Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/05/2010

Apagou-se a chama de Walter Rodrigues, amigo e mestre do jornalismo

– Venho pra cá na virada de ano e te ligo pra gente tomar uma gelada.
– Ok, fico no aguardo.

Em novembro de 2008, quando nos despedimos de uma conversa alegre e despreocupada, embora a outrora Ilha Rebelde tivesse acabado de escolher para a prefeitura o entulho da ditadura chamado João Castelo, jamais imaginaria que aquele seria o meu último abraço nele.

Conheci o jornalista Walter Rodrigues em 1999, no início da minha graduação na UFMA.  Apareceu no curso como convidado de algum debate organizado por outro grande amigo, Franklin Douglas, então professor do curso – de quem WR se afastaria anos mais tarde, por conta de desavenças irrelevantes, mas incontornáveis devido ao temperamento forte tão marcante daquele senhor sério, mas de humor sagaz e arguto sempre pronto para provocar quem estivesse perto.

Quando entrei no movimento estudantil, mas não por minha causa exclusiva, WR passou a ser convidado frequente das atividades do Diretório Acadêmico. Na época, era praticamente a única voz crítica, independente e qualificada da imprensa maranhense para as discussões políticas que fazíamos sobre o papel do jornalismo no Maranhão, no Brasil e no mundo.

As “entrevistas” que fazia com ele, que depois se tornaram conversas entre amigos, aumentavam à medida que crescia o meu engajamento político e a minha leitura de mundo e do jornalismo.

Além do básico – política e jornalismo -, abordávamos literatura, História, música, esportes e até recebi muitos conselhos sobre paixões e relacionamentos com as musas.

Duas coisas me impressiovam muito: a memória aguçada e a forte convicção que emprestava a qualquer opinião. Essa postura, várias vezes, se traduzia em teimosia e o fez se indispor com muita gente, pelo simples fato de ele ter extrema dificuldade em dar o braço a torcer.

Defeito pequeno perto das virtudes.

Walter na minha defesa de TCC, em agosto de 2003, sentado à frente do professor Chico Gonçalves, membro da banca que me arguía

“Cancelei tudo pra te assistir”, me disse no dia da minha defesa de monografia, em agosto de 2003, o que me deixou muito alegre e com o peso da responsabilidade em não decepcioná-lo.

E me deixou desconcertado quando soltou enfático elogio no lançamento do “Vozes da Democracia”, livro do Intervozes sobre a ditadura e a redemocratização do qual participei em duas reportagens.

Walter, eu e Márcio Jerry, no lançamento do "Vozes da Democracia" em São Luís, dezembro de 2006, na livraria Poeme-se

– Vou dizer uma coisa a vocês, eu estou aqui muito surpreso porque já tinha visto o Rogério falar em muitas ocasiões, mas antes ele falava rápido, enrolado e às vezes eu nem conseguia entender o que ele dizia. Mas hoje estou vendo que ele melhorou muito e isso é uma grata surpresa para mim.

Foi processado inúmeras vezes pela família Sarney. E muita gente da esquerda – tanto petistas quanto pedetistas e militantes de outros partidos e segmentos sociais – o acusou de ter virado sarneísta em tempos mais recentes.

Disse-lhe que ele exagerava algumas vezes e que era até injusto com quem divergia, transformando discordâncias circunstanciais em motivo para desconfianças quanto à idoneidade de seus opositores.

Independentemente de divergências pontuais*, já que tivemos muitas e discutimos duramente algumas vezes, ele jamais deixou qualquer dúvida sobre a sua posição acertada em relação a um tema: foi um intransigente e incondicional defensor dos direitos humanos.

Denunciou e combateu incansavelmente as arbitrariedades policiais, sobretudo a tortura. Não admitia que a humanidade conseguisse conviver com a contradição de ser capaz de fabricar naves espaciais e, ao mesmo tempo, submeter seres humanos a tratamentos que lhes retiravam a condição humana para se tornarem objetos. Ao final do texto, reproduzo seu brilhante artigo acerca da decisão absurda do STF de considerar legítima a Lei da Anistia de 1979.

Nesta linha, enfrentou também, já na década de 1980, os abusos da Vale, da Alumar e da Alcoa, sempre dando espaço em sua tribuna ao movimento sindical para denunciar as violações da legislação trabalhista – que, afinal, nada mais eram do que violações ao trabalho enquanto direito humano.

Em 2005 e 2006, ultrapassou a condição de mero jornalista para se tornar um militante ativo na luta – vitoriosa – do Movimento reage São Luís para barrar a implantação do maior pólo siderúrgico do mundo na Ilha de Upaon-Açú (nome oficial da ilha que abriga São Luís), projeto comandado pela Vale, em consórcio com a chinesa Baosteel, a francesa Arcelor, a alemã Thyssen-Krupp e a sul-coreana Posco.

Embora fosse lulista convicto e assumido, sempre criticou a inépcia do PT maranhense. Para isso, costumava comparar os resultados eleitorais dos petistas em estados vizinhos com os pífios êxitos obtidos na terra de Sarney.

Com Flávio Dino, empolgou-se na campanha à prefeitura de 2008. “Precisamos de algo novo e a única coisa decente e nova que existe aí é o Flávio”, dizia, sem deixar de criticar a campanha (incluindo a postura do candidato) e sem esquecer as brigas com o próprio Flávio, anos antes.

Em 2009, passei apenas de relâmpago em São Luís, duas vezes, justamente vindo de Belém, sua terra, em conexão para Brasília. Apesar disso, nos falamos por telefone muitas vezes e frequentemente por e-mail.

Este ano, já estive três vezes na Ilha, mas priorizei os encontros com familiares e acabei desmarcando a visita à casa dele duas vezes. Na segunda desfeita, na Páscoa, ele até demonstrou uma certa insatisfação por e-mail, mas naquela linha do amigo que diz ao outro: “agora só acredito vendo, não adianta marcar”.

Senti sua dor amarga nos últimos anos, ao falar de amigos ou referências do jornalismo que faleceram, sendo Jurivê Macedo – jornalista de Imperatriz, segunda principal cidade do Maranhão – o mais recente exemplo desta categoria, em texto publicado em sue blog (http://www.walter-rodrigues.jor.br) na segunda (17).

Seu último texto publicado falou do Bolsa Família, mencionando pesquisa do PNUD que desmente uma tese da direitona que tem grande inserção no senso comum: a de que o Bolsa Família torna seus beneficiarios dependentes e preguiçosos e, portanto, arrefece a disposição pela busca de emprego.

O amigo e jornalista Walter Rodrigues parte e deixa uma imensa lacuna no cotidiano. Ficou nos devendo, também, um bom livro com algumas das suas melhores reportagens.

A falha do coração na noite desta terça-feira, 18 de maio, foi coerente com um desejo que ele certa vez expressou. “Prefiro morrer do coração ainda lúcido e pensante a ficar gagá e não conseguir mais escrever algo que preste. Existe coisa piro do que perder a capacidade de raciocinar?!”, dizia ele, embora eu não acreditasse muito.

Além disso, Walter nos deixou no plano físico exatamente no Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infanto-Juvenil. Logo ele, o mais ativo jornalista a cobrar das autoridades maranhenses a resolução do célebre caso dos meninos emasculados, no qual mais de vinte crianças e adolescentes foram assassinados entre 1991 e 2003, em episódio que levou o Brasil ao banco dos réus na OEA. Acasos da vida…

Descanse em paz, mestre. Sua obra continuará.

*Entre outras, uma das nossas maiores divergências situava-se no debate sobre cotas raciais. Ele questionava a eficácia e preferia as políticas universais.

Não deixe de ler a bela homanagem do Itevaldo Júnior ao WR:

http://www.itevaldo.com/?p=4341

*****

http://www.walter-rodrigues.jor.br/detalhe.php?ART_ID=2467

A tortura recorrente

Walter Rodrigues – 29/04/2010

Centenas de pessoas foram torturadas pela ditadura do Estado Novo (1937-45), dirigida por um civil, garantida pelas Forças Armadas e coonestada pelo Judiciário.

O chefe maior da ditadura era o presidente Getúlio Vargas. O comandante maior dos militares, o  general Eurico Gaspar Dutra. O empreiteiro maior da tortura, capitão Filinto Müller, chefe de Polícia do Distrito Federal (Rio de Janeiro).

Tradição da polícia brasileira, a tortura não esperou pela vigência do Estado Novo para vingar. Já era largamente praticada contra presos políticos pelo menos desde 1935, quando o governo Vargas sufocou a revolta comunista conhecida na historiografia oficial como “intentona”.  Dois anos depois, pretextando uma conspiração fictícia, fechou o Congresso e assumiu plenos poderes, entre os quais o de prender e arrebentar quem quisesse.


Quando os militares estadonovistas derrubaram Vargas em 1945 e convocaram eleições, as poucas vozes que reclamaram a punição dos torturadores foram abafadas pelo clamor das elites pela “conciliação”. Conciliaram tanto que o esquema Vargas (PSD-PTB) elegeu Dutra presidente, legalizando um quadriênio repressivo muito semelhante ao decênio da ditadura, conforme acentua o historiador militar e marxista Nelson Werneck Sodré.

Ditadura de cada um

Depois de Dutra, reacionário e submisso aos interesses dos EUA, Vargas retornou “nos braços do povo”. Aí, contra o nacional-trabalhismo varguista, arregimentaram-se as forças da direita tradicional, simbolizadas no civil Carlos Lacerda. Que abominavam o ex-ditador mas não queriam outra coisa, como se viu depois, que estabelecer a própria ditadura deles.

A rigor, pouca gente no período defendia sincera ou coerentemente a democracia e as liberdades públicas (inclusive a liberdade de imprensa), sem as quais não há proteção possível contra os homens das cavernas.

O Partido Comunista mirava-se no regime de Stálin, o arquiditador soviético, e dava tantas cambalhotas quanto conviesse à linha justa. Os trabalhistas, à falta de melhor, cultuavam Vargas, “anistiando” o tirano do passado. A UDN de Lacerda e outras facções da direita norte-americanófila,  com apoio da maioria da grande imprensa, conspiravam para derrubar o presidente e instaurar um governo de força antipopular.

Anistia no palanque

Vargas tombou em agosto de 1954 — novamente acuado pelos militares, deu-se um tiro no peito. “Saiu da vida para entrar na História”, como deixou escrito na chamada carta-testamento. Com o passar dos tempos, quase ninguém se lembra mais dos porões do Estado Novo. A direita o critica por estatismo, a maioria da esquerda o defende por nacionalista e pela proteção ao direito dos trabalhadores (pouca, mas antes dele praticamente não tinham nenhum). Da tortura poucos falam porque poucos tem moral para falar.

O próprio líder comunista Luiz Carlos Prestes de certo modo anistiou seus algozes num famoso comício em que apertou a mão de Vargas diante do mundo. Fora preso e torturado e ainda sofrera o desgosto de ver a mulher, judia-alemã, grávida, ser entregue à implacável polícia política de Hitler. Olga Benário daria à luz em campo de concentração e ali seria morta numa câmara de gás. Mas Prestes, exercitando friamente uma conciliação “de esquerda”, juntava-se ao assassino da esposa numa “frente anti-fascista” recomendada pela União Soviética.

Capricho divino

O suicídio de Vargas adiou por 10 anos o golpe militar intentado novamente em 1961 e finalmente vitorioso com a derrubada de João Goulart em 64. Com os coturnos no poder, reinstitucionalizou-se e exacerbou-se a tortura em larga escala.

Filinto Müller, o açougueiro impune da era Vargas, ressurgiu como presidente do partido do Governo no cinzento ano de 1969 e era o presidente do Senado imposto pelo poder fardado quando morreu num grande acidente de aviação em Paris. Na ocasião, dizia-se que o sinistro provava que Deus existia, sim, mas não era onipotente. Pois precisara matar outros 122 passageiros e tripulantes só para liquidar com o monstro Filinto.

Por tudo que fez e ajudou a fazer, essa criatura sem piedade sofreu apenas piadas póstumas. Em compensação, uma das alas do Senado leva o nome dele e deve ser nome de rua ou praça em inúmeras cidades do Mato Grosso, estado que lhe deu quatro mandatos senatoriais.

Qual Filinto haverá de ressurgir da próxima vez? Dificilmente será o general Leônidas Pires Gonçalves, ex-diretor do DOI-CODI do Rio, mais tarde ministro do Exército no governo pós-ditatorial do presidente José Sarney. Já na casa dos 80, Leônidas reapareceu há pouco para declarar que sob o comando dele não havia tortura. Talvez o coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, sob cuja direção o DOI-CODI de São Paulo, em quatro anos, prendeu 2000 pessoas, das quais torturou mais de 500 (contando apenas os que  ousaram denunciar seus carrascos) e assassinou pelo menos quarenta.

Nota — Dedico este artigo ao procurador-geral da República e aos ministros do Supremo Tribunal Federal que resolveram seguir a tradição brasileira de que a tortura de prisioneiros políticos é apenas um excesso de zelo imposto pelas circunstâncias aos oficiais da repressão, e não um crime contra a Humanidade, imprescritível e imperdoável, como declara o melhor direito internacional.

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Responses

  1. Agora há pouco, comentei com Itevaldo. Parece que foi ontem que vi o WR pela primeira vez, convidado por você, para uma conversa conosco, aspirantes a jornalistas, no auditório do CCSo, em 2003.
    Nos últimos dois anos, ficou mais próximo, chegado mesmo, por causa do Itevaldo. Acho que a última vez, eu, Itevaldo e ele, no Bar do Léo, um domingo à tarde. Conversamos muuuito!
    Ele adorava brincar conosco… ríamos muito.
    São esses momentos bons e o exemplo de fazer jornalístico que ficarão marcados na memória.

  2. Fui pega de surpresa agora pela manhã com a notícia em teu blog. não tive muito contato com ele, a não ser pela entrevista que fizemos para o trabalho, citado por ti, na disciplina de franklin. tinha grande respeito por ele, por parecer sincero em sua luta cotidiana pela justiça.

    bom também ver a foto da tua defesa de monografia. eu estava lá, apesar de não aparecer. lembro-me de ter me emocionado no final e agora me emociono novamente.

  3. Walter Rodrigues foi um dos maiores patrimônios intelectuais que o Pará cedeu ao Maranhão nos últimos anos. Sua morte tão prematura deixará um vazio nos dois Estados, aos quais serviu com seu jornalismo independente, seu texto saboroso e seu humor inesgotável. Tornou-se uma fonte de referência indispensável sobre a história contemporânea do Maranhão. Foi uma honra, para mim, ter trabalhado com ele no nosso semanário alternativo de 1975, o Bandeira 3, e tê-lo colocado como correspondente de O Estado de S. Paulo em São Luís. E foi um privilégio ler seus artigos sobre esse vasto e desafiador mundo. A dor de perdê-lo é muito grande. Espero que os gonçalvinos lhe dêem a despedida de que ele é merecedor, no próprio nome e também em nome dos paraenses.

    • Lúcio,
      Das inúmeras lembranças, recordo também a profunda admiração e o imenso respeito que o Walter nutria por você e pelo seu trabalho, bem como dos debates de alto nível que vocês travaram. Realmente, a dor é grande. Mas o exemplo de vida dele nos inspira a transformarmos a dor em energia para seguirmos fazendo o que ele fazia, já que a luta era e é de todos nós.

  4. É certo que os apreciadores dos textos críticos, destemidos, muitas vezes polêmicos, e sempre inteligentes que meu tio escrevia, hoje sentem sua falta. Pra nós da família que, morando em Belém, ficamos distantes de todo o ritual de despedida, as manifestações de carinho e admiração de vocês, são o único conforto. Por isso, peço que mantenhamos viva a chama inquietante que motivou toda a sua luta. Não poderia haver melhor homenagem!


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