Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 18/02/2011

Folha se autocensura ao falar de censura no Brasil

Na Folha de São Paulo de quarta (16/2), Uirá Machado assina matéria (segue completa ao final do post) que analisa o estado da arte da censura na América Latina.

O subtítulo destaca um aspecto com o qual a Folha colabora:

“No Brasil, o principal problema é a censura judicial, e na Venezuela, a pressão política sobre órgãos de comunicação”

O texto afirma que o “caso mais emblemático” envolve a família de José Sarney, que obteve decisão judicial proibindo O Estado de São Paulo de “publicar reportagens que contenham informações da Operação Faktor (antiga Boi Barrica)”, da Polícia Federal, que tem como principal investigado Fernando Sarney, filho do senador.

Cabe perguntar por que a Folha, ao falar da censura, se autocensurou e não registrou a sua relação direta com o assunto.

Em menos de 12 meses, entre dezembro de 2009 e setembro de 2010, a empresa de Otavinho Frias usou a pressão judicial para censurar dois blogs que fizeram críticas ao seu jornal.

O primeiro caso foi a intimidação ao blogueiro Antonio Arles e o seu Arlesophia:

aqui o post censurado

aqui a Maria Frô conta a história

– e aqui a Maria Frô cita o Rodrigo Vianna com mais repercussão sobre o caso

O segundo caso, ocorrido durante as eleições, está registrado em detalhes aqui:

http://falhadespaulo.tumblr.com

A reportagem de Uirá Machado fala sobre relatório produzido pelo CPJ (Comitê para Proteção de Jornalistas), tendo o jornalista argentino Carlos Lauria — que veio ao Brasil para divulgar um relatório da entidade — como fonte principal.

Será que Lauria está informado da conduta autoritária da Folha? Provavelmente não.

Será que a Folha defende liberdade de expressão apenas para quem não tenha a ousadia de criticá-la? Provavelmente sim.

Se você quiser relatar os casos acima para Lauria, os contatos são:

– blog: http://www.cpj.org/blog/author/carlos-lauria

– e-mail: clauria@cpj.org

Segue a matéria completa. Agradeço a colaboração do professor Wagner Cabral (História/UFMA), que me enviou a reportagem.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1602201122.htm

Folha de São Paulo, quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Para comitê, censura está em um nível preocupante

Relatório sobre ataques à imprensa indica pior situação na América Latina

No Brasil, o principal problema é a censura judicial, e na Venezuela, a pressão política sobre órgãos de comunicação

UIRÁ MACHADO
DE SÃO PAULO

Os casos de censura à imprensa na América Latina estão nos níveis mais altos desde a redemocratização, afirma Carlos Lauría, coordenador do CPJ (Comitê para Proteção de Jornalistas).

Segundo Lauría, responsável pela apresentação do relatório “Ataques à Imprensa em 2010”, divulgado ontem, a situação é preocupante em vários países da região.

“Houve um aumento significativo dos casos de censura em todo o continente, seja por censura judicial, seja pela violência do crime organizado, seja por pressão do Estado”, diz Lauría.

De acordo com ele, o principal problema no Brasil é a censura judicial, embora tenha dito que existam outros problemas, como a pressão política sobre veículos de comunicação e ameaças do crime, “sobretudo de traficantes de droga”.

O caso mais emblemático é o do jornal “O Estado de S. Paulo”, proibido de publicar reportagens que contenham informações da Operação Faktor (antiga Boi Barrica) que envolve familiares de José Sarney (PMDB-AP).

O relatório, que traz um levantamento global sobre o estado da liberdade de imprensa, menciona 44 jornalistas mortos no exercício da profissão e 145 presos. Segundo Lauría, é o maior número nos últimos 15 anos.

Apresentado ontem em diversos países no mundo inteiro (no Brasil, com o apoio da Abraji -Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), o relatório do CPJ é considerado pela entidade um mecanismo para ajudar nas discussões sobre a liberdade de imprensa.

“Quando há censura, não é um problema da imprensa, mas um problema de toda a sociedade”, disse Lauría.

O representante do CPJ deve se reunir hoje com Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal, e com ministros de Estado para discutir os dados do relatório.

OUTROS PAÍSES

O relatório apresentado ontem por Lauría traz outros dados sobre a situação da imprensa na América Latina.

Para o CPJ, a situação é particularmente preocupante em Honduras, onde nove jornalistas teriam sido assassinados no exercício da profissão só no ano passado.

Lauría também cita o México e a Venezuela como dois exemplos negativos. No primeiro caso, por causa das crescentes ameaças do crime organizado, e, no segundo, devido à pressão do Estado.

“[No Brasil] houve uma relação muito ríspida entre imprensa e governo nas eleições, mas é normal, o governante tem o direito de falar. O que não pode é passar à ação, como fez [Hugo] Chávez [na Venezuela]”, disse.

Frase

“A situação da imprensa é a pior desde a redemocratização na América Latina por causa da disseminação do crime organizado porque governos democraticamente eleitos fazem pressão para bloquear a oposição (…) No Brasil, a censura judicial é o problema mais claro”
CARLOS LAURÍA
coordenador do programa para as Américas do Comitê para Proteção de Jornalistas


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