Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 24/09/2010

Essas coisas que fazem a gente pensar…

Sou ateu convicto. Não acredito em “Deus” e considero todas as religiões um mal tolerável — não disse necessário — à humanidade. O fanatismo das religiões, porém, é algo totalmente desprezível e absolutamente dispensável.

Apesar disso, respeito — respeitar algo do qual se discorda, para mim, significa considerar legítimo — as opções de cada pessoa em relação à adoção ou não de religião tal ou qual.

Para nao deixar dúvida, respeito as diversas crenças religiosas, mas não aceito (e combato) os fanatismos que usam uma suposta obediência a valores baseados numa fé que são, via de regra, ostensivamente contraditórios aos valores básicos que se espera de qualquer religião: tolerância, solidariedade e alteridade (no sentido da capacidade de conviver com as diferenças).

Entretanto, embora não acredite na existência de um “Deus”, muito menos único e supremo, simpatizo muito com o candomblé e com o espiritismo. Esta, aliás, é a doutrina afotada por muitas pessoas próximas na minha família, inclusive algumas das quais são referências para mim, como o meu tio Ewaldo, baiano-arretado exportado para o Maranhão, sujeito sereno, inteligente, espírito leve e “cabeçudo” matemático, torcedor do Bahia e do Botafogo, e a minha tia Selma Sileide, uma espécie de segunda mãe que tenho em São Luís. Ambos são espíritas ativos e pessoas que estão no topo da minha escala de admiração e respeito.

Mas não estou entrando madrugada adentro para escrever sobre religião ou sobre minhas referências familiares.

Escrevo para partilhar três situações que me ocorreram nesta quinta-feira e me fazem pensar sobre as coincidências da vida.

1. Logo de manhã cedo, por volta de 6h30 da madrugada (para um notívago ferrenho), li um excelente artigo sobre a Lei da Ficha Limpa, de autoria do meu amigo e xará, Marcos Rogério Souza.

Achei tão bom o artigo que resolvi pedir a ele a versão eletrônica do texto (li no jornal Página 13, da Articulação de Esquerda, tendência interna do PT da qual faço parte, embora não seja militante cotidiano há um bom tempo). Antes que eu lhe enviasse o e-mail, porém, o seu pedido de amizade no Facebook aparecia na minha caixa de entrada. “O pensamento está forte hoje”, pensei, e partilhei com ele a coincidência.

2. No fim da tarde, antes de tomar o café diário num gabinete amigo no meu trabalho, passei na lanchonete para comprar a tradicional porção de pão-de-queijo para acompanhar o delicioso extrato espresso da Coffea arabica.

Diante da prateleira vazia e tendo uma colega de trabalho como testemunha, perguntei ao atendente se sairia nova fornada e se esta demoraria, desejando ouvir um Sim seguido de um Não. Antes de responder, ele olhou para o lado e me mostrou o rapaz que trazia a bandeja ainda fumegante com os bolinhos que são um símbolo de Minas Gerais:

— Pronto, chegou.

Quase soltei uma gargalhada e falei para a Emília que era a segunda vez que meu pensamento se mostrava forte nesse dia, o que a fez sorrir também.

3. Mais tarde fui encontrar o querido amigaúcho Leonardo Melgarejo, ao som do chorinho do Café Senhoritas, que fica ao lado do meu bar preferido de Brasília, o Raízes, do torcedor do Santa Cruz mais ilustre do Planalto Central, o Pablo.

Deixei de ver o jogo do  Fluminense contra o Atlético Mineiro, sem qualquer pudor. Encontrar pessoas queridas e curtir uma boa prosa é muito mais “elevado” do que um jogo de futebol.

De vez em quando, procurava saber quanto estava o jogo. Fiquei feliz quando o Carlinhos fez 2×1 pro meu tricolor e me despreocupei. Quando cheguei em casa, depois de uma derradeira Wexford no Godofredo, soube que o resultado final apontava uma “sonora goleada” (clichê básico da imprensa esportiva) de 5×1 pro time em cuja torcida figuram Nélson Rodriges, Cartola, Chico Buarque, Eric Nepomuceno e este humilde blogueiro sujo (segundo o Serra).

