Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 27/05/2010

Siba e a Fuloresta, o melhor da música brasileira na década, faz show em Brasília

[Intróito necessário: Siba & a Fuloresta estão com show marcado para Brasília na semana da VII Feira Nacional da Agricultura Familiar, que ocorrerá na Concha Acústica, de 16 a 20 de junho próximo. Esse post é uma versão “pretensamente-jornalística” de uma mensagem que escrevi a uma amiga que não conhecia o grupo]

Atualização em tempo graças ao amigo Fernando Antunes: Siba faz show gratuito em Brasília NESSE DOMINGO (30/5) com Roberto Correa, às 17h, no Centro Cultural Banco do Brasil.

*****

Adoro “traficar” música boa pra amig@s, mas apresentar gente como Siba & a Fuloresta, que eu gosto mais do que pinto no lixo, é melhor ainda.

Muitos talvez lembrem de Siba como “o vocalista do Mestre Ambrósio”. A voz e o sotaque inconfundíveis são muito marcantes.

Depois que o Mestre Ambrósio deixou os palcos (em 2002), Siba passou a se dedicar muito à pesquisa dos sons e ritmos da Zona da Mata pernambucana (coisa que ele cresceu fazendo intuitivamente) e à composição com a turma do Fuloresta – que reúne a “nata” dos músicos dessa região que tem muito mais riqueza do que a renda gerada pela cana-de-açúcar esparramada por todos os cantos.

Fuloresta do Samba

Em 2003 saiu uma jóia: “A fuloresta do samba”, álbum  gravado ao vivo nos terreiros de Nazaré da Mata, onde os músicos literalmente fazem a festa e ficam bem à vontade para exercerem seus ofícios.

E em 2007 saiu o mais sofisticado e não menos fantástico “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”, recheado com participações especiais de gente muito boa no riscado musical: a diva Céu (em “Cantar ciranda”), os guitarristas Lúcio Maia, do Nação Zumbi (em “Alados”), e Fernando Catatau, do Cidadão Instigado (em “Meu time”, faixa-lamento pela decadência do outrora glorioso Santa Cruz, que hoje disputa a quarta divisão do Campeonato Brasileiro), e Isaar França e sua voz maravilhosa (em “A velha da capa preta”). Sem falar na arte do álbum, feita pela dupla de grafiteiros Otávio e Gustavo Pandolfo, “osgemos”, que até poucos dias estavam com exposição no Centro Cultural Banco do Brasil aqui em Brasília.

Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar

Escutar o som deles é como injetar na veia uma mistura de adrenalina (que acelera os batimentos) com pitadas de serotonina (que dá prazer).

E foi em 2009 que senti a dose mais forte dessa mistura especial, no show histórico, único, singular, durante o Carnaval Multicultural do Recife, reunindo Siba & a Fuloresta e Nação Zumbi.

Pegue a tradição estilizada (no som, nos arranjos e até no figurino) do maracatu rural e da ciranda que comanda a levada do Siba & a Fuloresta.

Junte com a potência da Nação Zumbi (inspirada no maracatu nação ou de baque virado e) expressa na guitarra do Lúcio Maia, na voz do Jorge Du Peixe, nos batuques da galera da cozinha e nas letras de Chico Science e dos seus discípulos que permanecem orgulhando o mestre, onde quer que ele esteja.

Siba "fantasiado" de Vadinho no carnaval 2009

O resultado foi uma noite de domingo (22/2) espetacular ao som do “Nação Fuloresta”, no Marco Zero.

Dengue, da Nação Zumbi

Tocando JUNTOS MESMO enquanto dividiram o palco. Guitarra com rabeca, alfaia com cuíca, baixo com saxofone, bateria com surdo, tarol, chocalhos e ganzá.

Siba vestido de Vadinho (da Dona Flor), Dengue (baixista do Nação) fantasiado de alguma coisa que não sei definir, Du Peixe com a camisa do Jack Daniels e a rapazeada da Fuloresta impecavelmente trajada.

Siba e Du Peixe no carnaval 2009

Fiquei emocionado, literalmente, vendo os dois grupos subirem ao palco, mas de arrepiar mesmo foi ouvir os primeiros acordes de “Trincheira da Fuloresta” abrindo o show.

A parceria deu tão certo que foi repetida na Virada Cultural de São Paulo em 2009. Eu estava lá, mas não consegui assistir.

Um amigo querido do Recife (Márcio Moneta) até comentou, logo no início do show do carnaval:

– Esse show merecia ser gravado e exibido pro Brasil todo.

Na minha modesta opinião, Siba & a Fuloresta é o projeto musical mais rico surgido no Brasil nos últimos 10 anos. Vida longa!

Fato triste foi a passagem do grande mestre Biu Roque (que ganhou até música da Céu em seu disco de estréia), falecido a 23 de abril, após complicações de um AVC. Biu Roque empresta a voz à faixa “A folha da bananeira”, no segundo disco do grupo.

Como se fosse pouco, os caras ainda são de luta. Várias letras versam sobre bandeiras da esquerda. Nada de se espantar se considerarmos o contexto social e político da Zona da Mata, sobre o qual o Eduardo Galeano escreveu algumas linhas importantes em seu livro clássico que completará 40 anos em 2011 – infelizmente, com muita atualidade ainda hoje:

O Nordeste brasileiro é, na atualidade, uma das regiões mais subdesenvolvidas do hemisfério ocidental. Gigantesco campo de concentração para trinta milhões de pessoas, padece hoje a herança da monocultura do açúcar. De suas terras nasceu o negócio mais lucrativo da economia agrícola colonial na América Latina. Atualmente, menos da quinta parte da zona úmida de Pernambuco está dedicada à cultura da cana-de-açúcar, e o resto não se usa para nada: os donos dos grandes engenhos centrais, que são os maiores plantadores de cana, dão-se a este luxo do desperdício, mantendo improdutivos seus vastos latifúndios. Não é nas zonas áridas e semi-áridas do interior nordestino onde as pessoas comem pior, como equivocadamente se crê. O sertão, deserto de pedra e arbustos ralos, vegetação escassa, padece fomes periódicas: o sol inclemente da seca abate-se sobre a terra e a reduz a uma paisagem lunar; obriga aos homens o êxodo e semeia cruzes às margens dos caminhos. Porém é no litoral úmido onde se padece a fome endêmica. Ali onde mais opulenta é a opulência, mais miserável se forma, terra de contradições, a miséria; a região eleita pela natureza para produzir todos os alimentos, nega-os todos: a faixa costeira ainda conhecida, ironia do vocabulário, como zona da mata em homenagem ao passado remoto e aos míseros vestígios da floresta sobrevivente aos séculos do açúcar. O latifúndio açucareiro, estrutura do desperdício, continua obrigado a trazer alimentos de outras zonas, sobretudo da região Centro-Sul do Brasil, a preços crescentes.

(…)

Meio quilo de farinha de mandioca equivale ao salário diário de um trabalhador adulto numa plantação de açúcar por sua jornada de sol a sol: se o operário protesta, o capataz manda buscar o carpinteiro para que tire as medidas do corpo, para saber o quanto de madeira será necessário para o caixão. Aos proprietários ou seus administradores continua em vigência, em vastas zonas, o “direito à primeira noite” de cada moça. (…) A jornada de trabalho em algumas plantações se paga a preços mais baixos do que a diária mais baixa da Índia. Um informe da FAO, Organização das Nações Unidas, assegurava em 1957 que na localidade de Vitória de Santo Antão, perto de Recife, a deficiência de proteínas “provoca nas crianças uma perda de peso 40% mais grave do que se observa geralmente na África”. Em numerosas plantações subsistem ainda as prisões privadas, “mas os responsáveis pelos assassinatos por subnutrição” – diz René Dumont – “não são presos nelas, porque são os que têm a chave”. (Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina, 1971)

Antes que eu esqueça, considero Siba um gênio musical do quilate do Chico Science. Ou a “versão rural” do malungo urbanóide Francisco de Assis França. E, por vezes, eles se encontram na inspiração. Chico nos deixou (em “Um passeio no mundo livre”) a máxima “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, enquanto Siba registra como título do segundo álbum do grupo uma idéia semelhante: “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”.

Quem quiser baixar os discos, acha aqui:

Fuloresta do Samba
http://www.4shared.com/file/pQd-L0ff/Siba_e_a_Fuloresta_-_2003_-_Fu.htm

Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar
http://www.mediafire.com/?mnoj0mefetz

PS: O “Fuloresta do Samba” foi produzido por Beto Villares, que é uma espécie de Midas nas técnicas da alquimia musical e ainda possui um disco sensacional, o “Excelentes lugares bonitos”. Beto já disse que esse ano sai outro disco dele. Aguardamos ansiosamente!

PS2: Não sou e nem tenho pretensões de ser crítico musical ou cultural, mas sou intensa e assumidamente apaixonado por tanta gente boa da cena de Pernambuco. E acrescento que sou cearense de nascimento, maranhense de criação, filho de baiano, encantado pelo cerrado que abriga a minha Brasília querida e orgulhoso de todos esses “excelentes lugares” citados.


Responses

  1. ADOREI o texto apaixonado! Adoro o Siba & a Fuloresta. Acho de uma riqueza!

    beijos

  2. Muito bom o texto, parabéns, obrigado pelas informaçoes, ha tempos tambem sou grande fã de todos eles, grandes artistas, fonte de inspiraçao e emoçao para muita gente que admira musica do Brasil e do mundo. Nos encontramoa la amanha, um grande abraço a todos. valeu!!!

  3. Adorei o texto, Roger!
    Parabéns!

    bjs, Nina.

  4. Excelente texto. Repassei para muitas pessoas. Vou conhecer o som dos caras, com certeza.

  5. […] um daqueles momentos que vou levar para o resto da vida na memória. Escrevi um pouco sobre o show aqui. A parceria foi repetida algumas vezes, inclusive na Virada Cultural de São Paulo do mesmo […]

  6. conheço o som dos caras não tem iguau valeu siba


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