Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 07/09/2011

Marcha contra a Corrupção em Brasília: versão candanga do Cansei?

É legítimo e fundamental ir às ruas expressar indignação contra o que consideramos injusto. As rupturas e revoluções acontecem no mundo real e não nas redes virtuais. E já passou da centena a quantidade de atos, passeatas, marchas e protestos que ajudei a organizar ou simplesmente participei, em todas as regiões do Brasil.

Mas essa Marcha da Corrupção que vai rolar nesse 7 de setembro em Brasília está mais próxima do estilo “Cansei” do que de um movimento que realmente deseja a transformação da sociedade.

O convite para a Marcha defende uma “reforma prisional” porque “somente no Brasil existe tanto benefício para quem está preso”.

Essa é uma ideia obtusa e ignorante (ou cínica e hipócrita), de viés ultradireitista. A realidade do sistema carcerário brasileiro é que ele não passa de um “inferno carcerário”, como bem diz o deputado federal Domingos Dutra (PT-MA), que passou dois anos percorrendo penitenciárias em todo o País e produziu um relatório e um vídeo bombásticos para a CPI do Sistema Carcerário. Dutra e seus colegas de CPI confirmaram (e mostraram ao Brasil) que as nossas prisões atualmente servem apenas de fábricas de soldados para o crime organizado. Isso no contexto de um Judiciário falido, corrupto e elitista que é responsável por deixar nas cadeias mais de 150 mil pessoas (ou 1/3 do total da população carcerária) na condição de presos provisórios. Não são poucos os casos em que o furto de um pote de margarina – ou produto equivalente – deixou alguém preso por mais de um ano. Ou melhor, levou a pessoa para um curso intensivo de crime organizado. Tudo isso porque os estados não estruturam a Defensoria Pública, entre vários outros fatores.

Essa Marcha contra a Corrupção também afirma, no seu convite, que “somos um povo pacífico” e “não precisamos de violência para fazer valerem os nossos direitos”.

Isso é um ataque velado às ações dos movimentos sociais, formados por pessoas que sofrem todos os tipos de violência – físicas, sociais, simbólicas, jurídicas, políticas etc. – desde que nascem e, quando resolvem reagir, de forma organizada, são acusadas de violentas, como magistralmente descreve o Luís Fernando Veríssimo em sua crônica “Provocações” (aqui).

Vários/as amigos/as vão participar dessa Marcha e isso é algo absolutamente legítimo.

Eu, entretanto, não participo de qualquer ato que defenda ideias reacionárias como estas que constam no convite da Marcha.

O ato que eu reconheço, defendo e apoio é o Grito dos Excluídos, organizado desde 1995 por movimentos sociais, entidades e movimentos de luta, que também ocorre neste 7 de setembro.

Encerro com um textinho que o Leandro Fortes, jornalista da revista Carta Capital e autor do blog Brasília, eu vi, publicou no seu Facebook e gerou mais de 100 comentários.

E vem aí essa marcha do 7 de Setembro contra a corrupção. Essa indignação-classe-média, que fica berrando contra a corrupção – mas não assina a carteira da empregada doméstica – me cansa profundamente. O que vamos ver é um monte de babaca que passou a vida votando na turma de Joaquim Roriz e, agora, tal qual prostitutas convertidas ao evangelho, saem às ruas cagando moral e civismo. E outra coisa: vestir preto, nesse calor de Brasília, só se fosse o enterro de minha mãe. (Leandro Fortes)

Elas também vão participar da Marcha contra a Corrupção em Brasília? Tô fora!

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Responses

  1. EITA NUM FUI NESSA MARCHA, TENHO RAIVA DE QUEM FOI E QUEM VIER ME FALAR DOU-LHE NA CARA!!!!

  2. Entendo suas críticas e concordo com praticamente todos os pontos que vc colocou aí. Mas as mudanças e revoluções nunca foram feitas por massas esclarecidas. Foram massas levadas até lá por líderes, estes sim, esclarecidos. Nessas marchas, passeatas, movimentos organizados em várias cidades do Brasil faltam estes líderes, no entanto, são movimentos legítimos que demonstram indignação, mesmo as pessoas não sabendo muito bem por quê. Eu participo, muito embora discorde de muita coisa, porque é o que temos. O que vc espera, Rogério, para se manifestar? Que o Brasil comece a ser um país politicamente organizado em prol de ideias claras, objetivas e coerentes com as mudanças que são realmente necessárias ao país? Quem sabe daqui uns mil anos! Essa não é a cultura política do Brasil e, mesmo acreditando que ela possa ser modificada, isso ainda vai levar muito tempo. E tenho certeza que não é a minha geração que vai ver essa mudança. Então, em vez de simplesmente criticar e dividir, una-se à causa, mesmo candanga ou capenga como ela é. Um dos maiores problemas que eu observo em relação a essas milhares de marchas e protestos que ocorrem por aí é justamente esse: a divisão. As pessoas saem às ruas, 10 aqui, 20 ali, é preciso unir. O volume de pessoas atrai atenção e a bandeira anti-corrupção é muito válida.

