Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 07/07/2011

O preconceito moralista contra o São João e a cultura popular do Nordeste

Acordei hoje e, como sempre faço, dei uma passada pelos meus sites de notícias preferidos para me situar sobre as novidades.

Chamou minha atenção – ou melhor, gritou minha atenção – uma manchete do Congresso em Foco, de matéria assinada pelo repórter Edson Sardinha: “Arraiá da verba pública: para onde vai seu dinheiro”.

A legenda da foto (de uma quadrilha junina) é ainda mais provocativa: “Olha a verba! Não é mentira! Veja para que festas os parlamentares mandaram o seu dinheiro”.

Quando eu ainda estava no curso de Jornalismo, li certa vez um colunista de um jornal de Santa Catarina dizer que havia perdido toda e qualquer compaixão que nutria pelos flagelados das secas que volta e meia afligiam o Nordeste. O motivo: a cobertura das festas de São João nas maiores cidades nordestinas.

Para o colunista, cujo nome não me recordo, bem como do jornal, aquele povo alegre e festeiro não parecia precisar de ajuda para sobreviver após os prejuízos e dificuldades causadas pela falta de água. A “folia” – essa palavra eu lembro de ter sido usada – era tamanha que fazia qualquer pessoa esquecer que mal tinha o que comer em casa. O escriba concluía afirmando (disso eu também lembro) que o povo nordestino “não merecia” o seu sentimento de compaixão.

O sentimento de indignação que tive diante daquele artigo foi exatamente o mesmo que me fez, após ler a reportagem do Congresso em Foco, pular da cama e vir escrever estas linhas.

Embora o texto do Sardinha seja tecnicamente impecável, os detalhes – o diabo está nos detalhes! – evidenciam a mesma lógica insidiosa e preconceituosa que, por exemplo, o PTB tem usado para desmoralizar a proposta de financiamento público das campanhas eleitorais.

Ora, qualquer pessoa com polegar opositor e telencéfalo altamente desenvolvido concordaria sem hesitação em destinar seus recursos à construção de hospitais ou escolas em vez de financiar qualquer evento festivo.

A questão não é tão simples quanto parece, entretanto.

O São João do Nordeste é o segundo maior evento cultural do Brasil, ficando atrás apenas do carnaval, e os seus festejos movimentam centenas de milhões de reais para a economia local/regional/nacional.

O investimento do Ministério do Turismo apontado na matéria (R$ 22 milhões) é ínfimo comparado ao montante que é consumido e circula nas festas juninas do Nordeste e de todo o país.

Mas o elemento principal do São João foi solenemente ignorado pelo repórter, que escreveu o texto mergulhado apenas na numerologia economicista, que muitas vezes oculta a realidade: a dimensão cultural e a natureza de política pública das festas juninas.

É nessa época que milhares de artistas da cultura popular conseguem amealhar alguns míseros reais para manter seus grupos eprojetos durante o restante do ano.

Manifestações como o tambor de crioula, o bumba meu boi, o cacuriá, o coco de roda, o samba de coco, os diversos tipos de maracatu, o maculelê, o cavalo piancó, o pagode de amarante, a ciranda, o espontão, o cavalo marinho, entre muitos outras, têm no São João o seu momento “nobre” do calendário cultural, pois no resto do ano o forró e o axé dominam e abafam quase completamente qualquer concorrência.

Destinar recursos que, indiretamente, vão garantir a existência (não se trata sequer do fortalecimento) da diversidade e pluralidade cultural é promover o direito à cultura. E isso se chama política pública, goste-se ou não de São João ou de quaisquer festas.

Reduzir toda a complexidade (e grandiosidade) dos festejos juninos do Nordeste (e do Brasil como um todo) a uma pecha simplória de “festa” e tratar, ainda que de forma sutil, o seu financiamento como mal uso ou desperdício do dinheiro público é preconceito puro ou ignorância forte.

Que em 2012, mais parlamentares possam destinar emendas da sua cota para financiar a cultura popular e que o investimento dos órgãos públicos no setor seja pelo menos o dobro do que foi investido este ano.

Em tempo: R$ 22 milhões representa 0,001% (um centésimo de milésimo!) do orçamento da União para 2011.

Anarriê!

Rogério Tomaz Jr.
Jornalista cearense, criado no Maranhão, filho de baiano e de coração pernambucano.

Cultura popular não é apenas "festa" (Foto: Micaela Vermelho)

Tambores aquecendo em São Luís (Foto: André Passamani)

=================

Reportagem do Congresso em Foco:

Arraiá da verba pública: para onde vai seu dinheiro

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticia.asp?cod_canal=21&cod_publicacao=37656

PS: Admiro o trabalho do Edson Sardinha, inclusive porque ele fez reportagens belíssimas sobre temas de direitos humanos, mas nessa ele passou do ponto no pirão.


Responses

  1. Muito bom o post. Corrigindo só o “embrro”, (disso eu também lembro) eu suponho; e que 0,001% é um centésimo de milésimo devido ao %.
    Abraço.

    • Valeu, Chico! Corrigido!

  2. Excelente texto, Rogério!

    É muito fácil criticar o nordeste e o norte (e qualquer região) do nosso Brasil, é fácil questionar o direcionamento de verbas quando não se conhece o verdadeiro Brasil de perto… do gabinete ou da bancada fica difícil julgar o que realmente é cultura popular.

    Recomendo que as verbas de viagens sejam melhor utilizadas para desvendar o que há de mais valoroso em nosso país…

    Beijos!!!

  3. Muito bom o texto, Rogério, apesar de achar que o São João é ainda maior que o carnaval, pelo menos – e por incrivel que possa parecer – aqui na Bahia!
    Fico pensando o que o jornalista catarinense pensa do Oktoberfest; se devemos desprezar as vítimas das enchentes catastróficas e ciclicas de Santa Catarina!

  4. Valeu Rogério! Importante reflexão sobre cultura popular e políticas públicas. Bjão

  5. adorei o seu comentario rogerio,muito apropriado,pena q existam pessoas que teimem em reduzir o real valor de algumas coisas.

  6. Muito bem caro amigo! Tuitei, acrescentando a propósito do “moralista”: (Eu diria idiota).

    Xêro mineiribucano

  7. Roger, vc é baooo dimais, sô!! Vixe.

  8. Desandou a farinha mesmo. Ou a Farinha era de má mandioca mesmo…
    Lendo isso me lembro que o Conceito de “modernização”, no Campo da Cultura sempre foi na direção algo que higienizar as manifestações culturais no Brasil, No sentido de aproximar mais com referências externas do que aprofundamento de referências nacionais. Não o Dialogo de diferenças esferas culturais, mas a supremacia de uma pela outra…

  9. Valeu Boi, arrebentou no artigo.
    Abraço
    So pra lembrar, tô de ferias em Palmas, volto dia 22 ou 23 pra Brasilia.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: