Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 01/07/2010

Para entender a paixão argentina pelo futebol

[Texto dedicado à querida amiga argentina Lia]

Alteridade. Ouvi essa palavra pela primeira vez na vida numa aula de Antropologia – claro! – durante o segundo semestre do curso de Jornalismo.

O conceito explicava e nomeava um tipo de prática que eu já cultivava há longa data, movido pela curiosidade e pelo instinto, diante qualquer coisa desconhecida e, ao mesmo tempo, instigante.

“Tornar natural o que parece exótico e tornar exótico o que parece natural”, foram, em resumo, as palavras do professor.

A compreensão (e a incorporação) daquele conceito poderia me ajudar a entender porque os argentinos consideram Maradona o maior jogador da história do futebol, um tema que sempre me deixou inquieto.

Os dois maiores

Obviamente, com o olhar de quem nasceu e foi criado no Brasil, vendo todas as histórias e imagens – belíssimas – que nos bombardeiam de Pelé, seria absolutamente impossível concordar com os argentinos.

Por outro lado, com o olhar de quem jogou – em nível de competição – basquete durante treze anos, desenvolvi uma tese que pode soar estranha, mas a mim faz muito sentido e acalmou minha inquietação sobre esse assunto.

Pelé é o Michael Jordan do futebol. Sem sombra de dúvida, foram os atletas mais completos, competitivos, dominantes e vencedores que passaram pelos seus esportes, alcançando marcas e registrando lances tão fabulosos que os tornaram mitos no cenário esportivo em âmbito mundial.

No basquete, Maradona e Pelé jogaram na mesma época...

Maradona, por outro lado, é o Magic Johnson dos gramados.

Para quem conhece pouco o esporte da bola laranja, recomendo a leitura do excelente “Minha vida”*, autobiografia de Earvin “Magic” Johnson que encanta qulquer pessoa, sem precisar jamais ter visto uma partida de basquete.

Em síntese, Magic foi o Picasso das quadras. A qualidade estética no jogo de Jordan também era muito forte. Em Magic, porém, o seu estilo era o suprassumo da arte elevada à enésima potência. E, além disso, pelo caráter e pela posição que jogava (armador, o “cérebro” e “general” do time), Magic também se notabilizou pela sua liderança e carisma, que ultrapassaram, e muito, os limites das quadras.

...e até no mesmo time, o Dream Team dos Jogos de Barcelona em 1992 (com Larry Bird, o Beckenbauer do basquete).

A força mental – ou a “inteligência emocional”, como se diz hoje – de Magic Johnson era algo absolutamente impressionante. E as histórias a respeito disso são inúmeras**.

Tal como Maradona, Magic teve problemas sérios no final da carreira. Descobriu que era portador do vírus HIV e foi forçado a abandonar o esporte precocementem aos 32 anos. Ainda tentou voltar alguns anos depois, mas sem o mesmo sucesso e sem confiança, inclusive dos adversários, que temiam enfrentar um jogador com AIDS.

Nos EUA – definitivamente, o país do basquete – e mundo afora, a opinião acerca da superioridade de Michael Jordan prevalece, mas as divergências existem e são muitas. Eu mesmo, fã do Chicago Bulls (time de Jordan), tenho meus conflitos de consciência de vez em quando.

Magic se tornou porta-voz global nas campanhas de prevenção e tratamento da AIDS. E Maradona sempre infernizou carolas e hipócritas de plantão e se manifestou muito contra a máfia militarizada representada pelo governo de Bush Jr. e seus asseclas.

Voltando ao assunto principal, é ponto pacífico pensarmos no Brasil como “o país do futebol”, como o povo mais apaixonado por este esporte no mundo.

Se alguém se esforçar para praticar a alteridade nesse tema, mergulhando no universo cultural argentino e tentando entender o ponto de vista dos nossos vizinhos, talvez RELATIVIZE (o que não significa abandonar) essa nossa convicção – e, quiçá, talvez até ENTENDA (o que não significa concordar com) as razões que levam os hermanos a considerarem Maradona o número 1.

Para estimular esse outro olhar, deixo alguns vídeos. Registro de antemão que considero a Quilmes uma péssima cerveja, mas os publicitários dela são muuuuiiito melhores que os da Brahma ou os do Itaú… é até piada fazer a comparação das peças daqui (frias, preconceituosas e sem alma) com as deles…

Tente assistir e não se arrepiar (ou não ter vontade de dizer “bem que poderiam fazer umas pro Brasil desse jeito”).

Peça da Quilmes para a Copa de 2010
(especial para quem critica La Mano de Dios em 86)

Peça da Quilmes para a Copa de 2006 (a minha preferida)


A versão com legendas em português está aqui.

Peça da Quilmes para a Copa de 2002
(com os jogadores da seleção encarnando o sentimento popular)

Peça da Quilmes para a Copa de 1998
(“El fútbol no se piensa, el fútbol se siente”)

*****

*“Minha vida” foi um dos livros mais prazerosos que li até hoje. Quem me deu, de presente, foi a querida Lyana Ribeiro, que também partilhou comigo a paixão pelo basquete.

**: Uma das histórias mais impressionantes do Magic Johnson ocorreu já na sua primeira temporada como profissional. Aos 20 anos, na série final do campeonato, o melhor jogador do seu time – o legendário Kareem Abdul-Jabbar, até hoje recordista de pontos na história da NBA, duas décadas após se aposentar – se machucou e não poderia jogar a sexta partida. Magic, que jovaga em outra posição, assumiu a responsabilidade para si, jogou na posição de Kareem e fez uma partida monstruosa: 42 pontos, 15 rebotes e 7 assistências. Assista ao vídeo e conheça (ou relembre) um dos momentos mais marcantes na história do basquete:

PS2: Para converter vídeos do Youtube em arquivo mp3, use esse site:

http://www.video2mp3.net

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Responses

  1. maravilhosas propagandas da quilmes,concordo contigo sobre a paixao dos argentinos pelo futebol.
    acabei de assistir apos o fim do encontro com a holanda,engraçado mas eu sabia que a argentina merecia ganhar a copa e acho que assim sera.a garra deles e tremenda!o brasil jogou de forma fraca desde o começo(e eu estava torcendo por ele)mas desde que assisti o jogo da argentina com o mexico percebi que eles poderiam ser os mapeoes desta copa.
    abraços e força argentina!
    america latina esta de parabens !

  2. Gosto mais dessa oh!

    Não é da Quilmes, mas é muito boa!


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