Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 11/10/2010

Tropa de Elite 2: tiro de 12 nas feridas do sistema

Uma frase no final do filme e o título de uma música que acompanha os créditos apontam o principal alvo problematizado pelo filme Tropa de Elite 2:

— O sistema é foda – dita pelo narrador e protagonista principal, o coronel Nascimento.

“Tá tudo errado”, de MC Junior e Leonardo, complementa a frase de Nascimento.

De fato, está tudo errado. E é difícil distinguir mocinhos de bandidos, políticos sérios de corruptos, cidadãos comuns e engrenagens discretas do “sistema”.

Se o primeiro Tropa de Elite foi acusado — equivocadamente — de apologia à mentalidade policialesca que beira o fascismo da limpeza étnico-social, sua continuação não deixa margem para dúvidas sobre a leitura que o diretor José Padilha tem sobre a “questão” da segurança, suas causas e suas consequências.

O início do segundo filme aparenta reforçar a visão policialesca, com requintes do caricaturismo — como o coronel Nascimento chamando Diogo Fraga de “Che Guevara” — tão comum na visão estereotipada que prevalece no senso comum sobre os militantes de direitos humanos.

Engano.

A narração de clímax crescente do coronel  Nascimento me fez lembrar a minha primeira leitura de “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. A cada capítulo, se aproximando da contemporaneidade, ia arregalando mais os olhos e a mente para a iniquidade e para a profundidade das raízes do “sistema”. Aliás, Nascimento não falou, mas nem era preciso. O sistema “foda” tem nome: capitalismo.

 

Coronel Nascimento reconhece a legitimidade da luta dos direitos humanos

 

Voltando ao filme, se é agonizante ver as cenas de violência — muito realistas e bem produzidas, mais ainda do que o primeiro filme, por sinal — que deixam qualquer pessoa assustada, é igualmente forte constatar que a hipocrisia da política institucional é um aditivo do motor que move (e se alimenta da) barbárie urbana-cotidiana-naturalizada e, ao mesmo tempo, envolve quase toda a sociedade numa complexa teia de relações na qual é difícil desatar os nós e chegar à raiz.

Num enredo onde não há julgamento explícito de valores e posições, o militante/deputado Diogo Fraga — infelizmente leva o sobrenome de um fascista de Brasília — acaba representando a posição mais lúcida no filme, mesmo tendo sido ridicularizado no início em várias declarações debochadas e sarcásticas do coronel Nascimento.

Fraga foi inspirado numa pessoa real, o deputado estadual (agora reeleito) do PSol, Marcelo Freixo, valoroso militante de direitos humanos e inimigo número um das milícias no Rio de Janeiro real, que se organizam na forma de máfia, como é citado no filme.

O filme escancara a tomada do Estado pelas relações promíscuas entre dinheiro e poder, pela lógica do “pago, logo mando”.

No mundo das ideias, do debate, Tropa de Elite 2, mais do que um dedo, é um tiro de 12 em algumas das feridas mais profundas do “sistema”. O filme, apesar da contundência, obviamente — como é apenas cinema, arte — não fará sequer cócegas nos próceres desse “sistema”. Tomara que eu esteja errado.

Enfim, como não sou e nem pretendo ser imparcial, mas sempre tentarei expressar minha posição o mais explicitamente possível (inclusive quando não tiver posição/opinião), acredito que o filme de José Padilha (com roteiro dele e de Bráulio Mantovani e argumento dos dois e de Rodrigo Pimentel) é um sutil manifesto a favor da visão de mundo que leva em conta a perspectiva dos direitos humanos, inclusive e sobretudo na problemática da segurança pública.

Assim como existem os “maconheiros” de classe média que alimentam o tráfico de drogas nas grandes cidades, existe uma imensa parcela da população que associa a defesa dos direitos humanos à proteção de criminosos, com contribuição decisiva da grande mídia (Tropa de Elite 2 é da Globo Filmes, vale registrar), que estigmatiza e criminaliza os movimentos sociais e as entidades da sociedade civil que lutam neste amplo campo dos direitos humanos.

José Padilha, importante lembrar, deu um soco no estômago na sociedade brasileira com seu documentário “Garapa”, que retrata a fome e os distintos níveis de insegurança alimentar de três famílias no Ceará, e um tapa na cara (do tipo “acorda pra vida, rapaz!”) desta mesma sociedade com o primeiro Tropa de Elite.

Como disse acima, Tropa de Elite 2 é um tiro de 12 nas feridas do sistema.

É um filme que expõe as vísceras de um sistema corrupto na sua essência. E é um filme de direitos humanos.

Quem está disposto a dar a cara a tapa (ou às balas, como @s militantes de direitos humanos)?

PS: Tropa de Elite 2 passou a ocupar lugar seleto na minha de top 5 filmes favoritos, entre todos os gêneros.

