Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 07/01/2012

Hipóteses para um corpo de criança carbonizado numa reserva indígena no Maranhão

Um corpo carbonizado foi encontrado na reserva indígena Arariboia, em Arame, região central do Maranhão.

Um grupo de índios guajajara encontrou o corpo e identificou como sendo de um menino. Os mesmos índios avaliam que a criança tinha oito anos. E que deve pertencer à etnia awá-guajá, cujas tribos vivem isoladas do contato com os não índios.

Algumas hipóteses para o caso:

1. Não existe corpo. Tudo não passa de uma mentira dos índios e/ou das entidades que os apoiam e/ou de blogs sensacionalistas.

2. O corpo não está carbonizado. Foi exagero dos índios e/ou das entidades que os apoiam e/ou de blogs sensacionalistas.

3. O corpo não é de uma criança. Isso é invenção dos índios e/ou das entidades que os apoiam e/ou de blogs sensacionalistas.

4. O corpo sofreu combustão humana espontânea depois de a pessoa ter tido morte natural.

5. O corpo foi atingido por vários raios em sequência e pegou fogo depois de a pessoa ter tido morte natural.

6. O corpo – depois de a pessoa ter tido morte natural – estava abandonado numa área que sofreu uma queimada.

7. O corpo foi incendiado pelos índios depois de a pessoa ter tido morte natural.

8. A pessoa foi vítima de um ritual sagrado dos índios, que incendiaram o corpo como parte da oferenda às suas divindades.

9. A pessoa foi queimada pelos índios como castigo por alguma fraqueza ou deficiência (física ou mental) que ela possuía e que não poderia ser repassada aos seus descendentes.

10. A pessoa teve morte natural e o corpo foi incendiado pelos índios para economizar espaço, trabalho e tempo.

Um caso para Sherlock Holmes?

Desconfiar de assassinato por parte de madeireiros? Exagero. Irresponsabilidade. Preconceito contra a classe produtora responsável por 1/3 do PIB brasileiro.

Só porque são os próprios índios locais – os guajajara – que levantaram essa hipótese, baseada no histórico e no contexto atual da região?

Só porque jornalistas maranhenses que acompanham – e apoiam – as lutas dos movimentos sociais e convivem e dialogam diariamente com os povos indígenas, quilombolas, sem terra e outros grupos que têm os seus direitos negados e violados sistematicamente?

Só porque – segundo o CIMI – 60 índios foram assassinados no Brasil em 2010, numa média superior a um crime por semana?

Só porque – segundo a CNBB – 499 índios foram assassinados entre 2003 e 2010 em conflitos relacionados à posse da terra, envolvendo grileiros, madeireiros, latifundiários e afins, numa média anual de 62 mortos?

Só porque o índice de impunidade nestes crimes chega muito perto de 100%?

Só porque o índio Galdino foi confundido com um mendigo?

Só porque a região de Arame e proximidades é conhecida no Maranhão pela ação violenta dos madeireiros contra indígenas e outras comunidades?

Só porque em Dourados (MS) acontece um genocídio silencioso – com os fazendeiros locais usando pistoleiros para assassinar índios e esconderem os corpos – contra o povo guarani kaiowá e outros?

Só porque no agreste de Pernambuco ou no sul da Bahia os latifundiários não respeitam as terras já demarcadas – a exemplo das terras dos awá-guajá em Arame – e tentam expulsar os indígenas na base da bala?

Só porque em Cantanhede e Pirapemas, cidades maranhenses, os fazendeiros têm envenenado, em 2011, as fontes de águas que abastecem comunidades quilombolas que não aceitam sair por bem de suas terras para que chegue o “progresso”?

Só porque o preço dos índios na tabela da pistolagem é um dos mais baratos entre os grupos e pessoas que “incomodam” os latifundiários?

Só porque no Maranhão de Sarney já se cometeram tantos assassinatos e crimes – tão ou mais bárbaros do que queimar uma pessoa viva – contra indígenas, quilombolas, sem terra, extrativistas e outros segmentos sociais?

Só porque no Brasil chacinas e assassinatos de crianças de rua são tão comuns quanto assassinatos de índios, portanto não faz diferença para os criminosos?

