Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 30/08/2011

Maranhão: banalização da violência é sinal de barbárie

Passou na frente da casa e percebeu que a porta estava aberta. Viu que o casal trabalhava na sala, cada um com o seu notebook. Muro baixo, convite para o delito fácil. Entrou de arma em punho e ouviu de cara: – Leve o que quiser.

Sem qualquer resistência, o assaltante levou como pôde os dois computadores. Quando já partia, deixou uma bala que se alojou na medula. Por um milímetro, o disparo não atingiu uma artéria vital. Escapou da morte para ocupar uma cadeira de rodas, provavelmente pelo resto da vida.

Rafael, 27 anos, pai de um bebê, é mais uma vítima da violência que, de tão banalizada, está alcançando grau de barbárie no Maranhão, em geral, e na capital São Luís, em particular.

Também há poucos dias, um taxista, em plena luz do dia, recebeu uma facada no pescoço de um adolescente tentava assaltá-lo, a poucos metros de um tribunal do poder Judiciário.

Uma amiga informa que na Cidade Operária, bairro popular de São Luís com mais de 120 mil moradores, os assassinatos por causas banais ocorrem diariamente.

O Maranhão é um estado privilegiado pela natureza. Com água e terras férteis em abundância, é parte da Amazônia, possui uma grande faixa de cerrado, além de mata de cocais, extensas áreas de várzeas e um imenso litoral de 640Km bastante propício à pesca. Sem falar nas riquezas minerais como o gás natural, descoberto recentemente. Isso tudo num território do tamanho da Alemanha.

Qualquer economista ou cientista social que conhece esses dados – sem conhecer o contexto político do estado – não consegue acreditar que o Maranhão é o estado mais miserável do Brasil, disputando o título em todos os índices com Alagoas ou alguma outra unidade.

Apenas um engenhoso esforço político gigantesco conseguiria tornar um local como esse mais notório por sua indigência social do que pela sua riqueza.

Na década de 1970, o jornal da família Sarney costumava estampar em suas manchetes: “Maranhão: o Paraná do amanhã”. Após quase cinco décadas de mandonismo de uma família que é sinônimo de corrupção, patrimonialismo e fisiologismo em todo o Brasil, a realidade coloca o estado muito mais próximo do Haiti ou da Etiópia.

Em 1966 o gênio Gláuber Rocha levou às telas o documentário “Maranhão 66”, no qual contrapõe as imagens da miséria maranhense ao discurso de posse do jovem José Sarney, eleito governador e, na época, símbolo da esperança de um povo maltratado pela oligarquia comandada por Vitorino Freire.

O tempo passou e a única diferença essencial é que Sarney não representa mais o Maranhão. É senador eleito pelo Amapá.

Sem educação e saúde de qualidade, sem emprego, sem infraestrutura básica, sem moradia, sem segurança pública, a sociedade maranhense inteira sofre com um sistema perverso que existe para não funcionar. Ou melhor, funciona muitíssimo bem para uma família real de fato e para seus súditos mais próximos, deixando o restante da população exposta aos não-acasos da barbárie.

Se é certo que indivíduos são responsáveis – e precisam ser punidos – pela dor e pelo sofrimento de Rafael e do taxista Raimundo Nonato, mais certo ainda é o fato de que outras vítimas continuam sendo produzidas a cada instante num Maranhão que dispõe de todos os elementos que precisa para ser rico e socialmente justo, mas que não consegue superar o principal obstáculo que o impede de alcançar a prosperidade: o sarneísmo.

Rogério Tomaz Jr.
Jornalista

Gláuber Rocha – Maranhão 66

Imagem de Maranhão 66: pouca coisa mudou.

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Responses

  1. Falou e disse boião. FORA SARNEY.

  2. Falta muito, mas muito investimento na educação(de qualidade). Que é exatamente o que não querem que a população receba. Povo burro são votos sem cobranças e votos vendidos.
    Enquanto isso não ocorre, temos que nós mesmos cuidar de nossa segurança. Outro dia vi um Sargento falando na TV que era pra população contratar vigilância privada. Achei o cúmulo.
    As pessoas devem se unir e defender uns aos outros. Meu vizinho pegou um querendo fazer uma “visita” noturna no domingo passado. E quando percebemos o que estava acontecendo demos o maior apoio.
    Sem contar as famílias, pais hoje em dia não sabem repreender as crianças que vão crescendo achando que podem tudo. O “visitante” do meu vizinho disse que era filho de um senhor que trabalha aqui perto, mas tanto o pai quanto o irmão são pessoas de bem, ou falharam na educação desse “visitante” ou ele estava mentindo.


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