Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 25/05/2011

O caráter dos ruralistas e duas lições básicas: hegemonia e correlação de forças

Comentei no Twitter que, em quatro séculos, as maiores evoluções dos ruralistas são o uso da motosserra, da espingarda calibre 12 e da caminhonetes 4×4 em vez do machado, do bacamarte e da liteira.

A isso podemos somar outros tantos sinais da “modernização” da grande burguesia agrária no Brasil, mas nada mudou em relação às suas práticas.

Há quatro séculos os senhores da Casa Grande tiravam seus lucros do Plantation, sistema baseado nas monoculturas de exportação.

Hoje os agroboys desfilam em reluzentes carros importados, mas obtêm seus ganhos exatamente da mesma forma de 400 anos atrás: monoculturas de exportação às custas de um tripé interligado entre si: trabalho escravo, semi-escravo ou de remuneração miserável; devastação ambiental em larga escala, ao arrepio da legislação; e usurpação da terra valendo-se da violência no campo (seja nos rincões do Pará ou na periferia de Ribeirão Preto, a “Califórnia brasileira”) contra quem não aceita servir de engrenagem para esse sistema.

Tais práticas são apenas as consequências práticas do caráter da classe.

No presente, eles ainda possuem isenção de impostos e podem se dar ao luxo de aplicar calote em cima de calote nos cofres públicos.

— A primeira coisa que eu faço quando recebo o dinhêro é separá o da prestação. Mas o dotô recebe o dele e a primeira coisa que faz é comprá camioneta importada e mandá os fio estudá no istrangeiro.

O relato acima é de um agricultor familiar do interior de Goiás. Pobre, porém digno e decente. Talvez, se fosse “esperto”, como os seus vizinhos que vez por outra levantam a poeira na estrada em frente à sua casa, fosse rico embora devedor de dívidas para as quais sempre se dá um jeito de fazer uma “renegociação”, nome que os ruralistas usam para se referir aos calotes.

Ontem, na noite/madrugada em que alcançaram mais uma vitória histórica na longa trajetória de dobrar o Estado aos seus interesses, os ruralistas deram duas lições de conceitos básicos da política.

No plenário da Câmara que votava o novo Código Florestal, uma maioria folgada dentre 513 parlamentares aprovou uma proposta — a emenda 164, que a presidenta Dilma, segundo o deputado Cândido Vaccarezza, considera “uma vergonha” (e eu assino embaixo) — que faria os donatários das capitanias hereditárias sentirem profundo orgulho.

Na galeria e no plenário, ruralistas foram maioria. (Foto: JBatista/Agência Câmara)

A emenda da vergonha deveria trazer em seu caput: “a terra é nossa e fazemos com ela o que quisermos, na hora que quisermos, do jeito que quisermos”. Seria mais sincero.

Além da anistia aos desmatadores, a proposta transfere aos estados a competência de legislar sobre questões fundamentais para a proteção ambiental. Para quem tem como prática usual o suborno (ou a compra mesmo) de “autoridades” do poder público, é muito mais fácil enfrentar o poder de fiscalização menor, em âmbito estadual/municipal, do que se arriscar com órgãos federais que — ainda muito devagar, registre-se — têm avançado no cumprimento do seu papel fiscalizador.

Para os senhores de escravos modernos, ambientalistas não passam de “almofadinhas” (como disse um deputado na tribuna da Câmara, com a baba escorrendo pelos cantos da boca) que querem “entregar as riquezas” do Brasil aos países ricos, uma tese tão estúpida e surreal quanto a mentira** que coloca os grandes produtores como responsáveis pela comida que chega à nossa mesa.

Nesse contexto, uma das coisas mais tristes e bizarras foi ver gente como Paulo Henrique Amorim — o blogueiro apoiador de boas causas, inclusive do MST, de maior audiência do Brasil — aderir a essa tese pseudonacionalista e germinada no seio de grupos ultraconservadores que consideram os seus interesses como os interesses do País.

As lições

Em plenário, arena de disputa no âmbito do Estado, os ruralistas ilustraram muito bem o significado do conceito (de base marxista) de correlação de forças. Base do governo? Centro-esquerda? Nada disso. Na hora  em que interesses verdadeiramente de classe estão em jogo, prevalecem os vínculos de classe.

Entretanto, não foi só isso. Nas galerias, lugar reservado ao público, à sociedade civil, a maior parte das cadeiras estava ocupada por va$$alos apoiadores dos ruralistas. Ainda que argumentem sobre o dinheiro da CNA/UDR, a situação foi simbólica para representar a hegemonia do pensamento conservador não apenas no debate ambiental, mas no conjunto de grandes questões em discussão. Que o digam os defensores (entre os quais me incluo) da aprovação do PLC-122, que torna crime a homofobia.

Estas lições oferecidas pelo episódio Código Florestal são para todos. Especialmente para aqueles que, embora imbuídos das melhores intenções e dos mais nobres objetivos, descolam-se da realidade para sentar na cômoda poltrona da crítica generalizada, que constrói pouco, mas serve para deixar a própria consciência leve.

Sobre o deputado Aldo Rebelo (PCdoB), repito apenas o também já registrei no Twitter: ver um comunista tratado como herói e carregado nos braços dos ruralistas, a pior escória que existe nesse país, me lembra um ditado popular já usado por Eduardo Galeano: “o poder é como o violino: pega-se com a esquerda, mas toca-se com a direita”.

Enfim, como já disse o André Deak num texto que distribuíamos aos calouros de Comunicação da UFMA na minha época de movimento estudantil: “o barquinho segue”.

Rogério Tomaz Jr.

Brasília, 25 de maio de 2011.