    • Juliana, respeito suas opiniões. Mas o Grito dos Excluídos existe desde 1995 para chamar a atenção e lutar contra a corrpução e outras mazelas bem piores do que isso. É essa a marcha que eu apoio. Existe opção. E eu não abraço gente que defende ideias como a da marcha…

      • Entendo. Também não abraço, acho muito complicado fazê-lo inclusive. Mas não são só estas pessoas que estão lá. Tem que ter uma grande chamada, sabe? Essa grande chamada é sim apropriada pela indústria cultural, mas eu não vejo outra forma de organizar pessoas hoje senão esta.
        Eu conheci hoje, com o seu blog, o Grito dos Excluídos e não sou uma pessoa tão desligada assim das questões políticas. Existe desde 1995 mas não gerou grandes mudanças ainda.
        Sei lá, estou mais desiludida do que tudo, na verdade. Mostre-me uma outra forma eficaz de luta e que seja mais respeitável, que eu abraçarei sem ressalvas. Mas eu não vejo. Só que essa podridão no governo me entristece profundamente ao conhecer algumas realidades de brasileiros/as e ver o quanto são extremamente desrespeitados/as pelas instituições políticas desprezíveis que temos.

      • Juliana, os que estão hoje promovendo a marcha contra a corrupção mandaram no País por 502 anos. A PF nunca prendeu tanto quanto de 2003 pra cá e o MPF nunca teve tanta autonomia pra fazer o seu trabalho como com o governo Lula. Sugiro humildemente que leia esse post e reflita a respeito: https://brasiliamaranhao.wordpress.com/2011/08/09/corrupcao-fhc-45/
        A luta é todo dia e os movimentos sociais e entidades sérias a travam em todos os espaços da sociedade, cotidianamente.

  3. uma coisa é uma coisa e outra cosia é outra cosia

  4. Habermas já dizia que os universitários, filósofos estão aí para organizar as discussões na esfera pública… o que os nossos estão fazendo?

  5. Valeu pelas dicas! Vou ler.
    Ainda me acho bastante infantil em relação a certas visões que tenho da sociedade. Mas estou lendo, aprendendo.

    • Faz parte. Mas nunca perca sua espontaneidade, que é tão importante quanto a autenticidade!

  6. Rogério, você parte de pontos específicos e limitados a apenas uma das dezenas de organizações que ajudaram a promover o ATO CONTRA CORRUPÇÃO EM BRASÍLIA.isso é sofisma braba, mano. Não está levando em consideração os pontos principais da importante e histórica ação de hoje, por qual razão? Acompanho teu bom trabalho, não é de hoje. Lamentávelmente, observar esta tua argumentação imprópria para a realidade que – constatei- apresentada agora a pouco na Esplanada, me causou estranhamento. És um militante de esquerda. Sabe Rogério, tem uma frase do Upton Sinclair que diz que “é muito dificil fazer com que alguém entenda algo quando seu salário depente de sua falta de compreensão”. Nós que lutamos em nossas microguerrilhas cotidianas não fazemos parte disso. Vamos refletir melhor sobre o movimento de modo amplo. Abraço de um leitor que admira o “Conexão”. Daniel

  7. Não perco. E ainda acho que todo mundo devia ir nessas pesseatas mesmo assim. haha

  8. Querido amigo…. Estou me atualizando no últimos posts aqui do CBM e não podia deixar de comentar. Tou morando aqui na tua terra… e quando vi uma amiga comentando que ia pra “marcha contra a corrupção” logo me animei… “Meu primeiro evento político”…Quá quá quá! Santa inocência de uma “calanga” incauta… Que decepção tive ao me ver debaixo do sol escaldante e da secura impertinente de Bsb tendo o desprazer de ver um bando de “sem-noção” gritando besteira com o sol a pino… Se fosse no Ceará eu tinha gritado: Cai fora, mundiça! Sua previsão de que essa marcha ia ser um “caldo de bila” errou feio, nivelou foi por cima… A carniça foi muito pior: só sem-noção…só playboy gritando baboseira…. Só palavras vazias e coros copiados de um folhetim de quinta qualquer. Infelizmente a nuvem de poeira não foi suficiente pra engasgar e calar a galerinha que desceu pro play pra brincar de ser politizado. Gde abraço.

  9. O ser humano muda de atitude e de comportamento, quando muda seus pensamentos, sua visão de mundo. Moral e ética não são fezes… No Evangelho, a música da Gabriela muda,”eu nasci assim, mas não sou mais assim…” Muda sempre para melhor! Qual o Problema? O problema é quem diz ter valores morais e éticos e na realidade nunca teve. É sempre bom ver as pessoas mudando para melhor, de verdade! E as que mudam para melhor com a maturidade. Vai ser bom, se acontecer com você.


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