Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 09/10/2010

Entre os vãos da vida, a arte (se) preenche

Singelo. É a palavra que eu usaria para descrever sinteticamente o documentário “EntreVãos”, o qual tive o deleite de assistir no final de agosto.

O vídeo foi o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Luísa Caetano, na UnB.

Luísa e sua equipe passaram vários dias registrando a vida da comunidade Kalunga, remanescente de quilombos, em Cavalcante, território da Chapada dos Veadeiros, região nordeste de Goiás.

Com mais de vinte horas de imagens, não deve ter sido nada fácil reduzir esse material para uma obra com cerca de vinte minutos.

A partir de uma visão etnolírica — nas palavras da diretora — o vídeo dá voz a vários integrantes de uma família que vive no isoladíssimo povoado Vão de Almas, com enfoque especial a duas irmãs que, literalmente, comandaram a câmera para fazer algumas das imagens.

De forma delicada e sensivelmente simples, o vídeo praticamente transporta quem o assiste — e tem o espírito aberto — para dentro do mundo da família Kalunga retratada.

É um encontro da vida com a arte.

Nele estão lá as palavras, os olhares e os gestos comuns ricos em vida que a correria do cotidiano muitas vezes esconde ou arrefece.

Quiçá logo circule pelo circuito de festivais e caia na rede.

Enquanto apaixonado tanto pela Chapada quanto pela cultura e história da resistência negra e quilombola, minha vontade foi pedir à Luísa uma cópia de todo o material filmado e passar um dia inteiro assistindo.

*****

Durante a produção, Luísa soltou a foto abaixo e, além de tê-la achado linda, lembrei instantaneamente do texto que segue.

A foto é de Ana Paula Rabelo.

Luísa e duas das protagonistas do EntreVãos, Lizeni e Cirlene

“Pontos de vista”

Em algum lugar do tempo, mais além do tempo, o mundo era cor de cinza. Graças aos índios ishir, que roubaram as cores dos deuses, agora o mundo resplandece; e as cores do mundo ardem nos olhos que as olham.

Ticio Escobar acompanhou uma equipe de televisão, que viajou até o Chaco, vinda de muito longe, para filmar cenas da vida cotidiana dos ishir.

Uma menina indígena perseguia o diretor da equipe, silenciosa sombra colada ao seu corpo, e olhava fixo a sua cara, muito de perto, como querendo meter-se em seus estranhos olhos azuis.

O diretor recorreu aos bons ofícios de Ticio, que conhecia a menina e entendia a sua língua. Ela confessou:

— Eu quero saber de que cor o senhor vê as coisas.

— Da mesma que você – sorriu o diretor.

— E como é que o senhor sabe de que cor eu vejo as coisas?

[Eduardo Galeano, Bocas do Tempo, 2004 – tradução de Eric Nepomuceno]

PS: Ticio Escobar é o atual Ministro da Cultura do Paraguai. Algumas fotos dele podem ser vistas nesse link:

http://www.portalguarani.com/obras_autores_detalles.php?id_obras=12495

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