Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 09/07/2011

As mulheres, Dilma e o PT

Segue artigo importante de Maria Ricardina Almeida, incansável militante do PT e do movimento de mulheres, que costumo encontrar nas marchas em Brasília.

Leia e divulgue!

As mulheres, Dilma e o PT

No palco dos recentes abalos que ameaçaram as estruturas políticas do governo Dilma, fomos expostos, enquanto partido, a constrangimentos e julgamentos públicos, a pressões desonestas e oportunistas, e experimentamos perdas, em muitos sentidos.

Nesses momentos, assalta-nos ansiedade e insegurança em relação ao futuro e à continuidade do nosso projeto de governo. É nesse contexto que somos, também, invadidos por uma amnésia repentina. Ela nos impele a jogar na vala comum, com os possíveis erros, tudo o que foi feito de bom pelos nossos governos (Lula e Dilma), – o que, diga-se, de longe, não foi e não tem sido pouco: são saltos e conquistas extraordinários!

Porém, a realidade ou o jogo político não é apenas essa corda bamba, que nos traz insegurança e dúvidas, ela é feita, também, nos tempos atuais, de surpresas extremamente promissoras e revolucionárias, sobretudo para nós mulheres, a maioria, os 52% da população deste país. Nós que somos, ainda, as sub-representadas em todos os espaços de poder, que recebemos menor salário por trabalho igual, as chefes de famílias numerosas, vivendo com pouco mais de alguns dólares por dia, relegadas à pobreza extrema, e aquelas sobre as quais incide os mais altos índices de abusos e violências de todo tipo.

É nessa realidade, muito adversa para as mulheres em geral, que ganha extrema relevância a eleição da primeira mulher presidenta da República, Dilma Rousseff, e todo o esforço que ela fez na montagem do seu governo e continua fazendo para valorizar a condição da mulher no espaço público e político, com todos os embates que impõe a transformação da cultura machista e conservadora, predominante em nossa sociedade.

Mais recentemente, a indicação de duas mulheres, a Senadora Gleisi Hoffmann, para a Casa Civil, e a ministra da Pesca, Ideli Salvati, para o Ministério das Relações Institucionais, torna mais consistente e mais clara essa disposição da presidenta. Três mulheres ocupam, portanto, hoje, os mais altos cargos do Poder Executivo!!!  Gesto revolucionário da presidenta! Enfrentou as pressões políticas, históricas e culturais, que sempre ocorrem nesses momentos, fortaleceu sua liderança, como chefe maior da nação, e plantou com sua decisão, mais uma vez, na alma, no desejo e na autoestima de cada uma das mulheres deste país, primeiro a imagem de três mulheres no comando do país, depois, iluminando gesto e visão, a frase emblemática, que não foi dita, mas que emergiu como um canto silencioso e forte, apontando um novo destino, uma nova sina e a traduzir o sentimento que marca a emancipação de todo ser humano: EU POSSO!

A imagem pública de três mulheres ocupando o mais alto escalão do governo tem um poder de lei sobre a cultura: ela inscreve no imaginário coletivo de homens e mulheres, a visão e a experiência de uma realidade nunca dantes vivida, e uma mudança substancial na imagem pública da mulher pode enfim ser visualizada.

Diante desse fato, podemos nos perguntar se isso teria sido possível no governo de um homem? Talvez sim, talvez não. Até para o de outra mulher caberia a pergunta, e também, a mesma resposta. Certamente, não é qualquer mulher ou qualquer homem que faria o que Dilma tem feito. Não obstante nosso entusiasmo, essa é uma realidade que necessitará de algum tempo ainda para ser assimilada, devidamente. Embora potencialize enormemente uma série de outras, precisará desdobrar-se em ações concretas e urgentes em outros espaços, tempos e realidades, para que, efetivamente, passe a ser algo que se reconheça como um traço da nossa cultura, e não seja lembrado apenas como um fato isolado dessa longa história das mulheres.

