Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 21/11/2011

Energia solar é opção do presente, até para Paul Krugman e os EUA

Paul Krugman não é autoridade no debate energético. Ele mesmo assume. O Nobel de Economia (2008) é uma espécie de papa do pensamento liberal nos EUA. Não à toa, é colunista do jornal mais influente na terra de Obama.

Portanto, ainda que lhe falte “autoridade técnica” para tratar do tema, vale prestar atenção quando Paul Krugman defende que a energia solar é a opção que causará uma transformação no modelo energético sob o qual vivemos hoje – baseado no petróleo e seus derivados e em outras fontes sujas e não sustentáveis do ponto de vista ambiental e social.

Uma opinião como essa significa que o centro do pensamento econômico (e político) dos EUA (e de boa parte dos países ricos) está debatendo essa opção energética. E isso não é pouco, principalmente se levarmos em conta que os EUA são o pilar central sobre o qual se assenta o modelo energético hoje dominante em escala global.

Krugman defende uso da energia solar

E esse debate, como sempre foi e sempre será, é estratégico e fundamental para o avanço das sociedades (e a manutenção ou alteração no xadrez geopolítico internacional).

Disse Paul Krugman em sua coluna no NYT de 6/11:

“Estamos – ou, pelo menos, deveríamos estar – na cúspide de uma transformação energética movida pelo custo rapidamente decrescente da energia solar. Isso mesmo – energia solar.

Se isso o surpreender, se você ainda pensa na energia solar como alguma espécie de fantasia hippie, culpe por isso nosso sistema político fossilizado, em que os produtores de combustíveis fósseis possuem aliados políticos poderosos e uma forte máquina de propaganda que denigre as alternativas.

Se a tendência de baixa dos preços continuar – e ela parece estar se acelerando –, estaremos a poucos anos de distância do ponto em que a eletricidade obtida de painéis solares será mais barata que a eletricidade gerada pela queima de carvão.

E, se atribuíssemos preços corretos à energia do carvão, levando em conta os altos custos de saúde e outros que ela impõe, é provável que já teríamos passado desse ponto decisivo.

Será que nosso sistema político vai adiar a transformação energética que já está ao nosso alcance?

Encaremos os fatos: uma grande parte de nossa classe política, incluindo basicamente o Partido Republicano inteiro, está profundamente investida em um setor energético dominado pelos combustíveis fósseis, sendo ativamente hostil a outras alternativas. Essa classe política fará tudo o que puder para assegurar subsídios para a extração e o consumo de combustíveis fósseis – diretamente, com dinheiro dos contribuintes, e indiretamente, ao isentar o setor da responsabilidade pelos custos ambientais, ao mesmo tempo em que ridiculariza tecnologias como a solar.

Portanto, o que você precisa saber é que nada do ouve vindo dessa gente é verdade. O fracking não é um sonho que se realiza; a energia solar hoje tem relação custo-benefício positiva. O sol está chegando. Basta nós nos dispormos a deixá-lo entrar.”

Paul Krugman, “Here comes the sun”, The New York Times (06/11/2011)

A íntegra do artigo “Here comes the sun” está disponível aqui. E a versão traduzida (“Abram alas para o sol”, título meio inusitado) está no portal Ecodebate (aqui).

Para quem lê em inglês, vale a pena ler um complemento ao artigo de Krugman que ele próprio sugeriu (“O estimável Joe Romm explica a questão melhor do que eu”). Clique aqui para ver o post de Joe Romm, editor do site Climate Progress, no qual ele mostra que o custo da tecnologia de geração de energia solar caiu mais de 75% nos últimos 25 anos, enquanto a produção desta fonte disparou nos últimos cinco anos.

Debate no Brasil

No Brasil, criou-se o mito de que a energia gerada pelas usinas hidrelétricas é sustentável – pelo fato de se tratar de uma fonte renovável – e que as alternativas são inviáveis por conta dos custos elevados.

Não se fala, por exemplo, que o potencial de energia eólica somado do Ceará e do Rio Grande do Norte (apenas desses dois estados) chega a 12 mil Megawatts mensais, o que equivale a uma usina de Itaipu. O potencial brasileiro total equivale a seis (eu disse SEIS!!!) usinas de Itaipu.

O custo de instalação desse potencial – não tenho os dados aqui – certamente se pagaria em pouco tempo, sobretudo com os custos cada vez mais decrescentes da tecnologia. E, ressalto, com a vantagem dos impactos sociais e ambientais serem infinitamente menores.

Energia solar é opção para o presente

O Brasil – com um litoral imenso e sol abundante na maior parte do ano – pode sair na frente dessa mudança de modelo energético ou continuar privilegiando o esquema das grandes empreiteiras (boa parte delas ligadas aos caciques do PMDB e de outros partidos fi$iológicos) que vem paulatinamente acabando com os nossos rios.

Outros mitos, mentiras e meias verdades sobre o debate energético no Brasil, especialmente importante no momento em que se discute a construção de Belo Monte e outras usinas gigantescas, estarão (daqui a pouco) no post mais recente que fiz (estou fazendo) sobre Belo Monte.

Clique em Leia Mais para ver o texto completo do Paul Krugman.

