Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 05/10/2011

Gisele Bündchen também discrimina os homens

Segue artigo publicado na Folha de São Paulo nesta quarta-feira (5).

Que sirva de estímulo à reflexão, especialmente de pessoas que acham que a Secretaria de Políticas para Mulheres “deveria se preocupar com coisas mais importantes”.

*****

Folha de São Paulo, 5 de outubro de 2011.

Bündchen também discrimina os homens

*Fausto Rodrigues de Lima, Promotor de Justiça do Distrito Federal

Para a campanha referida, o marido ideal precisa ser o provedor; caso contrário, não pode ter uma mulher linda e disponível para o sexo

Para gastar todo o dinheiro do marido e conseguir sua compreensão, a mulher brasileira precisa lhe conceder sexo. O ensinamento de uma campanha da lingerie Hope, protagonizada por Gisele Bündchen, causou justa indignação a ponto de a Secretaria de Políticas para as mulheres pedir sua suspensão.

Essa e outras manifestações sexistas escamoteiam faceta pouca explorada: o homem também é discriminado. Ora, para a campanha referida, o marido ideal precisa ser o provedor; caso contrário, não pode ter uma mulher linda e disponível para o sexo. Como um cão no cio, necessita de sexo a todo momento e a todo custo. Não deve se importar com a satisfação da parceira; basta que ela finja prazer.

Se analisarmos comerciais dirigidos aos homens, veremos que, nessas peças, eles são tratados como crianças abobalhadas. Os de cerveja os perfilam como tipos pouco inteligentes, fazendo (e rindo de) piadas idiotas, e com um só objetivo na vida: sexo. Um recente comercial da Volkswagen mostra um pai com vergonha do filho pois o menino, além de não surfar ou tocar guitarra, ainda não “pegou” uma garota.

Como todo projeto de dominação e preconceito, a discriminação de gênero, embora baseada numa suposta inferioridade feminina, atinge a todos, porque cria regras “naturais” para o comportamento dessa ou daquela pessoa, baseando-se apenas em seu sexo. Adeus, individualidade e diversidade.

No mundo que se convencionou chamar masculino, não há lugar para poesia, para emoções. Sensibilidade é uma capacidade indesejável, ligada a tudo o que é considerado inferior, ou seja, ao feminino.

A educação dirigida aos meninos é completamente diferenciada. Bonecas são brinquedos educativos para as futuras mamães, mas causam horror se manipuladas por meninos. O “instinto materno” é aprendido desde a infância, mas não se ensina o paterno (não à toa, se considera tão natural as mulheres ficarem com os filhos numa separação).

Homem não chora, é autossuficiente, não demonstra fragilidade e não leva desaforo pra casa. Se ele se irrita, agride pessoas, deve ser compreendido, porque, afinal, é apenas um. homem, infantilizado pela família e pela sociedade. Enquanto mulheres dividem com outras medos e frustrações, o homem se fecha. Do ambiente familiar, repleto de emocionalidades, resta a ele fugir. O bar e o álcool são o refúgio viril que a sociedade lhe dá.

É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer “piadas inocentes”.

Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for insuficiente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas não pensamos nisso 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.

Por isso, pedimos ao Conar que suspenda a propaganda da Hope e outras ridículas, não só por ofenderem nossas mães, filhas e esposas, mas por nos agredirem profundamente enquanto homens.

 

*FAUSTO RODRIGUES DE LIMA é promotor de Justiça do Distrito Federal e coautor do livro “violência doméstica – A Intervenção Criminal e Multidisciplinar”

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Responses

  1. Clap! Clap! Clap!

  2. Interessante o ponto de vista do autor. Mas ele somente é possível porque o comercial não foi censurado. Por isso, prefiro mil vezes que o comercial fique no ar fomentando a troca de ideias.

  3. Claro que a propaganda é burra. Porém não deve ser proibida, o que deveria acontecer é o público achar imbecil e ridiculariza-la. Agir desse forma é tratar-nos de imbecis e dizer que precisam cuidar-nos como crianças que não sabem decidir. Esse é o rumo perigoso que eu acho que estamos indo faz tempo, e com a conivencia de todos. Se tratamos as pessoas como imbecis, é assim que elas agirão. Como diria Raul, o que falta é cultura, pra cuspir na estrutura.

  4. Excelente texto. Nunca tinha visto ou pensado o mundo por essa ótica… o que de certa forma já caracteriza um preconceito da minha parte, não é mesmo?! Bom saber que vocês se importam e sentem pressões como nós sentimos, seja social, econômica ou até física (leia-se sexual)…

    Obrigada por me fazer refletir; porque assim como nós não somos apenas ‘gostosonas de biquini’ que frequentam bares para enlouquecer os homens, vocês também não são cachorros no cio em busca de carne fresca…

    Um beijo Roger! Saudades de nosso convívio mais próximo! 🙂

  5. Como alguém que já trabalhou/trabalha com publicidade acho complicado tirar a propaganda do ar, mesmo com seu teor imbecilizante, mas considero que a Secretaria de Políticas para Mulheres faz o seu papel ao pedir a suspensão do comercial e, principalmente, que estas excelentes e corretíssimas reflexões sejam massificadas. A Publicidade brasileira que considera-se tão criativa parece ainda não ter entrado no século XXI.

  6. Acho que temos coisas mais importantes com que nos preocuparmos… engraçado como ninguem se incomoda com comercial de bebida alcoolica?1?

    • Luciana, desculpe, respeito sua opinião, mas a violência doméstica passa pela forma como nós mulheres somos vistas desde que o mundo é mundo.Combater o alcoolismo é fundamental tanto quanto combater as idéias sexistas que continuam a transmitir a ideia de mulher-objeto que só serve para satisfazer os desejos dos homens, é hora de irmos mais além em nossa reflexão.


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