Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 28/07/2010

Como é gostoso se apaixonar de novo

A primeira vez foi em 2004, quando eu morava em São Salvador da Bahia de Todos os Santos (e também dos não tão santos).

Procurei em todos os lugares onde ela poderia estar.

Demorou, mas a encontrei.

Não era uma mulher, mas a capa azul do Bocas do Tempo. O então novo livro de Eduardo Galeano, recém-publicado no Brasil, estava na prateleira de literatura estrangeira. Em algumas livrarias, a depender do título, Galeano pode ser encontrado em História ou até em Ficção.

Levei doze dias para percorrer suas 350 páginas e os primeiros cinco minutos para me apaixonar pelo livro.

Senti emoções muito parecidas com as que O Livro dos Abraços — a mais lírica, doce e intensa obra do uruguaio — despertou, alguns anos antes.

Livro sem contraindicações

Em doses pequenas e concentradas, Bocas do Tempo me fez soltar sorrisos, suspiros e lágrimas, acelerou e apertou o coração — por surpresas tristes e alegres ou por breves instantes de suspense — várias vezes, alimentou a indignação contra as indignidades da vida, muito me comoveu e me moveu a reflexões novas sobre questões antigas e, mais do que tudo, me levou a uma viagem pelo tempo e pelo mundo, por tempos e mundos que eu não conhecia (e a maioria ainda não conheço) e que passaram a fazer parte do meu imaginário (e da minha lista de lugares a visitar).

Não lembro se emprestei ou dei de presente, mas quando cheguei a Brasília, em fevereiro de 2005, o Bocas do Tempo não estava mais nas minhas caixas e estantes de livros.

Nesse tempo, recorri ao arquivo digital por vontade ou necessidade, e dei de presente uma ou outra vez. Apenas na semana passada, depois de perder um voo para o Rio (de onde escrevo agora e acalento cada vez mais o desejo de vir viver aqui algum dia), passei pela livraria do aeroporto e comprei outro exemplar, agora na edição de bolso.

Novamente, bastaram poucos minutos para me apaixonar. Ou, melhor, bastaram poucos minutos para recuperar a paixão que estava adormecida ou ignorada.

Divido com você que lê estas linhas alguns goles desta preciosa obra do Galeano. Se não conseguir se apaixonar, espero que, pelo menos, se encante e fique instigado(a) a ir atrás da capa azul ilustrada por uma imagem da arte peruana de Cajamarca.

PS: Normalmente publico textos sobre o autor acima no blog homônimo deste livro:  http://bocasdotempo.blogspot.com/ — abro exceção hoje para partilhar com mais gente a alegria de estar avançando aquilo que eu e a querida amiga Ana Maria Straube chamamos de “Projeto Galeano”, um livro-reportagem sobre o dito cujo, quiçá finalizado em 2011, ano que marca o 40º aniversário da publicação de “As veias abertas da América Latina”, leitura obrigatória para qualquer pessoa que se sinta parte desse continente situado abaixo do rio Bravo do Norte (ou rio Grande, como é conhecido no lado de cima).

A viagem

Tudo se resume a essa busca?

Orio Vall, que cuida dos recém-nascidos em um hospital de Barcelona, diz que o primeiro gesto humano é o abraço. Depois de sair ao mundo, no princípio de seus dias, os bebês agitam os braços, como buscando alguém.

Outros médicos, que se ocupam dos já vividos, dizem que os velhos, no final de seus dias, morrem querendo erguer os braços.

E assim são as coisas, por mais voltas que se queira dar à questão, e por mais palavras que se digam. A isso, simples assim, se reduz tudo: entre o primeiro bater de asas e o derradeiro, sem maiores explicações, transcorre a viagem.

(p.8)

*****

Os caminhos da água

Parecia simpático. Caetano não o conhecia. O rapaz, que andava pela praia vendendo caranguejos, convidou Caetano para dar uma vola no seu barco.

— Eu bem que gostaria, mas não posso — disse Caetano. — Tenho muito que fazer. Comprar umas coisas, pagar umas contas, ir ao correio…

Acabaram indo. No barco foram ao mercado e ao banco e ao correio a outros lugares. Ao longo da costa, pelas beiradas, penetraram na cidade; e pelo puro prazer de olhar para ela, se demoravam flutuando no mar sereno. E assim aconteceu o segundo descobrimento de São Salvador da Bahia. Uma cidade era a cidade caminhada, esse barulho que jamais se cala, e muito outra era a cidade navegada. Caetano jamais havia andado a cidade assim, pelo lado molhado, pelo lado calado.

Ao cair da tarde, o barco devolveu Caetano à praia onde ele tinha sido recolhido. E então, ele quis saber como se chamava aquele rapaz que tinha revelado para ele aquela outra cidade que a cidade era. E de pé sobre o barco, o corpo negro brilhando contra a luz do último sol, o rapaz disse seu nome:

— Eu me chamo Marco Polo. Marco Polo Mendes Pereira.

(p.69)

*****

Os sete pecados capitais

De joelhos no confessionário, um arrependido admitiu que era culpado de avareza, gula,luxúria, preguiça, inveja e ira:

Jamais me confessei. Eu não queria que vocês, os senhores padres, gozassem mais que eu com meus pecados, e por avareza os guardei para mim.