Energia Solar: Abram alas para o sol

A história da tecnologia vem sendo dominada há décadas, na mente popular e também na realidade, em grande medida, pela computação e as coisas que é possível fazer com ela. A Lei de Moore – segundo a qual o preço da potência de computação cai aproximadamente 50% a cada 18 meses – propiciou o surgimento de uma gama sempre crescente de aplicativos, desde os faxes até o Facebook.

Já o nosso domínio do mundo material avança muito mais lentamente. As fontes de energia, os modos que usamos para transportar coisas, são mais ou menos as mesmas de uma geração atrás.

Isso pode estar prestes a mudar, entretanto. Estamos – ou, pelo menos, deveríamos estar – na cúspide de uma transformação energética movida pelo custo rapidamente decrescente da energia solar. Isso mesmo – energia solar.

Se isso o surpreender, se você ainda pensa na energia solar como alguma espécie de fantasia hippie, culpe por isso nosso sistema político fossilizado, em que os produtores de combustíveis fósseis possuem aliados políticos poderosos e uma forte máquina de propaganda que denigre as alternativas.

Por falar em propaganda: antes de eu passar para a energia solar, falemos rapidamente sobre o fraturamento hidráulico, também conhecido como “fracking”.

O fracking – a injeção de fluído de alta pressão em rochas subterrâneas profundas, induzindo a liberação de combustíveis fósseis – é uma tecnologia impressionante. Mas é também uma tecnologia que impõe custos altos ao público. Sabemos que ela produz água residual tóxica (e radiativa) que contamina a água de beber; apesar de o setor negar, há motivos para suspeitar que ela também contamine a água subterrânea, e os transportes com caminhões pesados exigidos pelo fracking causam danos importantes às rodovias.

Os fundamentos da ciência econômica nos dizem que um setor que impõe custos pesados a terceiros deve ser obrigado a “internalizar” esses custos – ou seja, pagar pelos danos que provoca, tratando-os como custo de produção. O fracking ainda pode valer a pena, mesmo com esses custos. Mas nenhum setor deveria ser isento da responsabilidade pelos impactos que exerce sobre o meio ambiente e a infraestrutura do país.

No entanto, o que o setor e seus defensores exigem é precisamente que ele seja perdoado pelos danos que causa. Por que? Porque precisamos dessa energia! Por exemplo, a organização energyfromshale.org, que tem o apoio do setor do fracking, declara que “existem apenas dois lados na discussão: aqueles que querem que nossos recursos naturais e petróleo sejam explorados de maneira segura e responsável e aqueles que não querem que nossos recursos naturais e petróleo sejam desenvolvidos, e ponto”.

Assim, vale a pena notar que o tratamento especial dado ao fracking contraria frontalmente os princípios do livre mercado. Os políticos pró-fracking afirmam ser contra o pagamento de subsídios –mas permitir que uma indústria imponha custos sem pagar por isso equivale, na prática, a um subsídio enorme. Eles dizem que se opõem a que o governo “escolha vencedores”, mas exigem tratamento especial para essa indústria, precisamente porque afirmam que ela será a vencedora.

Falemos agora de algo inteiramente diferente: a história de sucesso da qual você ainda não ouviu falar.

Hoje em dia, basta mencionar energia solar e é provável que você ouça gritos de “Solyndra!”. Os republicanos tentam fazer da empresa falida de painéis solares tanto um símbolo de desperdícios do governo – embora as alegações sobre um escândalo de grandes proporções não tenham fundamento algum – quanto um bastão com o qual castigar a energia renovável.

Acontece que o fracasso da Solyndra foi provocado, na realidade, pelo sucesso tecnológico: o preço dos painéis solares está caindo rapidamente, e a Solyndra não conseguiu manter-se à frente da concorrência. Na realidade, o progresso com painéis solares vem sendo tão dramático e constante que, como disse um post em um blog da “Scientific American”, “já se fala com frequência numa ‘lei de Moore’ da energia solar”; os preços, já ajustados para a inflação, vêm caindo por volta de 7% ao ano.

Esse fato já levou ao aumento acelerado nas instalações solares, mas é possível que ainda mais mudanças estejam a caminho. Se a tendência de baixa dos preços continuar – e ela parece estar se acelerando –, estaremos a poucos anos de distância do ponto em que a eletricidade obtida de painéis solares será mais barata que a eletricidade gerada pela queima de carvão.

E, se atribuíssemos preços corretos à energia do carvão, levando em conta os altos custos de saúde e outros que ela impõe, é provável que já teríamos passado desse ponto decisivo.

Será que nosso sistema político vai adiar a transformação energética que já está ao nosso alcance?

Encaremos os fatos: uma grande parte de nossa classe política, incluindo basicamente o Partido Republicano inteiro, está profundamente investida em um setor energético dominado pelos combustíveis fósseis, sendo ativamente hostil a outras alternativas. Essa classe política fará tudo o que puder para assegurar subsídios para a extração e o consumo de combustíveis fósseis – diretamente, com dinheiro dos contribuintes, e indiretamente, ao isentar o setor da responsabilidade pelos custos ambientais, ao mesmo tempo em que ridiculariza tecnologias como a solar.

Portanto, o que você precisa saber é que nada do ouve vindo dessa gente é verdade. O fracking não é um sonho que se realiza; a energia solar hoje tem relação custo-benefício positiva. O sol está chegando. Basta nós nos dispormos a deixá-lo entrar.

Paul Krugman, 57, é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados. Escreve às segundas.

Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo.

EcoDebate, 08/11/2011

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