Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 06/04/2011

Poesia do Dia (2)

A saudade tem seus dias contados

(Celso Borges)

antigamente não tinha rush, stress
síndrome do pânico
antigamente não tinha lesão por esforço repetitivo

antigamente não tinha aquecimento global
buraco na camada de ozônio
bomba de hidrogênio, desmatamento florestal
antigamente não tinha desastre nuclear

antigamente não tinha botox, silicone, lipoaspiração
livros de autoajuda vendidos em supermercados
antigamente não tinha supermercados

antigamente não tinha reengenharia
turn key, laptop, second life, workshop
antigamente não tinha binas e bites, bingos e boeings
não tinha nasdaq, dow jones, bolsas de valores
antigamente não tinha títulos de capitalização

antigamente não tinha pistola automática
kalashnikov, napalm, winchester 22
fuzil ar-15, uzi-israelenses
antigamente nao tinha atiradores de elite
balas perdidas e escopetas filhas da puta

antigamente não tinha paparazzi, pesque e pague
placar eletrônico, tira-teima, tarja preta, tráfico de cocaína
antigamente não tinha canalhas escondidos
dentro do ar condicionado

antigamente não tinha sirenes, serasas e senhas
spc, pcc, hiv, cic, rg, fhc, mba, pqp
antigamente não tinha big brother brasil

antigamente não tinha terceira dimensão
quarto poder, o quinto dos infernos
não tinha fotos de fetos dentro da barriga da mãe

antigamente não tinha macabéas, mcdonalds
lindonéias, patricinhas
antigamente não tinha casa de mãe joana
não tinha dobermans, pitbulls, bichos de pelúcia
leões de chácaras, cercas elétricas
antigamente não tinha flores de plástico

antigamente não tinha tanta pressa
preço, prazo de vencimento
não tinha tanto deputado federal
arranha-céus, passarelas
celulares com não sei quantos pixels
antigamente não tinha aeróbica, aluguéis
lojas de conveniência
estacionamentos proibidos, condomínios fechados
antigamente não tinha velório que durava dois meses
(pobre james brown!)
antigamente não tinha cemitérios verticais

antigamente não tinha satélites, encouraçados digitais
nasas, nuvens carregadas de agrotóxicos
antigamente não tinha foguetes espaciais, skylabs
apolo 11, apolo 10, apolo 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… fogo!

antigamente era antigamente
era antigamente era muito pior
antigamente era antigamente
era antigamente era muito pior

são tantas antenas tensas
cavalos caducos
pôneis putos
pastilhas tristes

são tantos cristos cansados
em cima de cruzes pensas
tantos tapetes mágicos voando baixo
arames farpados de nylon sofisticados
cercando falsas fazendas iluminadas

são tantos escarros cuspidos
sobre o vidro lateral dos automóveis
sapos babando sobre magnólias no cinema
britadeiras bordando o buraco dos asfaltos
escadas escuras escondendo silhuetas de simulacros
são tantos becos sem saída
entupindo todos os lados das ruas
caveiras corcundas decrépitas
caminhando sobre lápides estúpidas
são tantas mulatas moluscos
desfilando no fio da navalha

antigamente era antigamente
era antigamente era muito pior
antigamente era antigamente
era antigamente era muito pior

*****

O poema acima foi publicado no Belle Epoque, oitavo livro de Celso Borges, lançado em Brasília no último 23 de fevereiro.

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