*A Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da CNBB, acompanha e analisa há várias décadas a violência no meio rural e produz anualmente o relatório Conflitos no Campo. Só no Pará, mais de 900 líderes ou militantes populares foram assassinados nos últimos trinta anos. Anteontem, outros dois foram vítimas da solução tradicional dos ruralistas, desde o século XVI. Leia aqui sobre o assassinato de José Cláudio Ribeiro da Silva e sua esposa, Maria do Espírito Santo, executados em Nova Ipixuna, sudeste do Pará, por pistoleiros indubitavelmente a serviços de grandes latifundiários do estado.

Diante da consumação do massacre da motosserra na Câmara, Paulo Adário (Greenpeace) disse no Twitter, ontem à noite:

“Brasil acordou hoje com assassinato de + dois líderes extrativistas no Pará e foi dormir com assassinato do Código Florestal.”

**Ao contrário do que diz a turma do Aldo e da Kátia Abreu, mais de 2/3 dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros são produzidos pela agricultura familiar. Duvida? Então informe-se. Deixo, por exemplo, uma notícia da Agência Sebrae: Agricultura familiar responde por 70% dos alimentos do país

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Responses

  1. Muito bom o comentário, Rogério…

  2. Vale comentar também que o Entre Aspas (Globo News) de ontem foi calamitoso.
    Pura promoção do novo texto do Código Florestal, que foi ao ar logo depois da aprovação.

  3. Bom texto, Rogério, parabéns.

    Realmente, foi uma cena deprimente a atuação do Aldo na sessão de ontem. Acompanhei da das galerias e ele foi tratado como herói pelos ruralistas. Sério mesmo: pensei que, ao ser aprovado o código, o Aldo seria jogado pra cima por eles. Como demos no Brasil de Fato, o trator passou sem freio e o Aldo era o piloto desse bonde http://www.brasildefato.com.br/node/6421

    Dialogando com seu texto, acho que a hegemonia deles se fez também pelo verniz popular que deram a medida. O argumento de que a reforma do Código se dava em nome dos pequenos produtores era repetido a exaustão pelos ruralistas. E houve muita dificuldade dos opositores da medida em desconstruir isso. Tentamos fazer isso na versão impressa do Brasil de Fato que foi fechado ontem e já está em circulação, demonstrando que mudanças no código beneficiam os grandes. Assim que essa matéria for pro site, mando pra vc. Abraço.

  4. Foi triste ver a galeria do plenário lotada de engravatados que gritavam e se exaltavam a cada discurso absurdo sobre esse falso nacionalismo e falsa defesa dos pequenos produtores feito por ruralistas. Triste foi ver também que a briga política, do “quem manda aqui sou eu”, tomou conta desse debate tão importante, sobre um tema tão sensível. A partir de um momento na noite de ontem, esqueceu-se que a matéria a ser votada era o Código Florestal. A sessão passou a ser ringue de briga e medição de forças com o Planalto… Lamentável!
    Aliás, vale a pena ler a matéria do Valor Econômico de hoje sobre a reação de ruralistas quando foi anunciado em plenário o brutal assassinato do casal de extrativistas do Pará. Assim entende-se um pouco quem são esses homens do “bem”, que tanto querem o progresso do país… http://www.valoronline.com.br/impresso/politica/100/431971/ruralistas-vaiam-anuncio-de-morte

  5. Camarada, li seu texto e senti uma vontade enorme de que aquelas palavras fossem minhas. E elas eram. Você falou por mim nesse texto. Muito obrigado!

  6. Rogério, agora é o momento de analisarmos o porquê dos ruralistas ganharam. E pretendo apontar alguns caminhos. 1) ideologia. como vc mostrou, os ruralistas são coerentes, mantêm a mesma ideologia desde os tempos jurássicos. o problema é que nem todos os partidos não sustentam isso. por exemplo, o que significa “comunismo” ou “partido comunista” depois que aldo e seus parceiros de partido se uniram ao pior da elite brasileira? pode comunista ficar a serviço do patrão? por acaso isso tem a ver com o marxismo original? nada. 2) a política muda opinião. o pt ficou ao lado dos ruralistas quando foi criada a comissão especial para discutir o código, abrindo mão da mesa, de participação… o pt ficou na moita até o mês passado, quando cobrado por alguns parlamentares do pt e pela sociedade civil resolveu agir. mas agiu com medo, submetendo-se aos ruralistas. salvo, claro, as saudáveis exceções. ainda bem que ainda existe pt dentro do pt. 3) quanto ao governo. o governo ficou amoitado desde o ano passado, e pressionado resolveu agir. mas agiu em defesa dos amigos ruralistas. e fez isso de forma atabalhoada. vacarezza é uma piada. se o governo já é uma piada nesse caso, botar vacarreza para defende-lo se tornou uma piada bem maior. sem contar que, dizem, vacareza tentou driblar o próprio pt fazendo um acordo paralelo com aldo rebelo. isso foi descoberto em plenário. em resumo o pt e o governo fizeram papéis medíocres nessa história. sim, excetuando aqueles parlamentares que sustentaram a posição original independente da imposição governista.

  7. Excelente, meu chapa!

  8. Mandou bem como sempre! Acompanhei o “assassinato” pela TV, mas mudava toda hora, tamanha raiva que ficava ao ouvir tanta mentira absurda! Os caras se auto intitulavam como grandes provedores de alimentos dos brasileiros, quando na verdade a maior parte da produção deles é exportada. Lástima.

  9. Assino embaixo. Parabéns pelo texto e pela contribuição!

  10. Depois da safadeza do PT e PCdoB, que apoiaram os ruralistas, qual partido de esuqerda é confiável?

  11. […] Link direto em: https://brasiliamaranhao.wordpress.com/2011/05/25/carater-ruralistas-licoes/ […]


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