Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 07/11/2011

Band mata cinegrafista durante trabalho e Abert endossa hipocrisia

Essa é a cristalina verdade: a morte do cinegrafista Gelson Domingos da Silva, 46 anos, funcionário da TV Bandeirantes, é responsabilidade da empresa para a qual trabalhava, por vários motivos.

O principal deles: a imposição aos profissionais de comunicação da bizarra lógica que os coloca em posições cujas consequências podem ser chamadas de qualquer coisa, menos de fatalidade.

Como disse um amigo, também profissional de imagem no Rio, “jornalista não é polícia, o profissional não tem que estar onde estava o Gelson (atrás de um policial num tiroteio?!)”.

Como quem reafirma o mórbido espetáculo que tem por objetivo faturar, a Band colocou no seu portal o vídeo do momento exato em que o cinegrafista foi baleado.

Tento, mas não consigo sequer imaginar a dor que a cena deve causar à família do cinegrafista. Talvez seja proporcional à imensa audiência que o vídeo terá – e, obviamente, o vídeo é precedido por uma propaganda da pipoca Yoki, da cerveja Petra ou de outro anunciante qualquer que financia o espetáculo do qual foi vítima um pai de três filhos e avô de dois netos.

Tim Lopes foi vítima da Globo. Gelson Domingos, da Band.

Assim como tantos outros profissionais foram – e continuarão sendo – vítimas de empresas que confundem “interesse público” com nível audiência.

A Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) emitiu nota lacônica com 72 palavras na qual diz que “lamenta profundamente” a morte do cinegrafista. Nada de se estranhar vindo de uma entidade que apoiou o Golpe Civil Militar de 1964 e que homenageia golpistas como Marcel Granier (dono da RCTV da Venezuela, emissora que participou ativamente do golpe contra Hugo Chávez em 2002).

Hipocrisia

Na matéria no site sobre a morte do seu funcionário, a Band destaca o fato de que Gelson usava colete à prova de balas e diz que o equipamento “era permitido pelas Forças Armadas, mas [Gelson] foi atingido por um tiro de fuzil” (veja imagem abaixo).

NENHUMA PALAVRA sobre a insuficiência do colete para proteger a pessoa de um tiro de fuzil. O destaque e o texto é o equivalente escrito do simplório gesto de alguém que lava as mãos sujas de sangue.

Ou seja, foi preciso ocorrer uma morte para uma das maiores empresas de comunicação do Brasil DESCOBRIR que os coletes que seus empregados usa(va)m em “coberturas de risco” (ótimo eufemismo) não funcionam para uma arma das mais usadas pelo crime organizado no Rio de Janeiro.

Na próxima vez, o cinegrafista da Band (ou da Globo ou da Record…) usará um colete “nível 3”. Até que levará um tiro na cabeça ou em algum outro local não protegido pelo colete.

E assim, na base da hipocrisia, caminha a humanidade.

Informação distorcida: coerência da Band e da grande mídia em geral

Quem tiver estômago para ver o vídeo, basta clicar no link abaixo.

http://www.band.com.br/noticias/cidades/noticia/?id=100000466542

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Responses

  1. Excelente texto, Roger!

    Não entendo o que faz um jornalista (cinegrafista) estar no meio de uma troca de tiros! Que necessidade mórbida é essa de ver a desgraça dos outros… o combate ao crime se dá melhorando a segurança pública e implementando políticas públicas e não colocando em risco a vida de uma pessoa… culpa também de quem dá audiência a programas como este!

    Que a família do Gelson tenha forças para seguir vivendo com dignidade. E que sejam punidos os culpados por mais essa atrocidade!

  2. A sua opinião é válida, porém acredito que é bastante pesada. Que fique claro que o papel do jornalista é de informar e que a sociedade tem esse direito garantido por lei. As sugestões de pautas factuais como esta, envolvem riscos e o repórter já sai da redação ciente disso. Entretanto, o desejo em obter um furo-jornalístico, supera todo o sentimento de medo.

    A notícia não não vai bater na sua porta pronta e pedir para ser publicada, você precisa correr atrás dela. O Gelsom tinha 20 anos de profissão, era um repórter cinematográfico experiente e que já havia enfrentado outras situações como esta.

    A forma de proteção utilizada, assim como citada por você, estava dentro dos padrões estabelecidos por lei. Porém, contra um tiro de fuzil, infelizmente, ainda não existe proteção. Acredito que a proteção desses profissionais caberia ainda a utilização de capacetes.

    Na minha visão, o erro está na condução dos policiais, uma vez que eles autorizaram os jornalistas (repórteres e cinegrafistas) a fazerem a aproximação sem sequer ter constatado que não havia mais perigo.

    • Notícia nesse caso seria exatamente o quê? A imagem do traficante sendo preso ou baleado? Vale a pena arriscar a vida para registrar um fato que poderia simplesmente ser noticiado após ter ocorrido? Definitivamente, “correr atrás da notícia” não tem nada a ver com arriscar a vida e não há NADA no mundo ou no jornalismo que justifique ou legitime esses riscos.

  3. […] A informação me chega via lista do Encontro Nacional de Blogueiros, enviada pelo colega Rogério Tomaz Jr, do Conexão Brasília-Maranhão. […]

  4. […] ainda conseguir mais um recorde de audiência em cima de um assassinato pelo qual, como bem pontuou Rogério Tomaz Jr., é […]


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