Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 13/10/2011

Rafinha Bastos: Dois metros de absolutamente nada

Segu ótimo texto do Newton Lemos, publicado no seu blog Newtices.

Dois metros de absolutamente nada

http://lemosnew.wordpress.com/2011/10/11/dois-metros-de-absolutamente-nada

O Brasil tem mesmo a vocação de se prolongar em debates acalorados e discussões sem fim sobre coisas muito claras. Esse “humorista” chamado Rafael Bastos Hocsman, um gaúcho de 34 anos e ascendência judaica, virou centro de uma polêmica que nem precisaria ter existido, houvesse ele nascido num país um pouco mais sério em relação ao direito dos outros. Li muitas posições sobre a atitude desse indivíduo patético. O  jornalista Miro Borges disse o seguinte: “O caso Rafinha Bastos é pedagógico. No Brasil, além das mulheres, qualquer minoria pode ser atacada. Menos uma: a minoria dos endinheirados.” A afirmação de Miro é pura verdade, mas incompleta. A minoria dos endinheirados, na verdade, dispõe de armas potentes para revidar quando atacada. Gays, mulheres espancadas, etc… acabam virando estatística e gerando uma indignação transitória na sociedade brasileira, que logo se concentrará no próximo escândalo ou acidente. Os ricos ofendidos, entretanto, usam seus recursos para ferir o bolso e o patrimônio dos ofensores. Eles estão errados? Não. Errada é a impossibilidade social de vocalização e de pressão das minorias que não conseguem fazer-se respeitar minimamente.

Não há absolutamente graça nenhuma em declarar publicamente “comer” a esposa grávida de cinco meses de quem quer que seja. Tivesse isso acontecido numa cidade pequena do interior ou numa área de bolsão de pobreza qualquer, o desfecho poderia ter sido um punhado de facadas e um corpo estendido no chão. O povo que é alijado da justiça institucional acaba dando um jeito com as próprias mãos. Não defendo essa postura, mas o cotidiano tem mostrado que assim tem sido. Sorte desse macaqueador em estar protegido por uma tela de TV. Perdeu o emprego e alguns contratos, mas está vivo.

Num outro episódio grotesco, ao ser questionado pela jornalista Mônica Bergamo sobre piadas envolvendo o ator Fábio Assunção e a Nextel  (após ter dito que este “é celular usado por traficante”), Rafael respondeu através de e-mail: “Chupa o meu grosso e vascularizado cacete”.  Eu não gosto dessa propaganda da Nextel, acho boba – por questão de gosto estético.  Agora, qual fato me dá o direito de associar o drama pessoal de alguém ou o tráfico de drogas a uma marca conceituada de telefonia celular, declarando isso aos quatro ventos? E que tipo de resposta é essa de “chupa meu cacete”? Coisa de quem perdeu mesmo qualquer noção.

Esse risível farsante não é artista nem merece qualquer palco. É um sociopata. Humorista de verdade não precisa humilhar ninguém para se afirmar, nem fabricar graça às custas de vítimas de estupro. Lembrem-se das inúmeras caricaturas feitas por Chico Anisio, Jô Soares, Orlando Drummond, a turma da extinta TV Pirata – tudo com alegria, bom gosto e profissionalismo. Não foram perfeitos, mas não vulgarizaram a arte. Chega desse discurso de que isso é liberdade de expressão. A liberdade de expressão diz respeito a se posicionar contra ou a favor de idéias, não de humilhar e difamar pessoas. Diz respeito a divulgar fatos, doam esses a quem doer, mas não a alardear publicamente inverdades e taras de cunho pessoal.

Obviamente, há no Brasil quem goste e bata palma para este pseudo-artista. Por certo que não haveria o palhaço sem picadeiro e platéia. Queria ver se a graça seria tão engraçada se a grávida humilhada fosse a esposa de algum desses “seguidores” ou ainda se suas mães ou filhas fossem vítimas de estupro ou convidadas a chupar um cacete. Pimenta nos olhos dos outros é refresco…

*****

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Responses

  1. que recalque, Sr. jornalista.

    • Que vassalagem, Sr/a Brun.

  2. Roger, o problema não é o “de quem ela é esposa”. O debate é sobre respeito a uma mulher: seja grávida ou não, casada ou não.

