Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 26/09/2011

O anjo da História como metáfora grega – Washinton Araújo

Segue instigante artigo do Washington Araújo, publicado originalmente na Carta Maior.

O anjo da História como metáfora grega

Washigton Araújo*

Klee, Angelus Novus

A Grécia é uma metáfora onipresente do mundo atual. A sociedade grega subsiste como que congelada em seu tempo áureo, tempo dos grandes filósofos, tempo de suas notáveis contribuições não apenas ao imaginário humano, mas também ao desenvolvimento da cultura e da ciência. Um povo e uma sociedade que um dia ofereceram ao mundo sua melhor representação, a começar do momento em que os romanos copiaram – literalmente copiaram – grande parte da cultura grega, fazendo com que seus deuses nada mais fossem que cópias dos deuses gregos. É considerável o legado da arte grega, arte que tanto influenciou a arte romana e renascentista, em sua busca por retratar com corpos com o máximo de perfeição beleza estética. E é esta mesma Grécia que se debate com uma taxa de desemprego em alucinados 17 pontos porcentuais, imersa em um pântano de endividamento externo e interno poucas vezes ocorrida em uma única e singular nação.

Dificilmente poderíamos entender o mundo sem lançar mão do pensamento grego. Foram os gregos que ofereceram explicações racionais e organizadas para os fenômenos da natureza, escapando habilmente da armadilha existente nas justificativas mitológicas. O que seria da literatura, da escultura, da pintura e, mais recentemente, do cinema, sem a “inspiração” surgida com os deuses gregos? Eles que, primeiramente, melhor souberam combinar nas divindades o equilíbrio de uma natureza sobrenatural com a natureza frágil dos sentimentos contidos apenas na esfera do humano. São os mesmos que vêem um índice macabro pairar sobre seu horizonte: a taxa de suicídio subiu para agônicos 40% no espaço de 18 meses.

Os gregos em sua idade áurea amavam muito o teatro. E se o teatro tem uma pátria, esta pátria é a Grécia. Era comum as peças serem encenadas em grandes anfiteatros ao ar livre; e as filas para assistir a essas peças começavam a se formar um dia antes das apresentações. Os gregos atuais aglomeram-se em praças públicas para atear fogo às vestes, imolam-se em praças de Atenas, Salônica e de Pireu. É o protesto mais radical que temos hoje no mundo contra um sistema financeiro internacional inescrupuloso, decadente e em marcha batida para a falência de seus órgãos vitais, que são as instituições bancárias, as agências reguladoras dos governos, as corporações internacionais que financiam desde a saúde pública ate as fábricas de cemitérios que ora funcionam a todo vapor no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e em tantos outros lugares de um planeta conflagrado .

Os gregos olham para o céu que antes os protegia com terror e medo. Passam a sentir na própria pele o que sentiram as nações que um dia foram colonizadas, oprimidas, que tiveram suas populações ancestrais massacradas (Argentina, Bolívia, Peru, Uruguai, Paraguai, México etc), seus bens saqueados (onde foi parar todo o ouro que faziam resplandecer ao sol as notáveis cidades incas, maias, astecas, toltecas, olmecas?) e seu futuro seqüestrado por longos séculos de escravidão e servidão. Como aves de rapinas os países que, ainda hoje, sustentam a banca internacional precisam continuar fazendo o que melhor sabem fazer: rapinar nações, sejam amigas ou inimigas, estejam próximas ou estejam longe. Para manter sistema tão perverso em movimento há que se asfixiar a população, há que se exigir destas o sacrifício maior que é o da própria vida. E isso ocorre na terra de Ésquilo e de Sófocles, de Sócrates e de Platão. Mas também terra de Nikos Kazantzakis e de Costa-Gravas.

As novas gerações celebram a cada quatro anos os mais importantes jogos esportivos do planeta – as Olimpíadas. E, por irônico que possa parecer, este povo que legou ao mundo a criação da democracia, onde os cidadãos passaram a decidir, de forma direta, os rumos de Atenas, é vítima da ganância e individualismo de nações que se autoproclamam campeãs da democracia no mundo. Os gregos lhes ofereceu o direito de gritar e também o de ser ouvido. Os gregos recebem de volta apenas o direito de gritar. Mas sem ninguém que lhes possa ouvir. Que fotografia temos da Grécia atual?

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) grego é de 0,855, considerado “muito elevado”, o que lhe garante a 22ª. melhor posição dentre 169 nações avaliadas pelo IDH. O Brasil ocupa a 73ª. posição, com um índice de 0,699. A taxa de analfabetismo da Grécia é de 2,9%, enquanto no Brasil esta taxa é quase quatro vezes maior: 11,1% da população. A renda per capita grega é de US$ 29.600,00, praticamente o dobro da renda per capita do Brasil: US$ 16.414,00.

James Joyce referia-se à história como pesadelo do qual queria despertar. Porque a história tem sido uma linha contínua de guerras e conflitos, de erros monumentais e impiedosas omissões. Existiria pesadelo maior que este? Tenho em mente famoso texto de Walter Benjamin. Ele o escreveu tendo como inspiração uma tela – chamada Angelus Novus – do pintor suiço Paul Klee (1879-1940). Eis o que diz Benjamin:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

O governo grego encara fixamente a dolorosa prescrição médica que lhe fazem os Bancos Centrais da Europa, Alemanha, França e Estados Unidos. O povo grego escancara os olhos, dilata a boca e abre suas asas em meio às chamas que as consomem em praça pública. Os homens e mulheres de boa vontade de todo o mundo dirigem seus olhos para o passado esplendoroso da Grécia. Mas sabem que salvo piedosas intenções, muito pouco podem fazer para consertar um sistema que já veio ao mundo com erro de origem, um sistema fadado a acumular ruína sobre ruína ante os pés de uma sofrida humanidade, como a prenunciar que o espetáculo encenado na Grécia poderá entrar em cartaz em qualquer outra nação do mundo, a qualquer momento e sem aviso prévio.

O amontoado de demandas não satisfeitas, de fome não saciada de 1 bilhão de pessoas e 180 milhões de crianças – para citar estatística das Nações Unidas – parece ser a tempestade a que Benjamin chama de progresso. Neste caso, poderíamos tratar desse “progresso” como sendo apenas do indivíduo sobre o coletivo, do material sobre o espiritual, do racional sobre o emocional, da produção de armamentos sobre a produção de alimentos, do caos climático sobre a conservação do meio-ambiente.

Até quando haveremos de conviver com essa sensação de desgoverno mundial?

*Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email – wlaraujo9@gmail.com

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Responses

  1. Obrigada, Rogério, por trazer ao nosso conhecimento esse texto excelente, maravilhoso…


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