Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 23/09/2010

Breve história do povo mapuche: Eduardo Galeano, Violeta Parra e outros autores

Por força da tradição historiográfica, os mapuches foram chamados, por muito tempo, de araucanos, devido à região por eles habitada. O termo foi rejeitado pelo próprio povo, que reivindicou e reafirmou a sua autodenomiação.

Seguem dois pequenos textos de Eduardo Galeano, extraídos do fabuloso “Memória do Fogo I – Os nascimentos, e três vídeos (uma música de Violeta Parra entre eles) que apresentam um pouco da brava história de resistência e luta do heróico povo mapuche.

Eduardo Galeano – “Memória do fogo I – Os nascimentos”

1553 – Tucapel
Lautaro

A flecha da guerra percorreu todas as comarcas do Chile.

Chefiando os araucanos ondeia a capa vermelha de Caupolicán, o ciclope de braços capazes de arrancar as árvores com raiz e tudo.

Avança a cavalaria espanhola. O exército de Caupolicán se abre em leque, deixa-a entrar e em seguida se fecha e a devora pelos flancos.

Valdívia envia o segundo batalhão, que se arrebenta contra uma muralha de milhares de homens. Então ataca, seguido por seus melhores soldados. Avança gritando a toda carreira, lança na mão, e os araucanos se desmoronam ante sua ofensiva fulminante.

Enquanto isso, à frente dos índios que servem ao exército espanhol, Lautaro aguarda sobre uma colina.

– Que covardia é esta? Que infâmia de nossa terra?

Até este instante, Lautaro foi o pajem de Valdívia. À luz de um relâmpago de fúria, o pajem escolhe a traição, escolhe a lealdade: sopra o corno que leva cruzado no peito e a galope se lança ao ataque. Abre caminho a golpes, partindo couraças e ajoelhando cavalos, até que chega a Valdívia, olha-o na cara e o derruba.

Não cumpriu vinte anos o novo caudilho dos araucanos.

Fonte: Alegria, Fernando. Lautaro, jovem libertador de Arauco. Santiago de Chile, Zig-Zag, 1978.

Exército mapuche vencedor. Jamas vencido!

Violeta Parra – Arauco tiene una pena

O extermínio de uma Nação

*****

Eduardo Galeano – “Memória do fogo I – Os nascimentos”

1599 – La Imperial
As flechas flamejantes

A rebelião estala na costa do Pacífico e os trovões sacodem a cordilheira dos Andes.

Martin Garcia Ofíez e de Loyola, sobrinho de Santo Ignácio, tinha vindo do Peru com fama de caçador incansável e certeiro matador. Lá tinha capturado Túpac Amarú, o último dos Incas. O mandaram como governador ao Chile para que amansasse os araucanos. Aqui, matou índios, roubou ovelhas e queimou sementeiras sem deixar um grão. Agora os araucanos passeiam sua cabeça na ponta de uma lança.

Os índios chamam para a luta soprando ossos de cristãos como se fossem trombetas. Máscaras de guerra, couraças de couro: a cavalaria araucana arrasa o sul. Sete povoados se desmoronam, um depois do outro, sob a chuva de flechas de fogo. A presa se faz caçador. Os araucanos sitiam La Imperial. Prá deixá-la sem água, desviam o curso do rio.

Meio reino do Chile, todo o sul do Bío-Bío, volta a ser araucano.

Os índios dizem, apontando a lança: Este é meu amo. Este não me manda tirar ouro para ele, nem que traga ervas ou lenhas, nem que guarde seu gado, nem que plante e colha para ele. Com este amo quero andar.

Fontes: Eyzaguirre, Jaime. Historia de Chile. Santiago, Zig-Zag, 1977. / Jara, Álvaro. Guerra y sociedad en Chile. Santiago de Chile, Editorial Universitária, 1961.

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