PS2: Duas observações sobre a plateia na sessão que assisti: as risadas generalizadas (e algumas gargalhadas) com as críticas aos “intelectuais de esquerda” que defendem os direitos humanos e os sons de regozijo com a matança dos criminosos. Essa é a nossa sociedade, cristã e indulgente com os crimes de colarinho branco, mas implacável com quem está na parte inferior da pirâmide.

PS3: No mundo real, o ator Wagner Moura (o Coronel Nascimento) gravou mensagem de apoio a Marcelo Freixo nesta eleição, como provavelmente faria o próprio Nascimento. E Moura também declarou apoio à luta do MST. Os vídeos seguem abaixo.

Wagner Moura vota em Marcelo Freixo

Wagner Moura declara apoio ao MST

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Responses

  1. Eu quuueeerrrrrrrrrro ver Tropa de Elite 2!!!!!!!!!

  2. Rogeriolândia,

    você não acha que o filme levanta várias discussões sobre a mídia?

    1 – O apresentador de programa sobre violência que virou candidato e depois deputado

    2 – O deputado/apresentador que usava seu programa para provocar o governador e isso tudo era combinado com o governo para colocar a “opinião pública” querendo mais BOPE…aquele programa que falava que as armas roubadas estariam no morro e a policia deveria invadir…

    3 – A relação do jornal com o governo que impediu o jornal de denunciar a morte da jornalista…

    4 – A falta de apoio do jornal para a jornalista – nem o carro deram pra ela – claro…o jornal estava no esquema como o governo…

    E tem mais alguns momentos em que a mídia é questionada. Pelo menos indiretamente…nesse caso o filme é ainda mais interessante porque coloca a mídia como um dos centros do esquema.

    Abraços,
    Flávio

    • Assino embaixo. Toquei nesse ponto aqui: “existe uma imensa parcela da população que associa a defesa dos direitos humanos à proteção de criminosos, com contribuição decisiva da grande mídia (Tropa de Elite 2 é da Globo Filmes, vale registrar), que estigmatiza e criminaliza os movimentos sociais e as entidades da sociedade civil que lutam neste amplo campo dos direitos humanos”, mas, superficialmente mesmo.

  3. […] Via BrasíliaMaranhão […]

  4. O filme é de fato ‘um tiro de 12 em algumas das feridas mais profundas do “sistema”’ e creio, Rogério que os deuses atendem a seu pedido de ‘ Tomara que eu esteja errado’, pois, mais que cócegas conduz a uma reflexão sobre tal sistema e o papel de cada um de nós nele…a única forma de se fazer isso (que é o primeiro passao para quem saber mudar algo) é suscitar o debate no seio de uma sociedade que pensa que bandido bom é bandido morto, sem atentar para o que de fato mata mais que bandido é esse sistema excludente e cruel… e o filme faz isto…
    Parabéns ao filme e também ao seu post…um cheiro.

    • Cara Heridan, obrigado pelo seu comentário rico em reflexões e provocações ao debate. É como alguém já disse: uma sociedade que cobra a lei do “olho por olho” é uma sociedade caolha.

  5. Caro Rogério
    Você me animou para assistir o Tropa de Elite 2
    Vou colocar seus comentários no meu site.
    abraços
    Paulo

  6. Rogério, já fui ver o filme um pouco preparada pelo seu texto !
    Além das considerações sobre a mídia, a abordagem dos direitos humanos, da política podre do Brasil, um ponto crucial que ficou na pergunta do Coronel Nascimento – Sabe quem financia isso tudo?- É a falta de consciência do nosso papel e de que o dinheiro vem mesmo do nosso bolso. Esse ano fiquei pasmada ainda quando vi gente próxima de mim vender votos. E como vocÊ colocou é tão complexa as relações que fica difícil descobrir as raízes do problema mas é importante debater, buscar clareza para pelo menos fazer cócegas no sistema.
    Agora o pior foi ver gente sair do cinema e não se dar conta da realidade que acabou de passar na cara.. será que pensam ser só ficção?? Essa “ficção” se chama Brasil…

    • É isso, Cris. Acaba o filme e a maioria das pessoas sai imediatamente da sala, como se religassem o cérebro e voltassem a viver suas vidas “reais”. Não consegui levantar da poltrona antes da metade dos créditos e só fui embora quando estes terminaram.

    • Cris, ainda bem que ficastes pasmada com a reação das pessoas (o que demonstra que nem tudo está perdido..ai, do mundo não fosse a indignação de alguns). Mas, voltando aos expectadores do filme..com suas capacidades de agirem como se o mesmo fosse mera ficção..algo surreal…Refletindo como professora entendo que tal reação se justifica pela falta de compreensão e análise dos textos em geral…os leitores foram ao cinema, conseguiram decodificar o que lhes foi apresentado, porém, não puderam compreender sua essência, seu sentido..isso se chama analfabetismo funcional e reflete a realidade de nosos país, realidade esta que o coloca entre os últimos em matéria de desenvolvimento da capacidade de leitura e interpretação de textos.

