Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 22/06/2010

Saramago, Veja e a era do grunhido

Já há alguns anos, nada me surpreende na revista Veja.

Chamar de panfleto da ultradireita a publicação da editora Abril é eufemismo – e deve soar como elogio para eles.

Embora sempre consiga se superar em matéria de infâmia e antijornalismo, a Veja não representa mais do que o grito de desespero de uma parcela da sociedade brasileira que não aceita o fenômeno inevitável da perda constante e crescente do seu poder político sobre os destinos da nação.

Após a morte da cantora argentina Mercedes Sosa, que cultivou o pecado (para os editores da Veja e os donos da Abril) de ser militante nas lutas contra as ditaduras da América Latina, a revista não perdeu a chance de registrar um deboche na forma de obituário (edição de 14/10/2009), na seção Datas:

“Mercedes Sosa, a cantora do bumbo argentina. Dia 4, aos 74 anos, de doenças associadas ao subdesenvolvimento latino-americano, como o mal de Chagas, em Buenos Aires.”

Ao escárnio de Veja, o amigo Washington Araújo respondeu muito bem, em artigo publicado no Observatório da Imprensa (clique aqui).

Já em maio passado, Felipe Milanez, então editor da revista National Geographic Brasil, publicada no Brasil pela editora Abril, foi demitido por ter criticado via Twitter uma matéria – aquela bizarrice chamada de reportagem sobre os antropólogos e os povos indígenas no Brasil – da maior fonte de anunciantes da empresa, a Veja. Detalhes do episódio aqui.

Sem falar que um dos sócios da Abril é o grupo Nasper, um dos sustentáculos ideológicos e principais beneficiados do apartheid na África do Sul. Sobre isso, o Altamiro Borges fala melhor no artigo “Racistas controlam a revista Veja”.

A mais recente torpeza da revista – que foi dissecada ainda viva pelo Luis Nassif (aqui) – é contada abaixo no excelente artigo do Flávio Gomes – de quem já era fã pelos comentários francos e afiados na ESPN Brasil.

Legal foi ter recebido o texto por várias fontes. Do amigo mineiro Thiago Maia – o criador do inesquecível mantra das madrugadas dos encontros de comunicação, o “ninguém dorme” – veio até com menção especial: “Pensei em você quando li o texto abaixo”.

Após o artigo, segue vídeo feito pelo Thiago e por outro mineiro arretado, o Mateus Brandão.

A era do grunhido

http://colunistas.ig.com.br/copa2010flaviogomes/2010/06/19/563/

Flávio Gomes*

O Brasil tem uma revista semanal, “Veja”, que se considera a maior do país. Deve até ser mesmo, sei lá quais são os critérios, não sei quantos leitores tem, quanto fatura, não me interessa. Deixei de assinar essa porcaria anos atrás, já não me lembro se por algum motivo específico, ou se foi, apenas, porque um dia peguei na porta de casa e me espantei: eu ainda gasto dinheiro com esta merda?

Tal revista perdeu a relevância, para estabelecer um marco, depois da queda de Collor de Mello. Naqueles anos de impeachment, as semanais deram vários furos, foram importantes, descobriram coisas. Depois, sumiram. Hoje, a “Veja” é reduto de uns caras chiliquentos como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes. “Ah, você não lê, como sabe?”, vai perguntar alguém.

Eu de tudo sei, tudo conheço. Piadinha interna.

Mas não quero falar aqui dessas figuras ridículas que acham que escrevem bem e que se julgam parte de algum grupo de pensadores contemporâneos, já que são cheios de fazer citações by Wikipedia e com elas impressionam seus leitores babacas. O que escrevem e dizem, para não ofender demais, repercute entre eles três e seus leitores babacas, todos compartilhados. Eles detestam o Lula e o PT, e é tudo que conseguem exprimir com sua verborragia enjoativa e padronizada. Mas dali não sai, suas opiniões e ataques histéricos contra o que chamam de esquerda brasileira não têm importância alguma, não produzem eco algum.