Desconfiar que os awá-guajá tiveram o seu acampamento atacado por madeireiros e uma criança foi queimada (viva ou morta?) por estes, como acreditam os guajajara que vivem na região e conhecem muito bem a hospitalidade e o espírito pacífico dos defensores do progresso?

Exagero. Leviandade desconfiar de madeireiros. Coitados.

PS: Quem tiver mais e melhores hipóteses para o caso, favor registrar nos comentários (que só vou moderar a partir de 12h, aviso logo, já que estou quase amanhecendo o dia).

[Acesse a página especial com várias matérias sobre esse assunto – clique aqui]

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Responses

  1. #BrasileiroGostaMaisDeCachorroDoQueDeÍndio

    http://coisascato.wordpress.com/2012/01/07/yorkindio/

  2. Uma coisa eu tenho certeza: CNA, TFP, FARSUL, VEJA, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Kátia Abreu, UDR, Sperotto, e por aí afora, estão plenamente de acordo com as hipóteses levantadas. E digo mais: grande parte dos braseileiros tambem.

  3. Rogério, está muito bom. Mas como já disse no meu perfil de twitter “hipóteses servem para explicar fatos”, o que temos é uma denúncia com fortes indícios de veracidade. Como o que é verdade não é igual ao que é verdadeiro, dado o caráter empírico da primeira e da natureza argumentativa da segunda, as 10 hipóteses que constrói não explicam o que aconteceu. O restante da argumentação ganha toda a minha concordância e adesão. Os fatos, cuja veracidade é extremamente plausível, merecem rigorosa apuração. Se confirmados, a vindicação da imediato julgamento e a punição dos responsáveis por eles.

  4. até quando vamos lê este tipo de noticia, mesmo que a grande midia tente ocultar.Enquanto isso o governo federal mostra os indices de crescimento, pautado em queima do dinheiro do trabalhador, como o FGTS, financiando a farra da boa safra, das propinas paga as bases governistas, dos recursos destinados aos pobres e miseraveis, onde se deixam cair as migalhas da mesa do grande banquete que é servido no Distrito Federal, com os irmãos indios e donos deste colossal pais chamado Brasil, não vai ser diferente, diferente até que vai ser, pois são donos dessa terra e ao exemplo dos indios Americanos se nada for feito, o desfecho será o “exterminio gradual”.

  5. É. O mundo, pelo jeito, não quer saber de enfrentar a face da maldade humana. Prefere dar as costas. Quando (se) sair alguma coisa na Globo, veremos as polianas cegas abismadas e clamando por justiça. De qualquer maneira, gostaria de parabenizá-lo de novo pelo trabalho. Abraços.

  6. […] ou não é sério, Brasil? Confiamos ou não confiamos em nossos índios nesse contexto de conflito? Ao menos para iniciar uma […]

  7. […] passo que Rogério Tomaz Jr, natural do Maranhão, e primeiro a denunciar na blogosfera o caso, ironizou, em um post, as diversas hipóteses surgidas sobre o caso, em especial as que acusam os indígenas […]

  8. […] passo que Rogério Tomaz Jr, natural do Maranhão, e primeiro a denunciar na blogosfera o caso, ironizou, em um post, as diversas hipóteses surgidas sobre o caso, em especial as que acusam os indígenas […]

  9. Rogério, eu botei link pro seu post,vc viu? A moçada tá querendo marcar tuitaço e blogagem coletiva pra cobrar a apuração das autoridades. Você topa? Abraços

  10. […] Tomaz Jr, born in Maranhão, was the first to report the case in the blogosphere; he ironically posted the various hypotheses about the case that have emerged, especially those that accuse the […]

  11. […] Tomaz Jr, born in Maranhão, was the first to report the case in the blogosphere; he ironically posted the various hypotheses about the case that have emerged, especially those that accuse the […]

  12. […] Jr, geboren in Maranhão, war der erste, der von dem Fall in der Blogosphäre berichtet hat. Er postete ironischerweise die verschiedenen Hypothesen, die zu dem Fall aufgetaucht sind, besonders diejenigen, die indigene […]

  13. […] nonché la prima persona a denunciare il caso nella blogosfera, ha pubblicato un post nel quale ironizza sulle varie ipotesi emerse riguardo alla vicenda, prendendo di mira in particolare coloro che […]


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