Contudo, enganou-se quem imaginou que o terceiro e final “pensamento forte” do dia havia sido esse. No táxi a caminho para a “Ponta da Asa” (o carinhoso apelido do final da Asa Norte), enquanto pensava na minha fala para o tão esperado casamento da Tamara e do Marcelo, vinha cantarolando “Errare humanun est”, maravilhosa canção — do maravilhoso disco A Tábua de Esmeralda — do Jorge Ben que me ajuda a desacelerar da correria do mundo cão.

O pc em casa fica sempre ligado, com o Winamp tocando sem parar, e quando entro no apê 521 apenas ligo as caixas de som para ver o que dou sorte de escutar, numa lista que, atualmente, reúne 1029 faixas de gente como Nina Simone, Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Clash, The Cure, The Smiths, Gotan Project, Bob Marley, Cypress Hill, Crnaberries, Portishead, Molotov, Los Fabulosos Cadillacs, Queen, Pixies, Queens of Stone Age, Rage Against the Machine, System of a Down, New Order, Pink Floyd, Manic Street Preachers, Rickie Lee Jones, David Bowie, Afghan Whigs, Frank Zappa, Eddie, Luiz Gonzaga, Nação Zumbi, Almaz, Mestre Ambrósio, Lenine, Moska, Sonantes, Novos Baianos… entre vários outros…

Adivinhe que música está tocando quando ligo a caixa de som?

(Você não acredita? Eu também não acreditei…)

“Errare Humanum Est
(Jorge Ben Jor)

Lá lá lá
Tem uns dias
Que eu acordo
Pensando e querendo saber
De onde vem
O nosso impulso
De sondar o espaço
A começar pelas sombras sobre as estrelas-las-las-las
E depensar que eram os deuses astronautas
E que se pode voar sozinho até as estrelas-las-las
Ou antes dos tempos conhecidos
Conhecidos
Vieram os deuses de outras galáxias-xias-xias
Ou de um planeta de possibilidades impossíveis
E de pensar que não somos os primeiros seres terrestres
Pois nós herdamos uma hernaça cósmica
Errare humanum est
Errare humanum est
Nem deuses
Nem astronautas
Ô ô ô ô
Eram os deuses astronautas
Lá lá lá lá
Nem deuses
Nem astronautas
Ô ô ô ô
Eram os deuses astronautas
Lá lá lá lá
Eram os deuses astronautas
Ná ná ná ná ná
Dez
Ná ná ná ná ná
Nove
Ná ná ná ná ná
Oito
Ná ná ná ná ná
Sete
Ná ná ná ná ná
Seis
Ná ná ná ná ná
Cinco
Ná ná ná ná ná
Três
Ná ná ná ná ná
Dois
Ná ná ná ná ná
Um
Ná ná ná ná ná
Zero

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Responses

  1. Sou suspeita pra falar de “coincidências”, elas tem sondado muito minha vida ultimamente, espero que elas me mostrem um caminho. 😛

    Ás vezes é dificil não acreditar que tudo faz sentido. 😛

  2. “Coincidência”, palavra bonita que dá vida aos nossos dias não raramente vazios…
    Acreditar na harmonia que organiza o universo imerso no caos é inventar a própria religião.. na qual o eu é o ser supremo e na qual não estamos errados… Macro e micro se harmonizam assim como os opostos se atraem… esta é a força da vida que pulsa “com os homens, sem os homens e apesar deles”…

  3. Só para constar, A Tábua de Esmeralda é um texto fundamental na Alquimia, onde o autodescobrimento é a chave da potencialidade humana. muito interessante lê-la, (diga-se de passagem, como denconfio que o Jorge bem o fez para escrever as letras deste disco (pelo menos das leituras de alquimia que tenho…)

    http://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A1bua_de_esmeralda

    acredito muito que o universo Às vezes brinca com a gente, feito criança. As vezes temperamental. par amostrar algumas coisas que precisamos ouvir.
    nem sempre ouvimos pois não prestamos atenção, fazer o que…


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