e na dor
(Vamos dibujando el camino) El sol…
No puedes comprar mi vida
(Vamos caminando) LA TIERRA NO SE VENDE

Trabajo bruto, pero con orgullo
Aquí se comparte, lo mío es tuyo
Este pueblo no se ahoga con marullo
Y se derrumba yo lo reconstruyo

Tampoco pestañeo cuando te miro
Para que te recuerde de mi apellido
La operación Condor invadiendo mi nido
!Perdono pero nunca olvido!

Vamos camimando
Aquí se respira lucha
Vamos caminando
Yo canto porque se escucha
Vamos dibujando el camino
(Vozes de um só coração)
Vamos caminando
Aquí estamos de pie

¡Que viva la américa!

No puedes comprar mi vida…

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Responses

  1. parabéns pelo texto!

  2. Obrigada Rogerio!!

  3. […] luta anti-mineração de Famatina, o som dos quartetos de Córdoba, as bodegas vinícolas de Mendoza, a serenidade e a beleza do lago […]

  4. […] luta de Chilecito/Famatina mobiliza toda a Argentina – como já mostrei aqui – e inclui o combate à manipulação dos meios de […]

  5. […] “Camino libre”, inclusive com temas ligados à política nacional, como o caso de Famatina, que gerou a óima “El Fama no se toca”. Num próximo post coloco os links para […]

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