Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 30/01/2012

O carnaval racista de Salvador (e a reação crescente)

12 de fevereiro de 1975. Artigo do jornal A Tarde, de Salvador (BA), chamava o de “bloco racista” o recém-nascido Ilê Ayê, primeiro bloco negro a se apresentar no carnaval da capital baiana.

O diário mais tradicional da Bahia também dizia naquela nota (leia na íntegra ao final do post):

“Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro”.

Para o jornal, o Ilê, ao valorizar o “mundo negro”, com a música “Que bloco é esse?”, de Paulinho Camafeu (gravada pel’O Rappa duas décadas depois), proporcionara “um feio espetáculo” naquele carnaval. E denunciou que “os integrantes do ‘Ilê Aiyê’ – todos de cor – chegaram até a gozação dos brancos”.

Com a “evolução” do carnaval soteropolitano de uma democrática festa de rua para um negócio milionário, paralelamente à expansão do “Axé Music” para todo o Brasil, através do do sucesso das principais bandas e das micaretas, a economia cuidou de criar o apartheid entre os que podem e os que não podem pagar para ficar dentro da área isolada pelos cordeiros – os “seguranças”, todos negros, que garantem a festa “tranquila” da “gente diferenciada” da Bahia e do resto do País.

A foto abaixo ilustra bem o que é o apartheid carnavalesco na capital da Bahia de todos os santos e também dos não tão santos.

A boa notícia é que, nos últimos anos, a resistência – sempre presente nos bairros mais populares – do carnaval de rua, sem cordas e sem abadás, se transformou em reação e começa a ganhar força.

Em 2011 foi inaugurado, no boêmio bairro Rio Vermelho, o circuito Caramuru, livre de trios elétricos, cheio de bonecos gigantes e já chamado de “nossa Olinda baiana”.

Os idealizadores do Caramuru pretendem incluí-lo na programação oficial do carnaval de Salvador e, assim, diminuir a pecha negativa que os caríssimos blocos de axé emprestam à cidade mais negra e animada do Brasil.

Que ganhe força a empreitada da turma do Rio Vermelho e o carnaval baiano fique mais democrático e diversificado.

*****

Bloco racista, nota destoante*

(A Tarde, 12 de fevereiro de 1975)

Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: “Mundo Negro”, “Black Power”, “Negro para Você”, etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de “Bloco do Racismo”, proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. Além da imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do “Ilê Aiyê” – todos de cor – chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observavam do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do “Ilê” voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característica do Carnaval.

Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye.

*Uma cópia da matéria está emoldurada em destaque na sede do Ilê, no bairro Liberdade.

PS: Vou brincar esse ano o meu nono carnaval em Recife/Olinda e uma das fantasias será a roupa do Ilê Ayê.

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Responses

  1. Com essas últimas pesquisas sobre o perfil genético brasileiro confirma-se apenas o que, na verdade todos, com o mínimo de clareza, já sabíamos que, na verdade nesse país, não existem negros somos todos mestiços com 70 a 90% de genética européia.
    Não existe o tal dos “100%” negro que, idiotamente, via-se em algumas camisetas “engajadas” de 10 anos atrás.
    Somos mestiços com no mínimo 70% de genética européia.
    Se alguém quiser voltar com “as-tais-das-camisetas-engajadas”, vai ter que revisar o texto para no máximo “30% negro”! Sob pena do ridículo ou então, com todo respeito, vão pagar o maior “mico”!

    Perda de tempo tentar implantar a odiosa política racista entre nós. Quem tentar vai se isolar.
    A repugnante “forra”, que alguns consideram como um “luxo” de consumo que, futuramente, “os-negros-discriminados” poderiam exercer, não vai acontecer como racismo não! Poderá até vir nos assaltar um dia, mas como po-lí-ti-ca genocida, jamais como postura racial.
    FORA O ILÊ AIÊ E SEU RESSENTIDO NAZI-RACISMO INVERTIDO!!!!!!!!!

  2. Rogério, moro no Rio Vermelho desde que me entendo por gente e nunca ouvir falar nessa história de “Olinda Baiana”. Até mesmo o carnaval do Rio Vermelho é tímido frente a outras investidas de reconfiguração do carnaval de Salvador. Ou seja, a reação ao racismo e ocupação do espaço público por empresas privadas, não tem Olinda ou Recife lugar a ser alcançado, obviamente é uma boa referência, mas não é o tipo ideal, a começar pelo racismo, porque existem outros tipos de apartheids, sem cordas, mas com espaços bem determinados. A referência por aqui é repensar o trio elétrio popular, blocos afros, Pelourinho, brincadeiras… coisas que foram perdendo espaço por aqui.