  7. […] Do blog Conexão Brasília Maranhão […]

  8. Como o próprio coronel Nascimento diz: o sistema só funciona pra pobre! Pra eles não tem impunidade, enquanto que para os mais ricos…..

  9. Assisti ao filme no sábado e até agora não consegui esquecer o tal “tapa na cara” que as pessoas estão tanto falando. Saí perplexa, triste e consciente da realidade que vivemos. Estou ainda muito abalada com o filme. No tropa 1 foi criado um culpado, os jovens viciados da classe média, que sustentam o tráfico. Com o tropa 2, a culpa vai mais longe que nos alcança, os cidadãos comuns que elegem os nossos representantes. Houve um amadurecimento muito grande na reflexão do Coronel Nascimento e isto fez do filme o melhor que já assisti. Nosso sonho que este ao menos possa ser acessível a todos os brasileiros, pois acredito ser essencial para o conhecimento de todos.

  10. Parabéns pelo comentário, tive uma visão errada no início do filme – fazendo parte dos cegos sociais -, num segundo momento percebi a indiferença e, a falta de – me desculpe – vergonha na cara de cada um de nós frente a esse grupo de bandidos. Se nossa linha de conforte está satisfeita que se dane os outros – é triste mas é uma verdade. Um abraço, vou posta seu comentário no meu orkut, se é que você me autoriza.

  11. Acabei de assistir o filme e posso dizer com toda a minha convicção, que foi um “tapa na cara” não só minha mas como de muitos que entenderam a idéia passada, logo esta mais amadurecida que o primeiro, como alguns citaram aqui.
    Uma coisa que vale notar, é o fato de o Coronel Nascimento representar um paradigma seguido por todos, de que ninguém pode interferir no “sistema” cujo este é citado a todo momento no filme,como uma representação da corrupção miliciana. Este paradigma, ao meu ver leva a algo muito maior que seria o capitalismo.
    Do jeito que a educação no nosso país esta indo, o “sistema” sempre vai se auto corrigir, como diz o Nascimento, por isso, se alguma coisa mudar aqui no Brasil, vai ser através de algo muito maior, e na pior das hipóteses envolva até diplomacia, se é quem me entendem…

  12. (texto corrigido)

    Parabéns Deputado Marcelo Freixo, defensor dos direitos humanos e inimigo número um das milícias no Rio de Janeiro real, gostaria de compartilhar alguma idéias a respeito do Filme Tropa de Elite 1 e 2, não podendo deixar de parabenizar José Padilha e Bráulio Mantovani, pois vejo que o Brasil caminha para um rumo certo. Porém não posso deixar de dizer que o problema não é a Segurança Pública, mas sim o Macro sistema composto pelos seus subsistemas, quais sejam, a Polícia, o Ministério Público, o Poder Judiciário e Penitenciário, pois todos devem funcionar em parceria em prol do bem estar da população. As falhas de um comprometem o andamento dos resultados em outros, e infelizmente tem sido a tônica, mas pior do que isso é a corrupção no poder executivo, onde as verbas são destinadas e conduzidas, e acaba por não ter bom emprego, vindo causar várias situações que arrebentam indubitavelmente na mão da polícia militar e civil, uma pelo policiamento ostensivo e a outra pela persecução do autor. A pobreza não é motivo para que pessoas pobres sejam criminosas, mas proporciona e cria ambiente favorável, situações bem demonstradas no filme, colaboradas pelas pessoas de poder aquisitivo. Pra quem leu o livro ROTA 66, O ABUSADO e o SINDICATO DO CRIME, é possível ter uma idéia muito clara do sistema referido pelo “Coronel Nascimento”, o Capitalismo, cria uma via de duas mãos, o problema é que uma sobe e só sobe, e a outra desce e não sobe, e por isso vemos nossos governantes criando programas como “o fome zero”, bolsa família, vale gás, leite fraterno e outros projetos sociais, no entanto é um ledo engano, não dá dignidade para o ser humano, no fundo é mendigar um direito inalienável, é um desrespeito total com o ser humano menos favorecido, é preciso que se estabeleça a igualdade através de oportunidades de moradia, saúde pública, educação e treinamento profissional para possibilitar um melhor emprego para o cidadão. Vale dizer que a corrupção tem sido um foco a ser combatido no Brasil, mas é necessário que se estabeleça uma política seria que incentive o cidadão a denunciar e que o estado garanta sua segurança.
    Obs: Bacharel em Direito e Capitão da Polícia Militar do Paraná
    E-Mail sancarme@hotmail.com ou carmelitosantos@pm.pr.gov.br


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