Gula? Desde a primeira vez que a vi, confesso que o canibalismo não me pareceu tão mau assim.

É luxúria isso de querer entrar em alguém e perder-se lá dentro e nunca mais sair?

Aquela mulher era a única coisa no mundo que não me dava preguiça.

Eu sentia inveja. Inveja de mim. Confesso.

E confesso que depois cometi a soberba de acreditar que ela era eu.

E quis romper esse espelho, louco de ira, quando não me vi.

(p.18)

*****

História clínica

Informou que sofria de taquicardia toda vez que o via, mesmo que fosse de longe.

Declarou que suas glândulas salivares secavam quando ele a olhava, mesmo que fosse por acaso.

Admitiu uma hipersecreção das glândulas sudoríparas toda vez que ele falava com ela, mesmo que fosse apenas por cortesia.

Reconheceu que padecia de graves desequilíbrios de pressão sanguínea quando ele a roçava, mesmo que fosse por engano.

Confessou que por ele padecia de tonturas, que sua visão se enevoava, que seus joelhos afrouxavam. Que nos dias não conseguia parar de dizer bobagens e que nas noites não conseguia dormir.

— Foi há muito tempo, doutor — disse. — Eu nunca mais senti nada disso.

O médico ergueu as sobrancelhas.

— Nunca mais sentiu nada disso?

E diagnosticou.

— Seu caso é grave.

(p.15)

*****

Aranhas

Passinho a passinho, fio a fio, o aranho se aproxima da aranha.

Oferece música, transformando a teia em harpa, e dança para ela, enquanto pouco a pouco vai acariciando, até o desmaio, seu corpo de veludo.

Então, antes de abraçá-la com seus oito braços, o aranho envolve a aranha na teia e a amarra bem amarrada. Se não amarrar, ela o devora depois do amor.

O aranho não gosta nem um pouco desse costume da aranha, e por isso ama e foge antes que a prisioneira acorde e exija o serviço completo de cama e comida.

Quem entende o aranho? Pôde amar sem morrer, teve manha para cumprir a façanha, e agora que está a salvo de sua sanha, sente falta da aranha.

(p.24)

*****

Verderias

Quando o mar já era mar, a terra não passava de uma rocha nua.

Os liquens, vindos do mar, fizeram as campinas. Eles invadiram, conquistaram e verdejaram o reino da pedra.

Isso ocorreu no ontem dos ontens, e continua ocorrendo. Onde nada vive, os liquens vivem: nas estepes geladas, nos desertos ardentes, no mais alto das mais altas montanhas.

Os liquens vivem enquanto dura o matrimônio entre as algas e seus filhos, os fungos. Se o matrimônio se desfaz, se desfazem os liquens.

Às vezes, as algas e os fungos se divorciam, por incompatibilidade de gênios. Elas dizem que eles as mantêm trancadas e não as deixam ver a luz. Eles dizem que elas os deixam entalados e enjoados de tanto açúcar que lhes dão, noite e dia.

(p.10)

*****

Caracóis

Pedimos ajuda aos deuses, aos diabos e às estrelas do céu. Aos caracóis, ninguém pede.

Mas graças aos caracóis os índios shipibos não morrem afogados cada vez que o rio Ucayali fica de mau humor e suas águas alvoroçadas invadem a terra e atropelam tudo que encontram pela frente.

Os caracóis avisam. Antes de cada calamidade, deixam seus ovos grudados nos troncos das árvores, bastante acima da altura onde as águas chegarão. E jamais erram o cálculo.

(p.78)

*****

Camarões

Na hora dos adeuses, os pescadores preparam suas tarrafas nas costas do golfo da Califórnia.

Quando o sol, bruxo velho, chispa sua chispa final, as canoas já deslizam entre as ilhotas da costa. E lá, esperam pela lua.

Durante o dia, os camarões estiveram escondidos no fundo das águas, grudados no barro ou na areia. Mal a lua se deixa ver no céu, os camarões sobem. A luz da lua chama por eles, e lá se vão. Então os pescadores atiram as redes, dobradas nos ombros, e as redes se abrem feito asas no ar e, na queda, os agarram.

Assim, viajando rumo à lua, os camarões encontram sua perdição.

Ninguém diria, ao vê-los, que esses bichos barbudos têm tamanha tendência à poesia, feiosos do jeito que são; mas qualquer boca humana, ao saboreá-los, comprova.

(p.81)

*****

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Responses

  1. Sempre é bom apaixonar-se novamente.
    Bjks

  2. Obrigada! Sempre é bom ler e reler o Galeano.
    Também sou uma eterna apaixonada pelo Livro dos Abraços.

  3. Você me levou em sua leitura, Camarada!

  4. […] Galeano, Bocas do Tempo, 2004 – tradução de Eric […]

  5. Também dei de presente o meu, pela terceira vez, e estava precisando ler “a viagem”. Obrigada!
    Obs: Será você o Rogério que também estava na Enecos pelas bandas de 2000?
    Abraço!

    • Sim, fui da ENECOS nas gestões 2001 e 2002. Você é a Giselle Koszo?


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