    Segue um pequeno texto de geógrafo Climaco Dias que esta circulando na rede, representa melhor o espírito da coisa:

    “Vá ao carnaval de Salvador e transborde toda a sua alegria e indignação.

    Não se deve jogar a água suja do banho do bebê junto com o bebê.
    O Carnaval de Salvador não é uma festa de João Henrique, nem de qualquer gestor público.
    O Carnaval de Salvador é uma festa da sua população, sobretudo a sua parte mais pobre.
    O Carnaval de Salvador jamais foi uma festa desprovida de conflitos e todos os conflitos sempre foram disputados pela população nas ruas.
    Conflitos do Entrudo com a polícia da 2ª metade do séc. XIX até o início do sec. XX, conflitos do final do sec. XIX entre a polícia e os Batuques, conflitos da década de 1920/30 entre Polícia e Travestidos, conflitos da década de1960 entre Trio Elétrico e Escolas de Samba, conflitos na década de 1970/80 entre Índios e Polícia e os conflitos atuais entre o Carnaval Mercantil e o Carnaval Popular.
    Conflitos históricos ou atuais que sempre tiveram o classismo, racismo, sexismo como detonadores.
    Todos estes conflitos foram ou estão sendo disputados na Rua. Não se modifica uma festa com propostas de boicote.
    A minha bandeira é:

    Vá ao carnaval de Salvador e transborde toda a sua alegria e indignação.”

    abs
    pedro

    • Quem fala isso é o Gereba, Pedro.

      • Gereba é um conhecido forrozeiro. Não sei se ele entende muito de carnaval ou mesmo tem essa envergadura para o que falar virar um paradigma momesco. abs

      • O Gereba, junto com o Paulinho Boca e outros anônimos ou nem tanto, ajudou a criar o bloco Vai Quem Quer e o circuito Caramuru. E não sei se a opinião dele vai virar um paradigma, mas acho que vale o registro.

      • Não sei se você sabe, mas a proposta que envolveu Paulinho Boca e Gereba, de tornar o Rio Vermelho parte do circuito oficial, foi altamente rejeitada depois de audiência pública que envolveu moradores do bairro. No fim das contas queriam dinheiro das cervejarias e etc, e se tornarem “organizadores” do carnaval “popular”. Se por acaso o Rio Vermelho vier a se consolidar como espaço momesco (o que é pouco tangível), terá que ser de forma espontânea, sem rótulos pré fabricados.

      • Soube da audiência e espero que a rejeição seja contornada, bem como não sejam repetidos os “vícios” e contradições dos demais circuitos.

  3. Olinda baiana? Isso não existe, nunca existiu e não irá existir. Respeito muito Recife e Olinda, mas tanto lá como cá os espaços para o racismo durante o carnaval continuam a existir, camarada. Essa expressão é a coisa mais distante da realidade que já li sobre o carnaval de Salvador/Rio Vermelho. Uma pena mesmo.
    Ah! O seu título também é muito estranho. O racismo que existe no carnaval de Salvador não é o carnaval de Salvador. O carnaval é muito mais do que isso. Você classifica o todo por um érro do capital. Esse não é o meu carnaval. E olha que o meu carnaval é massa. Ao mesmo tempo que existe o racismo é também alí onde existe a maior valorização da cultura negra. O seu texto até explica isso, mas o seu título ofende a festa popular.

    • Verdade, Rodrigo, o carnaval de Salvador não é racista.

      • Rogério, racistas somos todos nós, as famílias, o Estado, o carnaval e etc…A questão é que seu título reduz o carnaval a opressão, quando também existe luta e resistência. Enfim, soou meio ofensivo, colocando como solução outro modelo de festa, como se o racismo fosse eliminado no “Eu Acho É Pouco” na rua dos Judeus.
        Abraços
        Pedro

      • Pedro, o texto está claro e o título, como todo título, sintetiza a ideia. Toda síntese é incompleta, insuficiente, redutora. Mas a ideia está desenvolvida no texto. Ofensivo é o racismo, não um título de cinco palavras.

  4. Um dos símbolos mais conhecidos da minha querida Bahia é o seu carnaval. Dentro do carnaval baiano – que é muito diversidicado e isso o autor poderia ter desenvolvido, mas talvez não o tenha feito por desconhecimento de causa – a maior expressão (tanto pra fora quanto pro povo baiano), goste-se ou não (é a realidade), são os circuitos comerciais. E esses, meus amigos, são a mais pura expressão do racismo – de perfil econômico, mas sobretudo social – que pode existir no nosso Brasil. O título é forte, mas é fiel. Não creio que o autor tenha desejado defender uma tese de doutorado, mas apenas dividir uma reflexão crítica com a qual partilho, embora, como disse, o carnaval de Salvador e da Bahia seja muuuito mais do que os trios elétricos das bandas e cantoras milionárias…


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