Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/07/2010

Dois personagens de Brasília

Reproduzo abaixo bela crônica do Marcelo Torres, colunista informal do Conexão Brasília Maranhão.

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Crônica escrita em 4 horas, numa tarde de domingo, 18.08.2010. É para ser lida em 4 minutos, numa terça-feira à noite, quando você tiver um tempinho…

Dois personagens de Brasília

Marcelo Torres*

Brasília tem dois tipos de “moradores” que são a cara da cidade. Dois retratos, duas “instituições” que marcam o cotidiano da capital do país.

O primeiro não é benquisto por essas bandas, um tipo meio que maldito e bastante temido. Ele é um jovem brasiliense e pode ser visto na cidade a cada dois quilômetros. Está sempre firme, ligado. É um tipinho imponente, todo-poderoso, infalível, absoluto. E mais: ele é frio, calculista, impassível, rigoroso. Mas, reconheçamos, ele faz a lei num piscar de olhos – dura lex, sede lex. Ele é um dos olhos da lei.

Seus inimigos e desafetos, que não são poucos, vivem reclamando que ele só age às escondidas, meio disfarçado entre árvores, sempre à espreita para entrar em ação. Escondido ou não, ele é tido e havido como uma estranha criatura, um ser esquisito, parece até um extra-terrestre. As pessoas, sejam elas do bem ou do mal, tomam todo o cuidado do mundo ao passar por ele. Pelo que se sabe, ele nunca matou índio nem garçom, e ainda assim é temido, é muito temido esse jovem brasiliense.

Já o outro tipo, que é seu xará, não tem lá esse poder todo nem é maldito ou temido, ao contrário, parece um coligado seu, um amigo que entra na sua casa e come à mesa. Uns o vêem como um folgado e entrão. Mas a maioria o tem em boa conta. Ele nasceu na Europa há um bom tempo, portanto já é um velhinho. Chegou ao Brasil pelo Rio de Janeiro, chamado para combater a febre amarela. Foi um dos pioneiros de Brasília, onde vive de comer migalhas, restos de comida.

Uns místicos e supersticiosos falam que a presença deste atrai insucessos, desgraças, infortúnios. Outros dizem que ele é querido e bem recebido em alguns países europeus; quando ele chega lá e canta, é sinal de boas novas, uma chuva esperada, uma surpresa agradável, um desejo realizado.

Bom, meus caros, antes que vocês morram de curiosidade, eu vou lhes dizer quem são esses tipinhos de Brasília: são os pardais; sim, os dois tipos de pardais que habitam essa cidade.

Os pardais dos primeiros parágrafos são os radares que fotografam placas de carros que ultrapassam os limites de velocidade. Já os pardais dos outros parágrafos são aquelas aves de nome científico passer domesticus, ou seja, os pardais propriamente ditos.

O pardal chato

Os primeiros pardais vivem presos nos postes, não têm asa nem pena, portanto não voam – mas multam sem pena, multam que é uma beleza. Já os outros vivem soltinhos da silva, leves, folgados que só eles – têm asa e pena, portanto voam, mas não multam ninguém.

Os de pena e asas foram pioneiros em Brasília, como se Dom Bosco lhes tivesse revelado em primeira mão o suposto sonho que falava de uma terra prometida, que seria aqui nesses paralelos, de onde haveria de jorrar leite e mel – só que até agora não jorrou foi nada.

Os pardais povoam a cidade, às vezes parecendo seus únicos habitantes, os últimos.

O pardal alegre

Os de pena velam mortos nas cercas do cemitério, disputam milho com pombos na Praça dos Três Poderes e cagam na cabeça da “Ceguinha” – o apelido da escultura que fica na frente do prédio do Supremo Tribunal Federal.

Eles ficam olhando a tudo e todos do alto dos prédios e fios elétricos. Depois voam para as árvores e para os parques, para cantarem com as gralhas, com as cigarras, com os bem-te-vis. Não raro beliscam migalhas na solidão do asfalto.

É cena comum, em Brasília, um pardal entrar na sua casa ou apartamento, no momento em que você senta para tomar café ou almoçar. Ele chega em silêncio, pousa à janela e fica olhando; se você o espanta, ele voa, vai embora; se você cala – como a consentir- , ele pula para a mesa ou para o chão, bica uns tiquinhos de alimentos, dá três saltinhos e voa de volta para a rua, feliz da vida.

Mas não é fácil a vida do passer domesticus em Brasília, que é uma cidade cheia de prédios espelhados, como se fosse a cidade dos espelhos. Nesses edifícios, eles não entram de jeito nenhum, ao contrário, muitos deles morrem ao se chocarem com as paredes espelhadas. Um desses prédios é a suntuosa sede da Procuradoria Geral da República (PGR), onde quase todo dia um funcionário recolhe os passarinhos mortos sobre os pés das paredes.

Por outro lado, os pardais multadores, ou seja, os radares, têm uma história curiosa. Eles “nasceram” em Brasília, portanto são brasilienses – ou candangos. Aqui eles surgiram em 1996, no Eixão. Foram dois, um na 111 da Asa Norte e outro na 110 da Asa Sul. Ou seja, os pardais nasceram nas asas desse avião chamado Brasília.

O pai da criança foi o ex-governador Cristovam Buarque. E quem o batizou de pardal foi um tal Moysalvo Albergarria, que era motorista de Luiz Miúra, diretor do Detran à época. A história é narrada pelo jornalista Antonio Vidal, no livro “É possível: as realizações do engenheiro Cristovam Buarque rumo a uma nova esquerda”, publicado pela Geração Editorial em 2006.

Li no livro que o então diretor do Detran queria que o nome do aparelhinho fosse pica-pau. Chegou a chamá-lo por esse nome, mas a ideia não vingou. Eu fico cá pensando: esse aparelhozinho deveria ser chamado de corvo, ou águia, ou urubu, ou coruja, corujão, corujinha, falcão. Mas o que “pegou” mesmo foi pardal.

O motorista de Miúra, Moysalvo Alberagarria, era alvo de gozações e cobranças sempre que levava o chefe para algum evento e ficava aguardando a hora de ir embora no meio de outros motoristas. ‘Pô, Moysalvo, seu chefe quer acabar com a gente. Agora, é multa toda hora’, diziam. Em um desses encontros, Moysalvo respondeu que o sistema agora estava mais sofisticado. ‘É melhor vocês terem mais cuidado ainda porque, de agora em diante, o diretor está contratando uns pardaizinhos que vão ficar nos postes e vão dedurar quem correr demais’, disse. Miúra contou o caso a um jornalista, que publicou a história e o nome pegou. Os radares viraram pardais e são chamados assim em praticamente todo o país. Anos depois, já aposentado, o ex-diretor do Detran não resistiu e fotografou uma placa que viu no interior do Rio Grande do Sul. “Rodovia fiscalizada por pardal”. Mandou a foto para Moysalvo.” [VIDAL, 2006, p.163]

Eis aí a história desses xarás que são personagens da vida brasiliense. Aqui, não tem jeito, todo dia, de dia ou à noite, você vê os pardais. E não adianta você se esconder, pois eles também estão de olho em você. Sorria, você está sendo filmado. Filmado pelos pardais.

* Marcelo Torres, baiano radicado em Brasília, contato marcelocronista@gmail.com

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