Só que a capa da “Veja”, embora a revista seja uma droga indizível, tem importância, sim. Afinal, ela é vista por alguns milhões de pessoas, repousa amarrotada durante meses em mesinhas de consultórios médicos, dentistas e despachantes, e as pessoas a notam nas bancas de jornais, ao lado de mulheres peladas. E algumas pessoas ainda puxam assunto em mesas de bares e restaurantes dizendo “li na ‘Veja’”, e tal. São os “formadores de opinião”. Uau.

E aí aparece aqui na minha frente, no estúdio da rádio, a ”Veja” que foi hoje às bancas. Na capa, “CALA BOCA GALVÃO”, uma foto do narrador da Globo, e está dada a senha para uma pretensa reportagem séria de sete páginas, um “box” e três gráficos sobre o poder do Twitter, motivada por uma bobagem infanto-juvenil que nem os “tuiteiros” levam muito a sério, lançada no dia da abertura da Copa. Aliás, nem o Galvão levou a sério, claro, porque discutir um uma “hashtag” de Twitter é como sugerir um seminário para analisar a musicalidade de uma vuvuzela, ou um congresso sobre comunidades bizarras do Orkut.

Ontem morreu José Saramago. O maior escritor da língua portuguesa mereceu desse semanário indefensável meia página, com uma foto e uma legenda editorializada, porque ”Veja” tem opiniões formadas até sobre índice e numeração de páginas. Diz a legenda: “ESTILO E EQUÍVOCO”, reduzindo Saramago a isso, a alguém que tinha estilo e era equivocado, para atacar as posições políticas e religiosas do escritor, comunista e ateu.

Alguém ser comunista e ateu, para a “Veja”, é algo mais condenável do que estuprar a mãe no tanque. “Ao lado da criação literária, manteve-se sempre ativo, e equivocado, na política”, diz o texto pastoso, que nem assinado foi. Uma pobreza jornalística inacreditável. “Nos países cujos regimes ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila”, encerra o autor. Como é que alguém pode escrever uma merda desse tamanho? Será que essa gente não tem vergonha do que coloca no papel?

Pois todas as palavras ditas e escritas por Saramago, capaz de obras-primas da literatura universal como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Todos os Nomes”, “Memorial do Convento”, “Caim”, “Jangada de Pedra”, mereceram da “Veja” meia página, enquanto três palavras bobas espalhadas pelo Twitter foram parar na capa da revista e em sete de suas páginas.

O que mais me atormenta, quando vejo essas coisas, é saber que graças a decisões editoriais como essa, uma babaquice como o “CALA BOCA GALVÃO” assume, diante dos olhos e do julgamento dos retardados que levam tal revista a sério, uma importância bem maior do que a vida e a obra de Saramago.

Saramago pedindo um café a sua esposa tem mais conteúdo, provavelmente, do que todas as edições juntas de “Veja” dos últimos 15 anos. Ele tinha razão, quando falava do Twitter — não se enganem, Saramago tinha até blog, não era um velhote vivendo numa caverna. Numa recente entrevista por e-mail a “O Globo”, disse: “Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.

Pois a “Veja”, hoje, inaugurou a era do grunhido impresso.

*Flavio Gomes torce para a Portuguesa e, portanto, é neutro quando fala de futebol. Torceu pela seleção brasileira pela última vez em 1986, com dó da geração de Zico, Sócrates & cia. Acha a “pachequice” que toma conta do Brasil em época de Copa a coisa mais brega do mundo. E se cruzar com o Felipe Melo na rua, não vai saber quem é.

*****

Veja para não ver mais

Você lê a Veja? Azar o seu.

Anúncios

Responses

  1. A Veja tenta me coagir todos os anos.Todos os anos recebo 6 edições grátis e nunca assino.Não sei porque eles continuam tentando.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: