Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 18/06/2010

Noite passada um disco salvou minha vida

A frase acima é o título do livro organizado pelo jornalista Alexandre Petillo, reunindo depoimentos sobre “70 álbuns para a ilha deserta”, publicado pela Geração Editorial.

Idéia bem bacana e concretização excelente do projeto, que tem a participação de muita gente que manja do riscado: André Abujamra, Leo Jaime, Lô Borges, José Telles, Maurício Kubrusly, Jotabe Medeiros, Lulu Santos, Dinho Ouro Preto, Pitty, Zé Renato, Juca Kfouri e muitos outros ilustres ou nem tanto, mas igualmente preciosos em seus relatos.

Nina Simone

Mas o motivo desse texto é falar sobre uma das mais belas vozes que já tocou musicalmente a alma da humanidade. E isso é muito pouco para falar da sua dona.

A vida de Nina Simone foi tão intensa e grandiosa (clique aqui para saber mais) quanto as suas virtudes artísticas, embora sejam ambas – a biografia e a própria música dela – bem menos conhecidas do que mereceriam.

Para se apaixonar por Nina, não é preciso gostar de blues ou de jazz ou de qualquer outro ritmo gravado por ela – inclusive o reggae. Basta colocar uma música dela, fechar os olhos e deixar os ouvidos se conectarem ao coração, que é onde, de fato, escutamos as músicas que tocam nossa alma.

Voz altiva na música e ativa na defesa dos direitos d@s negr@s

Entretanto, para explicar com mais profundidade e precisão o sentimento que tenho pela Nina, ainda mais em tempos recentes, tomo emprestadas as palavras da jornalista e escritora Clarah Averbuck no livro do Petillo, que falam sobre um disco seminal da mulher batizada como Eunice Kathleen Waymon.

Em seguida, alguns vídeos e links para quem desejar se deliciar ao som da diva.

*****

“Nina Simone Released”

O blues é a raiz. Todo o resto são os frutos. Por que algumas frases perdem a poesia quando traduzidas? Bom, perdem a poesia mas não o significado. O blues é a raiz de tudo. De todo o rock que escuto hoje. Quando os brancos tentaram tocar blues, saiu o rock. E cá estamos nós hoje no mundo do rock, tão longe da simplicidade e da singeleza e da tosqueira do blues. Tosqueira no melhor dos sentidos, porque eu sou a favor do tosco. O tosco é bom. O tosco é verdadeiro. Seja tosco você também.

A Nina Simone, pra mim, era uma blueswoman. Ela lançou milhares de discos, muitos com big bands, muitos com orquestras e firulas. Mas a essência da Nina é ela e o piano. Só. Espancando e acariciando, doçura e fúria, revolta e candura, rebeldia e inocência. Simplicidade. A Nina blueswoman é quem eu levaria para uma ilha deserta se soubesse fazer uma vitrola de folha de bananeira e espinha de peixe.

Ela me mata. Ela me toca e me mata e me torce e me faz ouvir discos inteiros incessantemente por dias a dio, me faz cantar de olhos fechados e os punhos cerrados deitada no escuro do meu quarto, me faz aprender uma língua que não sei só para poder cantar “Ne Me Quitte Pas” direito, me faz escrever por noites e noites e noites só por causa de uma frase. A frase pode nem ser dela, mas parece que tudo que vem dela, é dela. Como “Ne Me Quitte Pas”, “You’ve Got to Learn”, “Love Me or Leave Me”, “I Get Alog Without You Very Well (Except Sometimes)”, “See Me When You Can”, “Feeling Good”, “I Shall Be Released”, “In The Dark” e até “I Put a Spell On You”. Tudo dela. Ela rouba as músicas e ninguém nunca consegue pegar de volta.

Tem uns discos ao vivo onde ela fica conversando com o público e rindo, e obrigando-os a cantar e tendo total controle sobre aquela gente. É impossível dizer “não” à Nina Simone. Dra. Nina Simone. E quando ela ri muito porque esqueceu um pedaço da letra, também fico rindo aqui, porque eu amo aquela mulher e a risada dela me deixa feliz. E quando ela chora cantando “Why? (The King Of Love Is Dead)”, em homenagem a Martin Luther King, eu choro junto, porque é muito real, muito fodido, muito forte. Como tudo que ela canta. A voz dela tem a densidade de uma bofetada, não dá para ficar impassível.

E as músicas? Tudo no “Nina Simone Released”: “Nobody’s Fault But Mine”. If I die and my soul be lost, nobody’s fault but mine. E “The Backlash Blues”? E “Do I Move You”? E “Blues for Mama”? E “I WANT A LITTLE SUGAR IN MY BOWL”? Ai, essa música, I want a little sweetness down in my soul, I could stand some loving, oh so bad, I feel so funny, I feel so sad. Pelo amor de deus. Quantas vezes já rebolei sozinha em casa de salto ouvindo essas músicas, quantas vezes já fui uma negra em um palquinho esfumaçado cantando essas músicas só para mim, quantas vezes já chorei sozinha, só eu e ela.

O jeito que a Nina tocava piano era único. Um acorde e já dava para saber quem era. Um jeito que só quem sentiu muita dor consegue, só quem tem um tornado por dentro consegue, só que tem o blues consegue. Nina, Nina. Que vontade de abraçá-la. Abraçá-la por tudo que ela fez e foi. Vi a Nina em 99, em um lugar cheio de brancos ricos que estavam lá para ver um show de jazz, daqueles que os ricos gostam, bem asséptico, bem sem emoção, sem cor como eles. Coitados. Mal sabiam eles que era a Nina, a Nina bêbada e acabada, sofrida, velha, mal-humorada e sem saco. Ninguém entendeu nada. Uns poucos ali sabiam que a Nina era só a cantora e a pinista de jazz (blues!) mais foda de todos os tempos. Só queria abraçá-la naquele dia. Abraçá-la, dizer obrigada e eu te amo. Fiquei com medo de levar um coice, achei melhor ficar na minha quando ela passou no meu ladinho nos bastidores, bem pertinho de mim, sem nem saber quantas vezes dormiu comigo.

A Nina era minha amiga. Uma grande companheira de momentos fodidos e solitários onde ninguém estava lá, ninguém escutava, ninguém entendia, estava a Nina do meu lado, cantando você tem que aprender, minha nêga, a sofrer e quebrar essa sua carinha bonita. Você tem que aprender e baixar a cabeça às vezes e se resignar e conviver com um coração partido. Me mostrando que mesmo não tendo casa, nem amor, nem diploma, carro ou um aparelho de som, nem roupas de inverno, nem pilhas no discman, nem comida ou um corte de cabelo, nem cheque, dinheiro ou cartão, nem perfume, nem meias sem furos, nem giletes, nem chuveiro quente, nem gás na cozinha, eu ainda tinha a minha vida e sangue correndo nas minhas veias. Me fazendo dizer “vai, faz o que você tem que fazer, mesmo que eu nunca mais possa te beijar, vai viver a sua vida.” E ele foi. E eu fiquei, eu e a NIna e os meus blues. Melhor assim. Porque segundo o Son House, a única maneira de ter os azuis (ai) é sofrendo por amor, é quando o coração dói. Eu e a Nina sofremos. Eu e a Nina temos os blues.

Eu nunca colhi algodão. Eu nunca sofri porque um líder da minha causa foi assassinado. Eu nunca vou saber o que era ter que entrar pela porta dos fundos e usar um banheiro diferente. Eu sou branca. Translúcida, para ser mais exata. Apesar de ter certeza que sou uma negra cantora de 111kg, nascida no Mississipi, sacudindo os quadris no calor, apontando o dedo com uma unha de quinze centímetros e falando alto enquanto mexo o pescoço, não, não: eu sou branca. Não adianta, não vou cantar como uma negra, nem sentir na pele o que todos os negros sentiram e ainda sentem. Nunca. Mas tudo bem, porque mesmo sendo desbotada, eu tenho os azuis. E quem me ensinou isso foi a Nina Simone, que agora está lá em cima, na grande jam session do céu, com uma garrafa de Bourbon e um sorriso no rosto, cantando pra sempre no meu coração.

*****

Para baixar o disco citado no texto acima:
http://files6.com/d?f=w772pe

É difícil apontar, pelo menos para mim – ainda mais porque falta muito a conhecer dela -, uma “música favorita” da Nina. São várias favoritas.

Graças à querida amiga Julya Vasconcelos (mãe do Antonio), conheci e gamei de primeira pela Gimme a Pigfoot (And a Bottle of Beer).

Nina Simone – Gimme a Pigfoot (And a Bottle of Beer)

Mas descobri outro dia uma versão de “No woman, no cry”, clássico do Rei Bob Marley, e tenho degustado sem moderação. Está disponível para download aqui:

http://www.4shared.com/audio/JVyxMT1u/Nina_Simone_-_14_-_No_Woman_No.html

E para quem gosta de cinema e achava que não conhecia Nina Simone, vale rever a cena final do belo “Antes do pôr do sol” (“Before Sunset”), com Julie Delpy e Ethan Hawke, ao som de “Just in Time” (na cena, Julie até imita os trejeitos da Nina):

Antes do pôr do sol – cena final ao som de Nina Simone:

Aqui a ótima sugestão da amiga Nina Amorim, outra amante da xará nascida na Carolina do Norte em 1933:

Nina Simone – Ain’t Got No…I’ve Got Life

Pra terminar, três dicas:

1. Se alguém quiser baixar a discografia completa pode encontrar aqui:
http://files6.com/nina_simone_download_rar

2. Um blog de primeira sobre música, onde descobri o livro do Alexandre Petillo e o texto da Clara Averbuck:
http://depredando.blogspot.com/2008/08/nina-simone.html

3. Para converter qualquer vídeo do Youtube em som mp3:
http://www.video2mp3.net/

E você, qual o disco que salvou sua vida? Conte nos comentários.


Responses

  1. Dentre alguns possíveis de citação, registro o primeiro disco de Cartola (1974 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Cartola_%28%C3%A1lbum_de_1974%29) como o álbum que “salvou” minha vida, por vários motivos.

  2. Valeu, maxu véi !
    Musica de primeira, foi um prazer conhecer um pouco da arte de nina simone.

    quando vier a fortaleza, não esqueça dos amigos
    um abraço na família!

    Maécio

  3. uau! foram vários discos que salvaram minha vida, até porque foram vários os momentos que precisei de salvaçao e é a música que costuma ser minha válvula de escape.

    Citarei o mais recente. Disco Neon Bible da banda Arcade Fire. Fase recém-casada, medo de cair na rotina de cuidar de casa e marido, foi com esta banda que me recriei aos 30 anos. =)


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