Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 18/02/2011

Lição do Egito: a luta se vence na rua

Abaixo reproduzo ótimo artigo que incita reflexão importante para o atual momento.

Não é despropositada a opção da mídia conservadora em exaltar as novas tecnologias e sutilmente desvalorizar o protagonismo das pessoas no processo político que derrubou a ditadura egípcia e abala regimes semelhantes na região.

Militância? Luta política? Nada disso. Que as pessoas fiquem em casa sentadas em frente à TV ou aos PCs, ocupadas com seus filmes, novelas, games ou redes sociais. Enquanto for assim, nenhum risco para o status quo. Esse é o desejo dos (tu)barões da mídia e dos seus líderes políticos.

Felizmente, algumas pessoas pensam diferente. E não limitam sua ação política ao teclado do computador.

“Somos poucos, mas somos poucos em muitos lugares. Então somos muitos!”, diz Preto Nando em uma das músicas do Clã Nordestino.

Isso não acontece quando preferimos ficar em frente ao computador

Segue o oportuno texto de Celso Vicenzi, retirado do site da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas).

http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=3283

16/02/2011 | 23:04

Lição conhecida

A luta se vence na rua

* Celso Vicenzi

A revolução popular no Egito, que derrubou o ditador Hosni Mubarak e seu vice, Omar Suleiman, tem sido saudada como uma vitória das novas tecnologias, pelo papel que twitter, facebook e outras ferramentas tecnológicas de última geração desempenharam na comunicação entre os manifestantes. No entanto, a grande lição dessa vitória popular é uma só: a revolução se faz nas ruas. Foi assim também na Tunísia, onde o ex-presidente Zine El Abidine Ben Ali, no poder há 23 anos, teve que fugir do país após uma onda de protestos.

Toda tecnologia virtual é bem-vinda para facilitar a comunicação entre as pessoas, mas é a ação de gastar a sola de sapato e empunhar cartazes, faixas e bandeiras nas ruas, em direção aos centros do poder, que faz toda a diferença.

Na guerra também é assim. Os militares sabem que nenhuma guerra é ganha apenas com o uso da Marinha ou da Aeronáutica. É preciso ocupar, palmo a palmo, o território inimigo. A verdadeira luta se faz no chão. Desde as primeiras guerras até as atuais, altamente sofisticadas. Os Estados Unidos usaram principalmente a aviação para destruir toda a infraestrutura do Iraque. Mas, quando tiveram que usar seus soldados para ocupar cada rua, quadra ou esquina, as baixas foram se multiplicando e já estão próximas a 5 mil, forçando o governo norte-americano a anunciar a retirada gradual daquele território. Depois do Vietnã, mais uma guerra perdida. E no Afeganistão parece que não será diferente. Ninguém dobra a resistência de um povo disposto a lutar.

Não se deve esquecer que os Estados Unidos e vários países europeus apoiaram o ditador egípcio que, tal qual um faraó, já se mantinha há 30 anos no poder. Cabe questionar também por que a mídia, tão constante em suas críticas a Cuba e ao Irã, por exemplo, nunca se referia ao Egito como uma ditadura. Há muitas outras ditaduras apoiadas pelas principais potências ocidentais – e nunca apontadas pela mídia – que não se cansam, porém, de enaltecer as virtudes da democracia. Mas isso já é outro assunto…

Foi o povo nas ruas quem fez a revolução russa. Foram 11 milhões de trabalhadores e estudantes franceses que inspiraram gerações em todo o mundo, em maio de 1968, a lutar por mudanças. Mobilizações nas ruas foram cruciais para a retomada da democracia no Brasil, com o movimento das Diretas Já. Graças aos gritos que vieram das ruas, o Congresso Nacional tirou do poder o então presidente Fernando Collor de Mello, por meio de um impeachment.

Na internet são muito comuns os abaixo-assinados. Tem para todos os gostos e todos os credos. Eles são importantes para tomar consciência sobre alguns fatos que precisam ser mudados ou para impedir retrocessos e perda de direitos sociais. Mas costumam ser insuficientes para obter sucesso nas causas que defendem. Só mesmo quando milhares de pessoas tomam consciência, se unem nas ruas e pressionam as autoridades, aumentam as chances de vitória. É preciso abandonar o conforto das residências e a comodidade do computador e ir para o meio da rua enfrentar riscos. Que não são pequenos. Estima-se em mais de 300 o número de mortos no Egito, com milhares de feridos. Mas o destemor e a persistência do povo mudaram novamente a história. A luta por mais dignidade e democracia no Egito está só começando. Mas um passo importante foi dado.

Ditadores e seus exércitos fortemente armados nunca resistiram à coragem de um povo que decide levar às ruas e às praças as lutas nas quais acreditam. Sempre que um povo toma consciência da sua força e diz “basta”, a queda de quem o oprime é só uma questão de tempo. No Egito, exatos 18 dias.

Uma lição há muito conhecida e que não devemos esquecer.

* Jornalista, Florianópolis (SC)


Responses

  1. Instrumento é instrumento. Molda e é moldado pelo objetivo, como diria o mal-interpretado Maquiavel. Não é o Objetivo, o objetivo é outra coisa. As confusões causam como consequencias problemas como os notados pela entrevista do Valter Pomar, citada aqui neste mesmo blog.
    Ou o Sarney Trollando o #foraArruda…

    PS.: notaram o cartum do Latuff na Foto?

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Rogério Tomaz Jr., Marcelo Arruda. Marcelo Arruda said: RT @rogeriotomazjr: Lição do Egito: a luta se vence na rua – http://bit.ly/egitonarua – importante reflexão de @celso_vicenzi […]


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