    • Concordo 500%. Mas o fato é que a Band só fez alguma coisa quando a esposa de um patrocinador foi ofendida.

  3. Maldita inclusão digital!!!Qualquer zé ninguém se acha alguma coisa só por ter um blog!!!!kkkO recalque comeu solto!!!!

    • E a vassalagem come amarrada… especialmente em cima de quem acha que “aparecer na TV” é credencial para deixar de ser “zé ninguém”…

  4. Concordo plenamente. Excelente analise!

  5. Bom texto Rogério! Esse Rafinha Bastos é um ridículo. Não é a primeira vez que ele manda uma piada machista, grosseira e desrespeitosa. E ainda é casado essa praga!

  6. Muito bom! “Humorista de verdade não precisa humilhar ninguém para se afirmar…” E nem humorista e nem qualquer outra pessoa. Me pergunto como um profissional que dirige/participa de um Programa como A Liga pode ser tão ridículo como humorista. Ele deve ser bipolar!

  7. É preciso confirmar se, além da declaração quanto a comer a mulher grávida, seja ela esposa de quem for, ele ainda teria dito que comeria também o bebê…
    Aqui no Nordeste, além tarado, seria chamado de “papa-figo”, que esse negócio de “pedofilia” é novidade semântica, para o povão não entender que não são os comunistas que “comem criancinhas”, mas sim os padres que os acusavam.

    • Sim, ele falou. O vídeo é facilmente encontrado na web.

  8. As piadas do Bastos são grosseiras. Ele é um humorista mais ou menos. Mas alguém aí conhece um programa chamado A Liga?? Por incrível que possa parecer é um belo programa que denuncia injustiças sociais (o melhor da TV Aberta). O programa é da Band e o tal Rafinha é um dos cabeças desse programa. E o bicho é muito bom fazendo isso. Incrível, mas ele defende as minorias e oprimidos de forma exemplar nA Liga.
    São as contradições da vida.
    Assim como a bela amizade entre Sarney, Lula, Collor e Dilma (não se explica pela lógica formal).
    abraços

  9. Rogério, você acha que exite alguma relação entre a ascendência específica do Rafinha e o comportamento que você, e muitos de nós, considera condenável? Você costuma explicitar a ascendência das pessoas acerca de cujos atos você comenta? Porque você o fez neste caso?

    • Prezado(a), você não leu o texto direito e não percebeu que eu não sou o autor.
      Além disso, pela leitura apressada, também não percebe que a ascendência judaica foi apenas citada sem qualquer vinculação com o comportamento do dito cujo.
      As perguntas você deve dirigir ao autor do excelente texto, mas respondo por mim: não acho que a procedência religiosa, geográfica, étnica, política tenha qualquer coisa a ver com posturas preconceituosas. O ser humano é complexo e associar ascendência a comportamentos é, mais do que burrice, flertar com totaliteriamos.

  10. De fato, como você não foi o autor, não é a você que minha pergunta se dirigia. Foi um engano, do qual me desculpo.
    De todos os modos, a pergunta, que sabemos que é uma crítica, ao autor, se mantém. Certamente, ele não vincula explicitamente a ascendência do fulano com seu comportamento. Contudo, a menos que a citação da ascendência seja minimamente recorrente em seus textos, ela é totalmente injustíficável neste.
    Pelos teus comentários no blog, que acompanho, imaginaria mesmo que você não faria esse tipo de associação. É possível que o autor do texto também não a faça. Mas manifestações como esta, às vezes – mas não sempre – até inconscientes, são relativamente comuns na esquerda, em razão, creio eu, da posição lamentável de Israel no conflito com os palestinos. Mas quem se pretende humanista e abomina o racismo, deve estar atento para que elas não ocorram.

    • Concordo com cada palavra do que você escreveu.

  11. nao ia me meter, mas… tive uma impressao diferente ao ler a referencia a ascendecia judaica do humorista em questao. creio que o autor se referia ao fato de que, nao faz muito tempo, os judeus foram vitimas de uma das mais terriveis perseguicoes ja ocorridas na historia mundial, sendo assim deveria ele (Rafael Bastos ) saber como se sentem as minorias perseguidas… espero ter contribuido. Gostei do texto, Rogerio, especialmente por ele conseguir divisar bem o que eh liberdade de expressao e o que nao eh.


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