Mas, quem nos deu a “indumentária”, as condições, a forma para chegarmos a este momento? Mesmo com todas as suas contradições, podemos dizer sem medo de errar e de ser feliz, que foi o Partido dos Trabalhadores. Não estamos falando dos homens ou mulheres do PT, mas do projeto político do partido, do seu compromisso com a democracia, com a justiça social, com a superação das desigualdades, com a defesa da ética e da igualdade entre seus pares, enfim com a construção de uma nova sociedade, de um novo ser humano. No contexto de um país capitalista e de uma democracia representativa, com uma cultura política dominada por coronéis, com todas as suas peias, armadilhas e atrasos, surgiu, em 1980, o partido que nos levou ao momento em que nos encontramos hoje. E se o caldo cultural existe e possibilita as transformações, foi numa dada conjuntura que ocorreu a irrupção de forças e a convergência de estados e sinergias, provocando a emergência desse novo, que de forma marcante e com suas contradições, responde pelo nome de Partido dos Trabalhadores – um partido formado na sua relação histórica com a base da sociedade, representado pela liderança e sabedoria política surpreendentes de Lula, um torneiro mecânico, um retirante, um nordestino, um presidente sem curso superior, um sábio-analfabeto, alguém à margem do sistema vigente, que para eles, não tinha nenhuma chance de chegar onde chegou e de fazer o que fez. Um absurdo! Uma insolência!

Em 2010, este partido elegeu Dilma, primeira mulher na presidência do Brasil. Ela uma guerrilheira que, ainda muito jovem, entregou sua vida para lutar contra o período mais hediondo e vergonhoso da nossa história e que foi, por isso, covarde e barbaramente, torturada. Ela desacreditada politicamente, tida como a sombra de Lula, a desconhecida, com seu jeito de falar tão próximo, às vezes, daquela forma de falar das mulheres, em público. Ela, exposta publicamente, em sua privacidade e quanto à sua saúde, de forma ultrajante, imoral e irresponsável, pelos donos da mídia golpista. (Eles não têm limites!) Justamente ela que, ao contrário, tem-se mostrado profícua, enérgica, decidida, quanto ao que deve  e precisa feito. O momento que vivemos é de uma densidade histórica tão grande, é resultado de processos humanos e históricos tão longos, que nossos 10% de “cabeça animal” não darão conta de deslindar num curto espaço de tempo.

É em nome deste “capital” que devemos nos armar de uma energia revolucionária para “combater o bom combate”, para estar no front dessa luta de ideias, de organização, de alimentação da vida interna coletiva e democrática desse partido que nos trouxe até aqui. E fortalecidos, fazer o embate com os outros partidos e com as ideias e valores retrógrados das classes dominantes. Nossa força e resistência, o relativo e ainda pequeno sucesso das nossas políticas, tudo isso incomoda e ameaça, terrivelmente, os que sempre controlaram este país, os que sempre concentraram renda, riqueza, privilégios e poder. Temos provas irrefutáveis de que sua resposta para nos enfrentar e enfraquecer virá sempre da forma mais insidiosa, desonesta e traiçoeira. Por isso, num sentido muito bom, é preciso cerrar fileiras para a defesa do Partido dos Trabalhadores, fazer o debate interno de forma lúcida, comprometida e fraterna; aumentar o número daqueles e daquelas que acreditam na transformação inadiável e necessária da sociedade, ampliar os canais de diálogo com os movimentos sociais.

Este é o desafio que se coloca para nós. O PT não deve e não pode abrir mão de seus ideais, da ética que sempre defendeu, em nome de quaisquer acordos, pois como sabemos, ao final, eles sempre se resumem em valores capitalistas, machistas e retrógrados. No socialismo “os fins não justificam os meios”, ao contrário do que aconselhava Maquiavel. Foi o compromisso do PT com o novo e transformador projeto de sociedade que o tornou o maior partido de massas deste país e da América Latina. Este é o único capital do qual não podemos abrir mão.

M. Ricardina Almeida

Ricardina, à direita, somando sua voz à Marcha das Vadias, em Brasília. (Foto: Rogério Tomaz Jr.)

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Responses

  1. Que belo texto! Conforta e incentiva!

  2. E um reacender de esperanças.Análise clara e séria.


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